Ilza Girardi: "O interesse econômico muitas vezes impede o jornalismo de abordar questões ambientais"

Em entrevista para o site do PPGCOM, a professora Ilza Maria Tourinho Girardi fala sobre a jornada de estudos “Jornalismo e Conflitos Ambientais”, que ocorre esta semana, e enfatiza a importância de se introduzir a temática ambiental nos cursos de comunicação

Professora Ilza Maria Tourinho Girardi, PPGCOM, GPJA, jornalismo ambiental

Referência em estudos ambientais, a professora Ilza Maria Tourinho Girardi foi a responsável por incluir a disciplina de Jornalismo Ambiental, em 2004, na grade curricular do curso de Comunicação Social – Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde é professora titular do Departamento de Comunicação e atua como docente-pesquisadora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação (PPGCOM).

Líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq, Ilza capitaneou a organização da Jornada de Estudos do PPGCOM “Jornalismo e Conflitos Ambientais”, que será realizada na Fabico nos dias 16 e 17 de junho, reunindo profissionais e pesquisadores para debater o papel da comunicação diante de conflitos ambientais.

Nesta entrevista, concedida à mestranda do PPGCOM Francielly Brites, a professora diplomada em Jornalismo pela UFRGS, mestre em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo e doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, fala sobre a programação do evento e destaca a importância de se introduzir a temática ambiental nos cursos de comunicação. 


A jornada "Jornalismo e Conflitos Ambientais" debaterá o papel social do jornalismo para a democracia. Por essa ótica, quais medidas poderiam ser tomadas pelas universidades para os jornalistas estarem preparados para comunicar os riscos e cobrir os conflitos?
As universidades têm um papel fundamental na formação do jornalista pra que ele esteja preparado para coberturas de conflitos ambientais, que serão cada vez mais frequentes e em maiores proporções por diversas razões. Uma delas, pelos efeitos das mudanças climáticas e, consequentemente, também teremos problemas na produção de alimentos. Por isso, precisamos de jornalistas preparados para poderem atuar nesse sentido. A disciplina de Jornalismo Ambiental, oferecida em algumas universidades, incluindo a UFRGS, tem uma papel fundamental. Não é uma informação a mais, é uma informação ligada ao nosso cotidiano e até à nossa sobrevivência. Estamos percebendo já nos últimos tempos os efeitos das mudanças climáticas, nas diferenças de temperaturas extremas no verão e no inverno, chuvas intensas e secas. Sinais como esses podem ser alguma coisa cíclica ou realmente uma mudança climática. Nós, enquanto jornalistas, temos que ter uma atenção quanto a isso para sabermos tratar desse tema, divulgar, partilhar as informações com a cidadania para que as pessoas façam alguma coisa. Nós, enquanto cidadãos, temos o direito de saber e participar das decisões. Estão discutindo no Rio Grande do Sul uma tentativa de alteração do Código Florestal para flexibilizar as leis ambientais. Isso para quê? Para favorecer o agronegócio. Ao fazer isso, vamos diminuir áreas de preservação, áreas de matas. Sempre existem pessoas de bancada rural que querem diminuir aquela área que por lei deve existir. Alguns ruralistas acham que implica em prejuízo para eles, mas pode ser prejuízo na visão equivocada, é uma atitude de precaução em relação ao que pode acontecer com o nosso futuro de preservação dos ecossistemas. A nossa vida e a de outros seres vivos depende disso.

Como você avalia o trabalho da imprensa hoje para a prevenção de desastres ambientais?
Ainda é muito limitado, mas existem trabalhos bem feitos. A questão toda é o lucro, a visão capitalista. A exploração de areia e a mineração são coisas muito graves. Ficar mexendo em areias do fundo do rio, como o Guaíba, por exemplo, é grave. Existem muitas substâncias tóxicas depositadas no fundo, como materiais pesados, quando se começa a mexer, a água faz essas substâncias subirem e depois elas vão para a água que vamos beber ou que vão irrigar lavouras. Todo o processo de mineração tem que ter normas e regras, não se pode detonar o meio ambiente e a qualidade de vida por causa do lucro. No caso de Mariana, em Minas Gerais, a área da Samarco é uma coisa horrível e eles já estão se ajeitando para voltar a funcionar sem terem resolvido o problema das vítimas. Foi esse episódio que nos fez propor esse tema para a nossa jornada. Precisamos discuti-lo e é isso que vamos fazer nessa questão das minerações, que acontecem no Brasil e em outros países, como no Uruguai. Se não tivermos um jornalismo para olhar e investigar, para denunciar, para partilhar com a sociedade, os cidadãos não têm como saber. O Rio Grande do Sul é o maior consumidor de agrotóxicos do Brasil, que é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. São muitas questões que temos que investigar e denunciar. Ocorre que o interesse econômico muitas vezes impede o jornalismo de fazer isso.

