História

A pesquisa em Fisiologia no sul do país teve seu início na década de cinquenta, quando ainda não havia tradição de pesquisa nas universidades brasileiras, salvo raras exceções (Instituto de Biofísica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Escola Paulista de Medicina e Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). As cátedras dedicavam-se apenas ao ensino de suas respectivas disciplinas. Porém, uma convergência de vários fatores favoráveis contribuiu para que, em 1954, a cátedra de Fisiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul fosse transformada em instituto de ensino e de investigação científica – Instituto de Fisiologia Experimental.

Era então responsável pela Cátedra de Fisiologia o Livre-Docente Pery Riet Corrêa, que substituía interinamente o Catedrático Raul Pilla, afastado para cumprir sucessivos mandatos como Deputado Federal. E tendo estagiado no Instituto de Biologia y Medicina Experimental de Buenos Aires, sob a direção do eminente cientista argentino Bernardo A. Houssay (1947, Prêmio Nobel em Medicina e Fisiologia, 1947), Riet retornara entusiasmado com a investigação científica. Propôs, então, à Direção da Faculdade de Medicina a transformação daquela cátedra em instituto dedicado à pesquisa, a par da atividade docente.

Esta proposta recebeu grande apoio do Diretor, Guerra Blessmann, sendo finalmente aprovada pelo Conselho Universitário, presidido na época pelo Reitor Elyseu Paglioli, administrador de grande visão. Assim, antecipando-se à reforma universitária posteriormente implantada no país (1970), passaram a atuar no Instituto de Fisiologia Experimental os docentes das Faculdades e Escolas que ministravam Fisiologia: Pery Riet Corrêa e Jayme Domingues, livre-docentes e Levy A. de Souza e Joaquim A. Osório, instrutores, da Faculdade de Medicina; Edgar M. Wagner, assistente, e Leonardo Schiffino, instrutor da Faculdade de Odontologia (este último transferido após dois anos para a cadeira de Clínica Odontológica); Celso Paulo Jaeger, assistente da cátedra de Zoologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras; Mozart Pereira Soares, catedrático e Ivan Carlos Von Poser, assistente da Escola de Agronomia e Veterinária; e a bióloga Maria Marques, contratada no cargo de auxiliar técnico para colaborar nas pesquisas.

Na mesma ocasião, a CAPES, há pouco tempo criada, e então coordenada por Anisio Teixeira, estava interessada em trazer pesquisadores estrangeiros para colaborar na formação de docentes nas universidades brasileiras. E, por uma feliz coincidência, era assessor da CAPES para esse fim específico, o Professor Rubens Maciel, Catedrático de Propedêutica Médica na Faculdade de Medicina da UFRGS, que muito contribuiu para o estabelecimento de um Convênio com o Professor Houssay e sua equipe de pesquisadores para dar início aos trabalhos de pesquisa no recém criado Instituto de Fisiologia Experimental. Naquela época, esse grande cientista estava afastado da cátedra de Fisiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires por incompatibilidade com a política peronista então vigente na Argentina.

Assim, durante dois anos, Houssay e vários de seus discípulos passaram, sucessivamente, de um a dois meses no novo Instituto em Porto Alegre, orientando trabalhos de investigação principalmente nas áreas de Endocrinologia, Fisiologia Cardiovascular e Neurofisiologia. Além de Houssay, vieram os Professores Virgilio G. Foglia, Ricardo R. Rodriguez, Eduardo Braun Menéndez, Carlos Rapela, Miguel R. Covian, Oscar Orias e Moisset de Espanés, todos respeitados cientistas.

