PSIBlog da Psicologia da Educação UFRGS

setembro 12, 2008

Inscreva-se no RSS

A linguagem e as opera√ß√Ķes intelectuais – Piaget

Filed under: — admin @ 3:17 pm

Autor: Jean Piaget, professor da Faculdade de Ciências de Genebra e da Sorbonne.

Fonte: PIAGET, Jean et al. Problemas de psicoling√ľ√≠stica. S√£o Paulo: Mestre Jou, 1973. p√°g. 63-74

Agrade√ßo ao nosso comit√™ que me tenha solicitado o presente relat√≥rio. Aceitei primeiro a id√©ia com prazer mas, em seguida, foi com uma certa inquieta√ß√£o que o preparei, visto que n√£o tratarei, de fato, da linguagem propriamente dita e, sobretudo, porque j√° desenvolvi muitas vezes o que vou dizer sobre as suas rela√ß√Ķes com as opera√ß√Ķes. Teria sido melhor pedirem-me esta exposi√ß√£o h√° quarenta anos, quando das minhas primeiras obras, numa √©poca em que acreditava nas rela√ß√Ķes estreitas entre a linguagem e o pensamento e pouco mais estudava do que o pensamento verbal. Desde ent√£o, o estudo da intelig√™ncia sens√≥rio-motora antes da linguagem, os resultados obtidos por A. Rey na sua an√°lise de A Intelig√™ncia Pr√°tica da Crian√ßa, depois o invent√°rio das ‚Äúopera√ß√Ķes concretas‚ÄĚ de classes, de rela√ß√Ķes ou de n√ļmeros (com o seu paralelo infral√≥gico no dom√≠nio das opera√ß√Ķes espaciais e da medida), que se desenvolvem entre 7 e 12 anos, muito antes do n√≠vel das opera√ß√Ķes proposicionais (sendo estas √ļltimas as √ļnicas que podem influir em enunciados simplesmente verbais), fizeram-me ver que existe uma l√≥gica de coordena√ß√Ķes de a√ß√Ķes mais profunda do que a l√≥gica vinculada √† linguagem e muito anterior √† das ‚Äúproposi√ß√Ķes‚ÄĚ, no sentido estrito.

Sem d√ļvida, a linguagem nem por isso deixa de ser uma condi√ß√£o necess√°ria √† realiza√ß√£o das estruturas l√≥gicas, em todo caso no n√≠vel dessas estruturas proposicionais, pelo menos; mas isso n√£o significa que constitua uma condi√ß√£o suficiente de forma√ß√£o e ainda menos no tocante √†s estruturas l√≥gico-matem√°ticas mais elementares. √Č sobre essas insufici√™ncias da linguagem que insistirei principalmente, pois se todo o mundo se apercebe da sua contribui√ß√£o, cujo alcance espero reconhecer, enfim, como decisivo, tamb√©m se esquece, com demasiada freq√ľ√™ncia, o papel das a√ß√Ķes e da pr√≥pria intelig√™ncia operat√≥ria.

