PSIBlog da Psicologia da Educação UFRGS

agosto 11, 2008

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Emília Ferreiro РAlfabetização e cultura escrita

Filed under: — admin @ 10:47 am

Entrevista com Emília Ferreiro
Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/0162/aberto/mt_245461.shtml

“Quem alfabetiza com textos variados prepara melhor para a internet”

Desde os anos 1980, n√£o √© poss√≠vel tratar de alfabetiza√ß√£o sem falar de Emilia Ferreiro. A psicoling√ľista argentina, disc√≠pula de Jean Piaget, revolucionou o conhecimento que se tinha sobre a aquisi√ß√£o da leitura e da escrita quando lan√ßou, com Ana Teberosky, o livro Psicog√™nese da L√≠ngua Escrita, em que descreve os est√°gios pelos quais as crian√ßas passam at√© compreender o ler e o escrever. Cr√≠tica ferrenha da cartilha, ela defende que os alunos, ainda analfabetos, devem ter contato com diversos tipos de texto. Passadas mais de duas d√©cadas, o tema permanece no centro dos interesses da pesquisadora, que se indigna com quem defende o m√©todo f√īnico de alfabetiza√ß√£o, baseado em exerc√≠cios para treinar a correspond√™ncia entre grafemas e fonemas. Professora do Centro de Investiga√ß√£o e Estudos Avan√ßados do Instituto Polit√©cnico Nacional, do M√©xico, Emilia est√° √† frente do site www.chicosyescritores.org, em que estudantes escrevem em parceria com autores renomados e publicam os pr√≥prios textos. Ela esteve em S√£o Paulo em mar√ßo e concedeu a seguinte entrevista.

O que é ser alfabetizado hoje?

Considero a alfabetização não um estado, mas um processo. Ele tem início bem cedo e não termina nunca. Nós não somos igualmente alfabetizados para qualquer situação de uso da língua escrita. Temos mais facilidade para ler determinados textos e evitamos outros. O conceito também muda de acordo com as épocas, as culturas e a chegada da tecnologia.

A senhora sustenta a import√Ęncia de levar o estudante a refletir sobre a escrita, j√° que √© assim que ele aprende. Qual sua opini√£o sobre o m√©todo f√īnico (baseado no treinamento pr√©vio da correspond√™ncia entre grafemas e fonemas)?

Eu n√£o aceito discutir alfabetiza√ß√£o hoje nos mesmos termos que se discutia nos anos 1920. Os defensores do m√©todo f√īnico n√£o levam em conta um dado que sabemos hoje ser fundamental, que √© o n√≠vel de conscientiza√ß√£o da crian√ßa sobre a escrita. Ignorar que ela pensa e tem condi√ß√Ķes de escrever desde muito cedo √© um retrocesso. Eu n√£o admito que a pro√≠bam de escrever. A tradi√ß√£o f√īnica sempre foi dominante nos pa√≠ses anglo-sax√Ķes. E l√° se aprende a ler antes de escrever. Felizmente n√£o √© o que acontece nos pa√≠ses latinos.

O que é essa consciência fonológica?

√Č a possibilidade de fazer voluntariamente certas opera√ß√Ķes com a oralidade que n√£o s√£o espont√Ęneas. √Č poss√≠vel dizer uma palavra, “lado”, por exemplo, e depois omitir o primeiro segmento f√īnico. “Ado” n√£o significa nada. Isso pode ser um jogo divertido. A l√≠ngua tem a propriedade de ser partida em unidades de distintos tipos at√© chegar √†s letras. A√≠ n√£o posso dividir mais. Essa √© uma habilidade humana. A divis√£o em s√≠labas se d√° praticamente em todas as culturas.

“Ignorar que a crian√ßa pensa e tem condi√ß√Ķes de escrever desde muito cedo √© um retrocesso”

De que maneira se adquire a consciência fonológica?

Desde pequenos participamos naturalmente de jogos em que cada s√≠laba corresponde a uma palma, por exemplo. A √ļnica divis√£o que n√£o surge naturalmente no desenvolvimento √© em unidades menores que uma s√≠laba, ou seja, em fonemas. Um adulto analfabeto e uma crian√ßa analfabeta n√£o conseguem fazer isso de maneira espont√Ęnea. Quando eu adquiro a linguagem oral, tenho uma certa capacidade de distin√ß√£o f√īnica, sen√£o n√£o distinguiria pata de bata. Mas parece que isso funciona num universo completamente inconsciente.

O que vem primeiro, a aquisição do sistema alfabético ou a consciência fonológica?

À medida que a criança se aproxima da escrita alfabética, sua capacidade de análise do oral também permite análises de pedaços cada vez menores do que é falado. A discussão é a seguinte: já que as duas coisas ocorrem ao mesmo tempo, tenho de desenvolver primeiro a consciência fonológica esperando que ela se aplique à escrita? Ou posso introduzir o aluno na escrita para que haja uma contribuição à sua consciência fonológica? Acredito na segunda opção. Isso se dá em virtude do contato dele com os textos, do seu esforço para escrever e do trabalho em pequenos grupos, onde ele discute com os colegas a necessidade de utilizar determinadas letras.