 

Desastre ambiental Mariana (MG), rompimento barragem Samarco, distrito Bento Rodrigues. Foto: Agência Senado - Rogério Alves/TV Senado

O desastre ocorrido em Mariana (MG), devido ao rompimento da barragem da mineradora Samarco, é resultado da falta de fiscalização. Qual é a função social do jornalista para que desastres como esse não sejam desencadeados? 
É fundamental começar a alertar a população e fazer investigação. A mineração é um problema no Brasil. Uma sugestão é falar com universidades. Os jornalistas certamente encontrarão pesquisadores que vão saber de problemas e que poderão fazer denúncias. No Brasil, nós temos uma ONG chamada Justiça nos Trilhos, ela sabe tudo sobre mineração, pode-se entrar em contato para saber o que está acontecendo para começar a produzir matérias e alertar a população. Só uma população informada pode lutar pelos seus interesses. Quando teve o desastre, a imprensa foi muito reticente no início. Acredito que tenha sido um choque. Primeiro, o que fazer? Eu digo imprensa, mas nós temos que pensar em dirigentes de jornais, proprietários e chefes. A Samarco é da Vale, são patrocinadores. Eu vou mexer com o patrocinador? As pessoas cobraram via redes sociais e eles começaram a dar notícia. Aquilo foi uma tragédia. É uma tragédia. Ter ocorrido na mesma época dos atentados em Paris também fez com que a questão ambiental ficasse em segundo lugar. A questão é: por que o meio ambiente não aparece? Por que quando se tem que ter uma opção, ele nunca está em primeiro lugar? Porque ele mexe diretamente com interesses econômicos. As pessoas que trabalham com essa área sempre fazem uma crítica muito forte ao modo de produção capitalista, que explora, um modo de explorar que também foi usado por países comunistas. É explorar a natureza, a mão de obra e a força do trabalhador com o fim de obter lucros com uma pessoa ou uma empresa ou um país. Nós temos histórias lamentáveis de destruição do meio ambiente para a obtenção de alguma coisa, algum minério, detonar tudo e deixar os locais praticamente inabitáveis com a intenção de obter lucro. Com a visão de obtenção do lucro, o meio ambiente é sempre um entrave para o avanço, tanto do governo quanto das empresas. Porque o governo, de qualquer partido, também não é santo.

Quais são os temas que devem ser levantados pela imprensa?
A imprensa tem que continuar investigando para ver outros empreendimentos que correm riscos. Temos no sul do Pará a exploração de minérios, talvez não como o de Minas Gerais, mas eu conheço a situação da Alcoa. Uma área que teve a permissão do governo para explorar durante 100 anos. A população começou a se queixar porque a água do rio estava mudando de cor e houve um aumento da poeira, mudando a qualidade de vida. Nós temos muitas situações no Brasil para olharmos e denunciarmos. Há desmatamento nas florestas em todos os biomas e desrespeito às áreas indígenas e quilombolas. No início do ano, vi uma entrevista ex-ministro Delfim Netto dizendo que temos ainda o cerrado para avançar e plantar soja. Bom, mas o cerrado é um bioma, ele precisa ser preservado, parece que não se dão conta disso. O que me deixa ainda mais impressionada é a tentativa de liberar agrotóxicos que são proibidos argumentando que eles são liberados em outros países. Já houve também a tentativa de mudar a lei e mudar o nome dos agrotóxicos para aliviar o significado. Agrotóxico é o que é, tóxico, é o veneno que faz mal. São questões que precisamos falar. Também tentaram tirar o rótulo dos transgênicos. Por que tirar o rótulo dos transgênicos? Os consumidores têm o direito de saber o que estão comendo. Eles pensam longe, sabem que logo vamos exigir saber qual agrotóxico foi usado no que comemos.