As principais estruturas operat√≥rias est√£o, √© verdade, inscritas na linguagem corrente sob uma forma quer sint√°tica, quer inerente √†s significa√ß√Ķes (sem√Ęntica). No que diz respeito, primeiramente, √†s ‚Äúopera√ß√Ķes concretas‚ÄĚ que visam diretamente os objetos (classes, rela√ß√Ķes e n√ļmeros), a distin√ß√£o ling√ľ√≠stica dos substantivos e adjetivos corresponde, em suas linhas gerais, √† distin√ß√£o l√≥gica de classes e predicados e, em fun√ß√£o do sentido atribu√≠do aos diferentes substantivos, toda e qualquer linguagem comporta classifica√ß√Ķes relativamente elaboradas: limitando-nos ao sentido corrente das palavras pardal, ave, animal e ser vivo, o sujeito falante pode da√≠ concluir que todos os pardais s√£o aves, que todas as aves s√£o animais e que todos os animais s√£o seres vivos sem que as rec√≠procas sejam verdadeiras, o que constitui um encaixamento hier√°rquico de classes, isto √©, uma classifica√ß√£o. Afirmar, por outro lado, que as baleias s√£o ‚Äúao mesmo tempo‚ÄĚ mam√≠feros e animais aqu√°ticos consiste em exprimir uma interse√ß√£o ou multiplica√ß√£o de classes, princ√≠pio das classifica√ß√Ķes multiplicativas e n√£o mais simplesmente aditivas. Os termos av√ī, pai, filho, irm√£o, tio, sobrinho etc. bastam para determinar uma estrutura de √°rvore geneal√≥gica ou de multiplica√ß√Ķes co-un√≠vocas de classes ou de rela√ß√Ķes. Os comparativos ‚Äúmaior do que‚ÄĚ etc. conduzem √†s seria√ß√Ķes etc. e a seq√ľ√™ncia de n√ļmeros inteiros est√° inscrita no vocabul√°rio corrente. No tocante √†s opera√ß√Ķes proposicionais ou formais, a linguagem formula as principais: a implica√ß√£o (‚Äúse … ent√£o‚ÄĚ), a disjun√ß√£o exclusiva ou n√£o exclusiva (‚Äúou… ou‚ÄĚ)¬Ļ. E a possibilidade de raciocinar sobre simples hip√≥teses, que √© o apan√°gio dessas opera√ß√Ķes hipot√©tico-dedutivas, est√° precisamente assegurada por uma tal manipula√ß√£o da l√≠ngua. A silog√≠stica traduz-se diretamente por formas verbais adequadas, a tal ponto que foi poss√≠vel censurar √† l√≥gica de Arist√≥teles o ter sido algo dominada pela gram√°tica. Quanto √†s estruturas diferenciadas e refinadas demais para que seja poss√≠vel exprimi-las pela linguagem corrente, os matem√°ticos e os l√≥gicos criaram, para seu uso pr√≥prio, linguagens artificiais ou t√©cnicas mas que, psicologicamente, s√£o ainda linguagens.

Portanto, √© natural que, tanto do lado dos psic√≥logos como dos epistemologistas, tenham-se imposto aquelas teorias que procuram reduzir exclusivamente √† linguagem, do ponto de vista simultaneamente gen√©tico e causal, o conjunto de opera√ß√Ķes intelectuais, para n√£o dizer o pensamento todo (com a √ļnica reserva das imagens mentais de ordem cin√©tica ou visual). N√£o √© numa assembl√©ia de psic√≥logos que se deve lembrar, sobre esses pontos, os trabalhos e as tend√™ncias da corrente behaviorista originada em Watson. Mas talvez seja interessante assinalar a completa converg√™ncia dessas posi√ß√Ķes com as de uma escola epistemol√≥gica que trabalhou, primeiro, em completa independ√™ncia (na √©poca do ‚ÄúC√≠rculo de Viena‚ÄĚ) para, em seguida, manter com o behaviorismo, na acep√ß√£o estrita, as mais estreitas rela√ß√Ķes, depois que os ‚Äúvienenses‚ÄĚ tiveram de emigrar para os Estados Unidos. Um dos fundadores desse ‚Äúempirismo (ou positivismo) l√≥gico‚ÄĚ, R. Carnap, come√ßou por sustentar que a l√≥gica toda consistia, t√£o somente, numa sintaxe geral, no sentido ling√ľ√≠stico do termo. Depois, e paralelamente a Tarski, foi levado a anexar-lhe uma ‚Äúsem√Ęntica‚ÄĚ geral, mas isto tampouco nos faz cruzar as fronteiras da linguagem. Finalmente, Morris mostrou-nos a necessidade (n√£o reconhecida, ali√°s, por toda a Escola), a fim de se poder explicar o car√°ter operativo da l√≥gica, de completar a sintaxe e a sem√Ęntica log√≠sticas com uma ‚Äúpragm√°tica‚ÄĚ; mas continua se tratando de regras de utiliza√ß√£o de uma linguagem e, de maneira nenhuma, de uma l√≥gica da a√ß√£o. Se percorrermos a Enciclopedy for Unified Sciences, que constitui a S√ļmula do positivismo l√≥gico, n√£o se pode deixar de ficar impressionado pela insist√™ncia com que os l√≥gicos, os ling√ľistas e os psic√≥logos da Escola (mas notando como E. Brunswik se conserva muito mais sutil do que os seus parceiros n√£o experimentalistas) repetem, a torto e a direito, que os conceitos ‚Äúmentalistas‚ÄĚ do pensamento etc. j√° n√£o correspondem a coisa alguma, que tudo √© linguagem e que o acesso √† verdade l√≥gica √© assegurado, pura e simplesmente, por um s√£o exerc√≠cio da l√≠ngua.