Nesse meio tempo, em 1955, ingressou no Instituto como instrutor de ensino pela Faculdade de Medicina, Eduardo M. Krieger, que iniciou sua formação científica trabalhando com Braun-Menendez na área de Fisiologia Cardiovascular em Porto Alegre e, posteriormente, em Buenos Aires, e a completou em estágio no laboratório do Prof. W. Hamilton em Augusta, Georgia, EUA. Enquanto se encontrava ainda no exterior, por incompreensível e precipitada medida tomada pelo Diretor do Instituto de Fisiologia Experimental, Krieger foi destituído de seu cargo de instrutor de ensino na Faculdade de Medicina da UFRGS. E, ao regressar ao país, foi convidado para trabalhar no Departamento de Fisiologia da recém criada Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, onde desenvolveu brilhantes carreiras docente e científica, tornando-se uma das maiores expressões da Fisiologia no Brasil. Esse fato, indiscutivelmente, representou irreparável perda para o Instituto e para a ciência no sul do país.

A contribuição de Houssay e de seus discípulos foi de inestimável valor para a rápida transformação do ambiente universitário envolvido apenas com o ensino, em um centro de pesquisa produtivo e respeitado, de tal forma que a CAPES passou a enviar docentes de outras universidades brasileiras para estagiarem nesse novo Instituto. Na época, a Pós-Graduação ainda não havia sido institucionalizada no país e o Instituto de Fisiologia Experimental era considerado um centro adequado para treinar docentes de Fisiologia, pois além da pesquisa, empenhara-se na melhoria do ensino, aumentando o número de aulas práticas e introduzindo trabalhos experimentais a serem realizados pelos próprios alunos. Iniciara-se, também, um sistema de monitoria ainda não existente na Universidade e cujas bolsas eram subvencionadas com doações da industria farmacêutica. E, para completar o quadro de excelência de uma instituição voltada ao ensino e à pesquisa, foi criada um biblioteca setorial com rico acervo de livros-texto para uso dos alunos, e coleções completas dos mais importantes periódicos de Fisiologia e alguns de áreas afins. Esta biblioteca, que surpreendia ilustres visitantes do país e do exterior, foi fruto da incansável dedicação de seu Diretor, Pery Riet Corrêa, que obteve os recursos iniciais em campanha promovida junto a empresas comerciais de Porto Alegre.

Importante, também, foi o apoio financeiro recebido do CNPq e da Fundação Rockefeller para a aquisição dos equipamentos básicos indispensáveis e para o custeio dos trabalhos experimentais.

Durante o Convênio, que perdurou por dois anos, o Prof. Houssay e muitos de seus colaboradores alternavam-se em visitas de um mês, ocasião em que deram início às linhas de pesquisa e treinaram o pessoal docente.

Ao término do Convênio, segundo o relatório do próprio Houssay enviado à CAPES, os principais resultados obtidos foram: “1) Importante adestramento do pessoal no método científico e formação do espírito científico; 2) Entusiasmo, disciplina, constância e seriedade no trabalho; 3) Organização de um laboratório com recursos que permitem realizar tarefas modernas de ensino e investigação; 4) Costume de expor de maneira concisa e precisa; 5) Maior capacidade para consultar bibliografia e melhor conhecimento da informação moderna; e 6) Feitos vários trabalhos de investigação, corretamente realizados e outros estão em andamento”.

Desta forma, os pesquisadores do Instituto, assim preparados e bastante motivados, deram então continuidade às linhas de pesquisa iniciadas, resultando em várias publicações.

Nos anos subsequentes o quadro de pessoal do Instituto foi sendo acrescido de novos docentes, ao mesmo tempo em que alguns saíam para estágios no exterior, ampliando o intercâmbio com outros importantes centros de pesquisa.

O bom nível da pesquisa do Instituto de Fisiologia Experimental tornou-se logo reconhecido no país, sendo esse Instituto considerado um centro de treinamento de docentes de Fisiologia. Anualmente, a CAPES enviava bolsistas provenientes de Universidades deste ou de outros estados (Pará, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Ceará, Minas, São Paulo, etc.) para adquirirem experiência com o ensino prático de Fisiologia, ao mesmo tempo em que colaboravam nos trabalhos de pesquisa. Não havia sido ainda institucionalizada a Pós-Graduação no país.

