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Vítor Manuel de Aguiar e Silva Teoria da Literatura

hedonista ou uma finalidade pedagógico-moralista. E dizemos quase sem exceção, porque alguns casos se podem mencionar nos quais se patenteia com maior ou menor acuidade a consciência da autonomia da literatura. Calímaco, por exemplo, característico representante da cultura helenística, procura e cultiva uma poesia original, rica de belos efeitos sonoros, de ritmos novos e gráceis, alheia a motivações morais. Séculos mais tarde, alguns trovadores provençais transformaram a sua atividade poética numa autêntica religião da arte, consagrando-se de modo total à criação do poema e ao seu aperfeiçoamento formal, excluindo dos seus propósitos qualquer intenção utilitária. Um fino conhecedor da literatura medieval, o Prof. Antonio Viscardi, escreve a este respeito: "O que conta é a fé nova da arte, em que todos observam e praticam com devoção sincera". Desta fé nasce o

sentido trovadoresco da arte que é o fim de si mesma. A arte pela arte é descoberta dos trovadores.

 

(...)

 

4. Já atrás nos referimos, acerca das doutrinas da arte pela arte, a uma importante finalidade freqüentemente assinalada à literatura: a evasão. Em termos genéricos, a evasão significa sempre a fuga do eu a determinadas condições da vida e do mundo, de um mundo imaginário, diverso daquele de que se foge, e que funciona como sedativo, como ideal compensação, como objetivação de sonhos e de aspirações.

A evasão, como fenômeno literário, é verificável quer no escritor quer no leitor. Deixando para ulterior e breve análise o caso deste último, examinemos primeiramente os

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