Ora, trata-se de quest√Ķes psicol√≥gicas e, por conseq√ľ√™ncia, s√≥ a experi√™ncia est√° em condi√ß√Ķes de decidi-las. √Č preciso, a tal respeito, distinguir os dois grupos de problemas seguintes:

I. A linguagem pode constituir uma condi√ß√£o necess√°ria √† realiza√ß√£o de opera√ß√Ķes l√≥gico-matem√°ticas sem que por isso seja uma condi√ß√£o suficiente para a forma√ß√£o das mesmas. Sobre este ponto, os dados gen√©ticos s√£o decisivos, permitindo-nos estabelecer: a) se as ra√≠zes dessas opera√ß√Ķes s√£o anteriores √† linguagem ou devem ser procuradas nas condutas verbais; b) se a forma√ß√£o do pensamento est√° Iigada √† aquisi√ß√£o da linguagem como tal ou da fun√ß√£o simb√≥lica em geral; e, c) se a transmiss√£o verbal √© suficiente para constituir no esp√≠rito da crian√ßa estruturas operat√≥rias ou se essa transmiss√£o s√≥ √© eficaz na condi√ß√£o de ser assimilada, gra√ßas a estruturas de natureza mais profunda (coordena√ß√£o de a√ß√Ķes), as quais n√£o s√£o transmitidas pela linguagem.

II. Quanto a considerarmos a linguagem uma condi√ß√£o necess√°ria (mas n√£o suficiente) da constitui√ß√£o das opera√ß√Ķes, falta determinar: a) se as opera√ß√Ķes somente funcionam sob sua forma ling√ľ√≠stica ou se dependem de ‚Äúestruturas de conjunto‚ÄĚ ou sistemas din√Ęmicos, n√£o formulados como sistemas na linguagem corrente, propriamente dita (em oposi√ß√£o √†s linguagens t√©cnicas); b) se, n√£o obstante, o papel da linguagem na realiza√ß√£o dessas estruturas operat√≥rias eventuais continua sendo necess√°rio num sentido constitutivo ou somente a t√≠tulo de instrumento de formula√ß√£o e de ‚Äúreflex√£o‚ÄĚ; c) no caso de desempenhar um papel constitutivo, resta estabelecer se √©, antes de mais, como sistema de comunica√ß√£o, com tudo o que isso comporta de regras de controle e de corre√ß√£o pr√©via de erros, ou se √© na medida em que as estruturas estiverem preestabelecidas numa linguagem acabada.

1. No tocante aos problemas I, podemos j√° recorrer aos fatos seguintes, sob reserva do conjunto de quest√Ķes n√£o resolvidas e das experi√™ncias que ainda falta realizar, sobre as quais insistiremos na conclus√£o deste relat√≥rio:

a) Nos n√≠veis sens√≥rio-motores que precedem o aparecimento da linguagem, j√° se observa a elabora√ß√£o de todo um sistema de ‚Äúesquemas‚ÄĚ que prefiguram certos aspectos das estruturas de classes e de rela√ß√Ķes. Um esquema √©, com efeito, o que √© generaliz√°vel numa a√ß√£o dada; por exemplo, depois de ter atingido um objeto afastado, puxando o pano sobre o qual ele estava colocado, o beb√™ generalizar√° essa descoberta utilizando muitos outros suportes para aproximar dele outros objetos em situa√ß√Ķes variadas. O esquema converte-se, pois, numa esp√©cie de conceito pr√°tico e, na presen√ßa de um objeto novo para ele, o beb√™ procurar√° assimil√°-lo a si, aplicando sucessivamente todos os esquemas de que disp√Ķe, como se se tratasse daquelas ‚Äúdefini√ß√Ķes pelo uso‚ÄĚ, caracterizadas pelas palavras ‚Äúisto √© para…‚ÄĚ, sobre as quais Binet insistiu numa fase muito ulterior.

