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Ela sofria continuamente, sentindo-se nascida
para todas as delicadezas e todos os luxos. Sofria com a pobreza de seus
aposentos, com a miséria das paredes, com a deterioração de cadeiras,
com a fealdade das decorações. Todas essas coisas, de que uma outra mulher
de sua casta não teria tomado conhecimento, a torturavam e a indignavam.
A vista da pequena bretã que a servia em seu lar humilde despertava nela
desolados queixumes e sonhos desatinados. Imaginava as antecâmaras mudas
forradas de tapeçarias orientais, iluminadas por altos candelabros de
bronze e com dois grandes criados de calças curtas que dormem nas grandes
poltronas, narcotizados pelo calor incômodo da lareira. Imaginava grandes
salões guarnecidos de seda antiga, de móveis finos encerrando bibelôs
inestimáveis e pequenos salões galantes, perfumados, o chá das cinco,
com os
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amigos mais íntimos, as homens conhecidos e procurados,
cuja atenção todas as mulheres invejam e desejem!
Quando ela se sentava, diante da mesa redonda
coberta com uma toalha de três dias, em face do marido que destampava
a terrina declarando num ar encantado: "Ah! o cozido gostoso! não conheço
nada melhor do que isso..." , ela imaginava jantares finos, pratarias
reluzentes, tapeçarias povoando as paredes de personagens antigos e pássaros
estranhos no meio de uma floresta de magia; imaginava pratos esquisitos,
servidos em baixelas maravilhosas, galantarias sussurradas e ouvidas com
um sorriso de esfinge, ao comer a carne rosada de uma truta, uma asa de
perdiz.
Não tinha toaletes, jóias, nada. E não amava
senão isso; sentia-se feita para isso. E tanto desejaria agradar, ser
invejada, ser sedutora e procurada!
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