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delícias e a importância psicológica
e moral dos estados de rêverie; antes de Kafka, ignoravam-se
muitos aspectos do universo tentacular, labiríntico e absurdo em
que vive o homem moderno. Pense-se, por exemplo, que apenas os escritores
pré-românticos e românticos exprimiram a tristeza das
coisas em si mesmas: constitui hoje um deslavado lugar-comum da tristeza
do luar, mas foi Goethe quem primeiro revelou essa tristeza, tal como
Chateaubriand revelou a melancolia dos sinos e Laforgue a solidão
e abandono dos domingos:
Fuir? Où aller, par ce printemps?
Dehors, dimance, rien à faire....
6. Data de Aristóteles o problema
da catarse como finalidade da literatura. Na Poética,
afirma explicitamente o Estagirita que a
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função própria da poesia é
o prazer (hedone), não um prazer grosseiro e corruptor, mas puro
e elevado. Este prazer oferecido pela poesia não deve por conseguinte
ser considerado como simples manifestação lúdica,
devendo antes ser entendido segundo uma perspectiva ética, como
se conclui da famosa definição de tragédia estabelecida
por Aristóteles: "A tragédia é uma imitação
da ação, elevada e completa, dotada de extensão,
numa linguagem temperada, com formas diferentes em cada parte, que se
serve da ação e não da narração, e
que, por meio da comiseração e do temor, provoca a purificação
de tais paixões".
Não é fácil interpretar
com inteira segurança este passo dessa obra tão obscura
que é a Poética. Já no entardecer do século
XVI, um comentarista de Aristóteles, Paolo Beni, coligia doze interpretações
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