Por sua contribuição ao desenvolvimento da pesquisa em ciências fisiológicas no estado, merece ser mencionada a fundação da Sociedade de Fisiologia do Rio Grande do Sul em 1966 (única sociedade regional de Fisiologia no país, até hoje), a qual congrega não só docentes de Fisiologia como de áreas afins (farmacologia, biofísica, e ciências morfológicas, principalmente) e que, desde então, vem promovendo encontros anuais para apresentação e discussão de trabalhos científicos. Essas reuniões, realizadas alternadamente em Porto Alegre ou em cidades do interior do estado, principalmente em Pelotas, Santa Maria e Rio Grande, têm contribuído para estimular a pesquisa em outras universidades gaúchas, instituídas no decorrer dos anos. Além disso, a participação de destacados cientistas brasileiros, como conferencistas convidados a esses encontros, proporcionou maior intercâmbio com pesquisadores de outras regiões do país.

Cabe destacar o estímulo recebido em várias oportunidades dos Professores Cesar Timo Iaria, Eduardo M. Krieger, Gerhard Malnic, José Antunes Rodrigues, Naomi Hell e Renato Migliorini.

Por ocasião da implantação da reforma universitária em 1970, o Instituto de Fisiologia Experimental, após dezesseis anos de constante atividade como centro de pesquisa e ensino de Fisiologia na UFRGS, foi extinto, muito embora já apresentasse a nova estrutura introduzida pela reforma, isto é, a reunião em Departamentos de todos os docentes de uma mesma área de conhecimento. Aquele Instituto que simplesmente poderia ter mudado de nome para Departamento de Fisiologia, por injunções políticas que não cabem aqui analisar, passou a Departamento de Fisiologia, Farmacologia e Biofísica, reunindo também ex-catedráticos de outras disciplinas pouco afins. É bem sabido por todos aqueles que vivenciaram essa fase de transição nas universidades brasileiras que foram imensas as dificuldades surgidas com a reunião, em uma mesma unidade acadêmica, de docentes com formação e interesses distintos. Para a Fisiologia, esses problemas foram ainda maiores, não pelo convívio com professores de áreas afins, o que poderia ser vantajoso, mas simplesmente pela reunião de grande número de docentes sem qualquer interesse em pesquisa, sendo alguns até totalmente contrários. Antes da reforma, em 1968, o idealizador do Instituto de Fisiologia Experimental e seu dinâmico diretor, Prof. Pery Riet Corrêa, havia solicitado aposentadoria, assumindo a organização do Departamento de Ciências Fisiológicas na recém criada Faculdade de Medicina de Rio Grande, hoje integrante da Fundação Universidade Federal de Rio Grande. Em consequência desses fatos, ocorreu inevitável retrocesso nas atividades de pesquisa, pondo em risco perder todos aqueles investimentos do passado.

Essas dificuldades, entretanto, foram aos poucos sendo superadas pela perseverança e grande empenho dos pesquisadores do ex-Instituto de Fisiologia Experimental. E, aproveitando a nova política do governo e da própria universidade que criara a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, em decorrência da implantação da pós-graduação no país, Celso Jaeger organizou, em colaboração com docentes do Departamento de Fisiologia, Farmacologia e Biofísica, um Programa de Mestrado em Fisiologia Animal.

Este Programa de Mestrado foi credenciado pelo Conselho Federal de Educação em 1976 (Parecer nº 2691/76) como Curso de Pós-Graduação em Ciências Biológicas, concentração Fisiologia, recredenciado pelo CFE em 1983 (Parecer nº 154/83) e em 1990 (Parecer nº 171/90).

