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Vítor Manuel de Aguiar e Silva Teoria da Literatura

delícias e a importância psicológica e moral dos estados de rêverie; antes de Kafka, ignoravam-se muitos aspectos do universo tentacular, labiríntico e absurdo em que vive o homem moderno. Pense-se, por exemplo, que apenas os escritores pré-românticos e românticos exprimiram a tristeza das coisas em si mesmas: constitui hoje um deslavado lugar-comum da tristeza do luar, mas foi Goethe quem primeiro revelou essa tristeza, tal como Chateaubriand revelou a melancolia dos sinos e Laforgue a solidão e abandono dos domingos:

 

Fuir? Où aller, par ce printemps?

Dehors, dimance, rien à faire....

 

6. Data de Aristóteles o problema da catarse como finalidade da literatura. Na Poética, afirma explicitamente o Estagirita que a

função própria da poesia é o prazer (hedone), não um prazer grosseiro e corruptor, mas puro e elevado. Este prazer oferecido pela poesia não deve por conseguinte ser considerado como simples manifestação lúdica, devendo antes ser entendido segundo uma perspectiva ética, como se conclui da famosa definição de tragédia estabelecida por Aristóteles: "A tragédia é uma imitação da ação, elevada e completa, dotada de extensão, numa linguagem temperada, com formas diferentes em cada parte, que se serve da ação e não da narração, e que, por meio da comiseração e do temor, provoca a purificação de tais paixões".

Não é fácil interpretar com inteira segurança este passo dessa obra tão obscura que é a Poética. Já no entardecer do século XVI, um comentarista de Aristóteles, Paolo Beni, coligia doze interpretações

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