Ora, ao generalizarem-se, os esquemas constituem, primeiro, esp√©cies de classifica√ß√£o; por exemplo, um mesmo objetivo pode corresponder a v√°rios meios suscet√≠veis de atingi-lo e equivalentes entre si de um tal ponto de vista ou, ainda, um mesmo meio pode conduzir a v√°rios objetivos. As classes comportam uma ‚Äúcompreens√£o‚ÄĚ do ponto de vista do sujeito, isto √©, um conjunto de qualidades comuns sobre as quais a generaliza√ß√£o se fundamenta; elas comportam, por outra parte, uma ‚Äúextens√£o‚ÄĚ (o conjunto de situa√ß√Ķes a que se aplicam) mas do ponto de vista exclusivo do comportamento observado pelo experimentador e sem que o sujeito seja capaz de represent√°-la, como o conseguir√° quando tiver alcan√ßado j√° o n√≠vel da fun√ß√£o simb√≥lica.

Os esquemas comportam, naturalmente, por outra parte, uma grande variedade de relacionamentos, prel√ļdios da l√≥gica de rela√ß√Ķes que se desenvolver√° ulteriormente, no plano da representa√ß√£o. Estas rela√ß√Ķes podem mesmo redundar numa esp√©cie de seria√ß√Ķes sens√≥rio-motoras, como no empilhamento de cubos de tamanho decrescente (cf. os baby-tests de Ch. B√ľhler).

A coordena√ß√£o dos esquemas leva, al√©m disso, a infer√™ncias pr√°ticas: procurando um objeto sob um pano, debaixo do qual foi previamente colocado um bon√©, e n√£o vendo o objeto quando soergue o pano, a crian√ßa de 16-18 meses conclui imediatamente que o objeto est√° sob o bon√©, visto que introduziram esse objeto sob o pano e ela n√£o o v√™ quando levanta o √ļltimo.

Mas, sobretudo o esquematismo sens√≥rio-motor redunda em prefigura√ß√Ķes de futuras no√ß√Ķes de conserva√ß√£o e da futura reversibilidade operat√≥ria. Assim √© que, entre meados do primeiro ano e do segundo, elabora-se essa forma elementar de conserva√ß√£o que √© o esquema do objeto permanente. Ora, este esquema j√° constitui uma esp√©cie de ‚Äúinvariante de grupo‚ÄĚ; com efeito, a busca de um objeto desaparecido √© fun√ß√£o da sua localiza√ß√£o, e as localiza√ß√Ķes s√≥ s√£o asseguradas pela constitui√ß√£o de um ‚Äúgrupo‚ÄĚ de deslocamentos que coordena os desvios (associatividade do grupo) e os retornos (reversibilidade).

Somos, portanto, levados a concluir que, anteriormente √†s opera√ß√Ķes formuladas pela linguagem, existe uma esp√©cie de l√≥gica das coordena√ß√Ķes de a√ß√Ķes que comporta, notadamente, as rela√ß√Ķes de ordem e as liga√ß√Ķes de concatena√ß√£o (rela√ß√Ķes da parte com o todo). Se, por outra parte, distinguirmos, no seio das representa√ß√Ķes e do pensamento ulteriores, um aspecto figurativo, ligado √† representa√ß√£o dos estados, nada nos impedir√° de estabelecer uma rela√ß√£o de filia√ß√£o entre as opera√ß√Ķes, as quais dependem da a√ß√£o e de sua interioriza√ß√£o, e essa l√≥gica de coordena√ß√Ķes de a√ß√Ķes; por exemplo, a opera√ß√£o de somar dois n√ļmeros (2 + 3 = 5) prov√©m da a√ß√£o de reunir objetos e, se tivermos de designar essa reuni√£o como simb√≥lica, √© na medida em que os termos 2, 3, 5, = e + s√£o signos e n√£o coisas, mas a soma desses signos √© uma reuni√£o t√£o real, como reuni√£o, quanto uma soma que envolva objetos.

[...]

O texto integral encontra-se disponível na fonte indicada acima.

Nenhum Coment√°rio »

Comente esta p√°gina.

Novo coment√°rioInscreva-me aos seus feeds

Verifique no mapa do blog se há outras páginas que interessam a você. Ou utilize a ferramenta de busca, no alto da página à direita.

TrackBack URL

ÔĽŅ

Software Livre WordPress