Essa relação entre a consciência fonológica e a aquisição do sistema alfabético tem sido estudada por pesquisadores?

Publiquei um artigo em 1999 sobre um estudo realizado com crian√ßas com m√©dia de idade de 5 anos e 7 meses, no M√©xico. Eram passadas tarefas que verificavam a consci√™ncia fonol√≥gica dos estudantes, isto √©, se eles eram capazes de analisar palavras em peda√ßos menores que s√≠labas. Ao mesmo tempo, eles realizavam exerc√≠cios que investigavam seu n√≠vel de conceitua√ß√£o da escrita. As crian√ßas eram da pr√©-escola e n√£o estavam sendo alfabetizadas. Os resultados mostraram correla√ß√Ķes alt√≠ssimas entre o n√≠vel de conscientiza√ß√£o da escrita e os recortes em contextos orais. Duas pesquisadoras americanas acabaram de publicar um estudo com crian√ßas inglesas em que as mesmas conclus√Ķes s√£o apresentadas.

Com a internet, o perfil do leitor mudou. No contato com a rede, há alguma diferença no desempenho dos estudantes alfabetizados nessas duas metodologias?

Sempre defendi o acesso imediato da crian√ßa a jornais, revistas, livros de literatura, dicion√°rios, enciclop√©dias. A tend√™ncia de quem n√£o compartilha da minha opini√£o √© ter livros com n√≠veis de dificuldades seriados. Com o advento da internet nasceu tamb√©m o espa√ßo mais intertextual e mais variado que existe, mais at√© que uma biblioteca. Ou seja, quem est√° alfabetizando com textos variados prepara sua turma muit√≠ssimo mais para a internet do que quem faz um trabalho mostrando primeiro uma letrinha e depois a outra. Para utilizar o computador e a internet √© preciso enfrentar todo o alfabeto ao mesmo tempo. No teclado, as letras aparecem juntas ‚ÄĒ e, como se n√£o bastasse, fora de ordem.

“Letramento no lugar de alfabetiza√ß√£o, tudo bem. A coexist√™ncia dos dois termos √© que n√£o funciona”

Além da alfabetização, hoje se fala muito em letramento. De onde vem o termo?

A palavra letramento √© tradu√ß√£o de literacy. Em sua origem, ela significa alfabetiza√ß√£o e muito mais. Se entrarmos em qualquer site de busca e digitarmos “literacy” aparecem muitos endere√ßos. Encontra-se uma s√©rie de combina√ß√Ķes com esse termo, como computer literacy, mostrando que o significado atual dessa palavra em ingl√™s √© expertise, √© ter conhecimento. Mas √© muito importante compreender que a express√£o computer literacy n√£o designa a habilidade de usar a l√≠ngua escrita por meio de um computador. Seu significado √© a habilidade para usar os comandos da m√°quina, para entrar num processador de texto e nos programas elementares.

Letramento é a melhor tradução para literacy?

N√£o. √Č cultura escrita. E isso n√£o tem in√≠cio depois da aprendizagem do c√≥digo. Se d√°, por exemplo, no momento em que um adulto l√™ em voz alta para uma crian√ßa ‚ÄĒ e nas fam√≠lias de classe m√©dia isso ocorre muito antes do in√≠cio da escolaridade. Ou seja, o processo de alfabetiza√ß√£o √© desencadeado com o acesso √† cultura escrita.

O letramento representa um conceito novo ou é apenas um modismo?

H√° algum tempo, descobriram no Brasil que se podia usar a express√£o letramento. E o que aconteceu com a alfabetiza√ß√£o? Virou sin√īnimo de decodifica√ß√£o. Letramento passou a ser o estar em contato com distintos tipos de texto, o compreender o que se l√™. Isso √© um retrocesso. Eu me nego a aceitar um per√≠odo de decodifica√ß√£o pr√©vio √†quele em que se passa a perceber a fun√ß√£o social do texto. Acreditar nisso √© dar raz√£o √† velha consci√™ncia fonol√≥gica.

√Č indispens√°vel usar o termo letramento, ent√£o?

Eu não uso a palavra letramento. Se houvesse uma votação e ficasse decidido que preferimos usar letramento em vez de alfabetização, tudo bem. A coexistência dos termos é que não dá.

2 Coment√°rios »

  1. preciso de sugest√Ķes de exercicio para avan√ßar alunos de n√≠vel pr√© silabicos e silabicos, me ajude

    Comment by monica maria campos — outubro 22, 2008 @ 7:16 pm

  2. Ol√°!

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    Sauda√ß√Ķes!

    Comment by admin — outubro 23, 2008 @ 6:33 pm

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