Além do papel do jornalista de debater assuntos ambientais e de cobrir desastres, qual a sua posição quanto à investigação em caso de exploração e apropriação de recursos naturais?
As reportagens investigativas devem existir cada vez mais porque essa é a função do jornalismo. O jornalismo, ao fazer isso, enfrenta vários problemas, entre eles, a dificuldade de acessar dados, apesar de termos direito com a Lei de Acesso à Informação. Além disso, jornalistas são ameaçados de morte por fazerem investigação nesse campo no Brasil. Apesar disso, temos que investir nas investigações, no curso e na formação. Conhecer as técnicas e trabalhar com jornalismo de dados, geojornalismo e demais metodologias para conseguirmos captar os dados, fazer cruzamentos e também a própria investigação, que não é a policial, é para chegarmos nessa apuração dos fatos.


Qual o papel e a ética do jornalista como mediador entre os governos e demais organizações com a sociedade no quadro ambiental?
O jornalista sofre esse tipo de constrangimento. Tem alguns que conseguem fazer, mas muitos veículos são atrelados aos interesses econômicos, então eles impedem que seus repórteres façam o trabalho como deveria ser feito. Isso é um problema que precisamos discutir. Como podemos resolver isso? O jornalista tem que ter muito conhecimento sobre o assunto para conseguir vender essas pautas para o editor. Deve ter dados e informações para conseguir convencer o editor de que isso é importante, mas pode ser que mesmo assim o editor não aceite porque vai afetar interesses diretos dos jornais. Por exemplo, empresas jornalísticas que têm interesses imobiliários certamente irão vetar que seus repórteres façam investigações acerca de alterações no plano diretor ou avanço de áreas de construção de condomínios na área rural da cidade, no caso de Porto Alegre. Existem muitos interesses em jogo. No Brasil, temos pessoas que conseguem fazer um jornalismo independente, como a Agência Pública, que trabalha com projetos que são financiados por fundações, o Jornal Já, que faz campanhas online, o Sul 21, entre outos.


De que maneira os jornalistas podem abordar temas ambientais de forma atrativa e educativa?
Discutimos muito isso. As notícias falam sobre riscos e catástrofes, mas abordar esses assuntos pode afastar as pessoas que já estão cansadas de problemas. Temos que encontrar outra forma de chamar a atenção das pessoas. Ao invés de falarmos na destruição, vamos falar na construção. Não vamos falar que agrotóxico mata, vamos incentivar as feiras ecológicas, a agricultura ecológica. Ao ressaltar o sabor de um alimento produzido de forma orgânica podemos introduzir o tema dos agrotóxicos. Não estamos em um beco sem saída, só precisamos mudar a ótica, mudar o modo de viver. Mas é claro que essa nova forma de viver impacta a visão produtivista.

 

Feira ecológica Porto Alegre, Rua José Bonifácio. Foto: Eugenio Hansen/OFS/Wikipedia Como manter um ecossistema equilibrado em um mundo em que tudo é descartável - celulares, equipamentos, todos feitos para durar alguns anos?
Isso tudo deve ser repensado. Nós temos hoje feiras ecológicas e o Rio Grande do Sul é precursor no Brasil. Eu tenho muita alegria de ter participado disso. Criamos as feiras ecológicas através da Cooperativa Ecológica Coolmeia. São momentos de encontros de pessoas, de agricultores que produzem alimentos, não uma commodity, não um produto, mas um alimento para gerar vida para outras pessoas. Existe uma relação de parceria, respeito e amizade entre o agricultor e o consumidor. Essas são formas de economias solidária. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) tem muito disso em seus assentamentos e isso vai se expandindo. Passando para outras situações, na Europa, já estamos vendo que tem até supermercados que estão vendendo produtos orgânicos. Aqui nós só conseguimos nas feiras e, mesmo assim, colocamos em saquinhos plásticos. Quando a Colmeia existia não usávamos sacolas plásticas, as pessoas tinham que levar o seu saquinho. O plástico é um problemão para a natureza, além dele levar mais de 500 anos para se decompor, ele é engolido por animais, gera asfixia, além de substâncias que o compõem que afetam o nosso sistema endócrino. Vamos pensar na limpeza doméstica, os produtos que usamos para deixar nossa casa limpa e perfumada, todos eles fazem mal à nossa saúde e afetam o nosso sistema endócrino. Então, não dá para limparmos a casa? Dá! É só comprarmos outro tipo de sabão, como o de coco, usar álcool e produtos de limpeza de feiras ecológicas.