As atividades desse Programa proporcionaram, desde então, a vinda de professores visitantes, estabelecendo-se intercâmbios muito produtivos. Destaca-se, nessa época, a colaboração entre o Professor Juan M. Dellacha da Faculdade de Farmácia e Bioquímica da Universidade de Buenos Aires e Maria Marques, com apoio inicial do PROGRAMA PNUD/UNESCO (1979/l983), seguida por Projeto Binacional do CNPq/CONICET (1985/1986), e continuada sem recursos específicos até a aposentadoria de ambos pesquisadores, na década de noventa.

O apoio financeiro da FINEP a partir de 1983 proporcionou um incremento satisfatório da produção científica no campo da Fisiologia, de tal forma que em 1987 a CAPES recomendou a organização de um Programa de Doutorado em Fisiologia, o qual foi aprovado pela Câmara Especial de Pós-Graduação e Pesquisa (Parecer nº 309/87). Este Programa obteve o credenciamento pelo Conselho Federal de Educação (Parecer nº 709/94).

Paralelamente, nesse período, vários docentes de Fisiologia mantiveram intercâmbio científico com pesquisadores de instituições brasileiras e do exterior, especialmente de países do Cone Sul. Cabe destacar, dentre outros, a estreita colaboração com pesquisadores do INCOR, do Instituto de Ciências Biomédicas e da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, todos da Universidade de São Paulo, com vários grupos da Faculdade de Farmácia e Bioquímica da Universidade de Buenos Aires e pesquisadores do Instituto Clemente Estable da Universidade da Republica do Uruguai.

Em 1991, o Conselho Universitário da UFRGS aprovou o desdobramento do Departamento de Fisiologia, Farmacologia e Biofísica do Instituto de Biociências em três novos Departamentos, iniciando a Fisiologia uma nova fase de sua história. Em 1997, este novo Departamento passou a integrar o Instituto de Ciências Básicas da Saúde, desmembrado do antigo Instituto de Biociências.

É inegável que, no decorrer de meio século, houve real progresso nas atividades de pesquisa no campo da Fisiologia no Rio Grande do Sul, como pode ser constatado ao apreciar as linhas de pesquisa atualmente desenvolvidas na UFRGS e em outras universidades, criadas ao longo do tempo.

Há também intercâmbio científico com pesquisadores da Faculty of Medicine, Thomas Jefferson University, Filadelfia, Estados Unidos, do Hospital Necker da Université de Paris 6, França, do Department of Biology, Vrije Universiteit, Amsterdam, Netherlands e Laboratory of Neurobiology, Department of Psichology, University of Hawaii, Honolulu.

Com o retorno de docentes que concluíram o Doutorado no país ampliou-se o intercâmbio científico com pesquisadores brasileiros, mantendo-se estreita colaboração com o INCOR e Faculdade de Medicina da USP e com o Instituto de Biofísica “Carlos Chagas Filho” da UFRJ.

Até a presente data, o Programa formou 198 Mestres e 98 Doutores que, na sua maioria, são hoje docentes em várias Universidades do país.

Foram Coordenadores desse Programa os Professores Celso Paulo Jaeger (06/1969-05/1973), Maria Marques (06/1974-06/1982), Guillermo Federico Wassermann (07/1982-05/1988), Aldo Bolten Lucion (06/1988-06/1992), Poli Mara Spritzer (07/1992-12/1996), Roselis Silveira Martins da Silva (01/1997-12/1998), e Aldo Bolten Lucion (01/1999-04/2003), Adriane Belló Klein (05/2003-04/2007), Ilma Simoni Brum da Silva (05/2007-04/2011), Maria Flávia Marques Ribeiro (05/2011-04/2013), Ilma Simoni Brum da Silva (05/2013-2015), Alex Sander Araujo (04/2015-04/2017) e Guilherme Baldo (04/2017 - atual). 

Com uma tradição de pesquisa ininterrupta por mais de cinquenta o Programa apresenta um microambiente favorável e estimulador à investigação científica, podendo ser considerado um pólo de excelência no país, capacitado a contribuir com produção científica de relevância nessa área de conhecimento e a formar novos pesquisadores qualificados.

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