As campanhas de conscientização têm mobilizado?
Eu acredito que sim. O Greenpeace é um exemplo de ONG que consegue bastante. É bem poderosa, tem dinheiro e recebe contribuições de pessoas do mundo todo, consegue fazer mobilizações impactantes. As nossas ONGs daqui também fazem eventos. Até mesmo o Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS), em parceria com o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq, que tem a Terça Ecológica, que é um espaço de debates. A Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) e o Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (InGá) também fazem eventos de conscientização. Os governos também deveriam fazer campanhas. Muitas coisas mudaram por pressão popular. Se não fosse por isso, não teríamos feiras ecológicas e uma lei dos agrotóxicos, por mais que ela seja desrespeitada.


Até que ponto as redes sociais podem ser aliadas para a divulgação de informações sobre o meio ambiente?
As redes sociais são muito importantes. Temos visto o ativismo político nas redes sociais e muitas informações para a causa ambiental. As redes têm muito poder e temos que saber usá-las. Também cabe aos professores universitários trabalhar a comunicação comunitária e outras formas de comunicação, como trabalhar com escolas. Nós estamos fazendo isso no Núcleo de Comunicação Comunitária e vamos realizar oficinas nessas ocupações das escolas para poder socializar metodologias de comunicação para as pessoas construírem suas próprias redes, uma rádio poste e rádios comunitárias. Se os meios de comunicação não estão nos satisfazendo, nós temos que criar os nossos e empoderar a sociedade para que ela faça isso. Nas experiências que eu tive, no Morro da Cruz e no Quilombo do Sopapo, vemos que existem pessoas da comunidade trabalhando muito, fazendo trabalhos magníficos que não têm visibilidade na imprensa. Ouvir essas pessoas e criar canais para que elas falem é muito emocionante. Fiquei encantada com o que vi nas comunidades. Começaremos as oficinas ainda em junho com professores de escolas públicas sobre comunicação comunitária e assuntos socioambientais. Abordaremos várias ferramentas de comunicação e explicaremos como utilizar o celular para fazer vídeos, entrevistas e outras ferramentas de transmissão ao vivo. Isso deve ser democratizado porque mais pessoas devem ter acesso a isso. As faculdades de comunicação têm o dever de fazer isso e nós estamos tentando fazer a nossa parte.


O que tem se pesquisado na universidade sobre como o jornalismo se comporta em relação ao meio ambiente?
Já fizemos pesquisa sobre o discurso da sustentabilidade, que é cheio de armadilhas. Uma coisa é pensar a sustentabilidade do planeta, mas uma empresa poluente também pode falar sobre isso, o que ela quer dizer com isso? É bem complicado. No próprio grupo de pesquisa estudamos o discurso da sustentabilidade analisando como ele é construído, sempre atrelado à questão da economia. Investigamos sobre o que é entendido como conceito de jornalismo ambiental em teses e dissertações. A partir desse estudo, vimos que poucos dos que estudam conseguem dar um conceito. Se tu queres trabalhar com jornalismo ambiental, tu tens que saber o que é. A nossa pesquisa atual envolve jornalistas do Brasil, América Latina, Espanha, Portugal e países africanos de língua portuguesa também nesse sentido, para saber o que os jornalistas que estão atuando pensam sobre jornalismo ambiental. Depois disso, o objetivo é publicar um livro sobre o que é jornalismo ambiental e o que pensam os jornalistas. Para o nosso grupo de pesquisa, o jornalismo ambiental é um jornalismo que trata das questões socioambientais, é um jornalismo posicionado, que defende de forma intransigente a vida. Ele tem como inspiração a ecologia profunda, que reconhece o valor intrínseco da vida de todos os seres, que precisam ser respeitados. Procura contemplar a visão sistêmica. Se a gente aceita comer uma comida, por exemplo, contaminada por algum agrotóxico, aquele agrotóxico colocado naquela lavoura irá contaminar aquele solo, aquela lavoura, aquele ar, quem aplicou e todas as pessoas que consumirem. Tem uma complexidade nisso tudo. O jornalismo ambiental tem uma posição, algo a defender, então, ele é engajado. No início, as pessoas diziam que isso não é jornalismo, porque o jornalismo tem que ser neutro e imparcial. Nós não somos imparciais, essa é a questão. 


Edição: Taís Seibt

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