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julho 10, 2012

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Entrevista de Freud

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Rara entrevista de Freud

O valor da vida. Uma entrevista rara de Freud.

Tradu√ß√£o de Paulo Cesar Souza ‚Äď 20 de abril de 2010
Fonte: http://www.freudiana.com.br/destaques-home/entrevista-com-freud.html


Entre as preciosidades encontradas na biblioteca da Sociedade Sigmund Freud est√° essa entrevista. Foi concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926. Deve ter sido publicada na imprensa americana da √©poca. Acreditava-se que estivesse perdida, quando o Boletim da Sigmund Freud Haus publicou uma vers√£o condensada, em 1976. Na verdade, o texto integral havia sido publicado no volume Psychoanalysis and the Fut n√ļmero especial do ‚ÄúJournal of Psychology‚ÄĚ, de Nova Iorque, em 1957. √Č esse texto que aqui reproduzimos, provavelmente pela primeira vez em portugu√™s.

Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade.

Quem fala é o professor Sigmund Freud, o grande explorador da alma. O cenário da nossa conversa foi uma casa de verão no Semmering, uma montanha nos Alpes austríacos.

Eu havia visto o pai da psican√°lise pela √ļltima vez em sua casa modesta na capital austr√≠aca. Os poucos anos entre minha √ļltima visita e a atual multiplicaram as rugas na sua fronte. Intensificaram a sua palidez de s√°bio. Sua face estava tensa, como se sentisse dor. Sua mente estava alerta, seu esp√≠rito firme, sua cortesia impec√°vel como sempre, mas um ligeiro impedimento da fala me perturbou.

Parece que um tumor maligno no maxilar superior necessitou ser operado. Desde então Freud usa uma prótese, para ele uma causa de constante irritação.

S. Freud: Detesto o meu maxilar mec√Ęnico, porque a luta com o aparelho me consome tanta energia preciosa. Mas prefiro ele a maxilar nenhum. Ainda prefiro a exist√™ncia √† extin√ß√£o.

Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que os fardos que carregamos.

Freud se recusa a admitir que o destino lhe reserva algo especial.

- Por qu√™ ‚Äď disse calmamente ‚Äď deveria eu esperar um tratamento especial? A velhice, com sua agruras chega para todos. Eu n√£o me rebelo contra a ordem universal. Afinal, mais de setenta anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas ‚Äď a companhia de minha mulher, meus filhos, o p√īr do sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma m√£o amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?

George Sylvester Viereck: O senhor teve a fama, disse que Sua obra influi na literatura de cada pa√≠s. O homem olha a vida e a si mesmo com outros olhos, por causa do senhor. E recentemente, no seu septuag√©simo anivers√°rio, o mundo se uniu para homenage√°-lo ‚Äď com exce√ß√£o da sua pr√≥pria Universidade.

S. Freud: Se a Universidade de Viena me demonstrasse reconhecimento, eu ficaria embara√ßado. N√£o h√° raz√£o em aceitar a mim e a minha obra porque tenho setenta anos. Eu n√£o atribuo import√Ęncia insensata aos decimais.

A fama chega apenas quando morremos, e francamente, o que vem depois não me interessa. Não aspiro à glória póstuma. Minha modéstia não e virtude.

George Sylvester Viereck: N√£o significa nada o fato de que o seu nome vai viver?

S. Freud: Absolutamente nada, mesmo que ele viva, o que não e certo. Estou bem mais preocupado com o destino de meus filhos. Espero que suas vidas não venham a ser difíceis. Não posso ajudá-los muito. A guerra praticamente liquidou com minhas posses, o que havia poupado durante a vida. Mas posso me dar por satisfeito. O trabalho é minha fortuna.

Est√°vamos subindo e descendo uma pequena trilha no jardim da casa. Freud acariciou ternamente um arbusto que florescia.

S. Freud: Estou muito mais interessado neste bot√£o do que no que possa me acontecer depois que estiver morto.

George Sylvester Viereck: Então o senhor é, afinal, um profundo pessimista?

S. Freud: Não, não sou. Não permito que nenhuma reflexão filosófica estrague a minha fruição das coisas simples da vida.

George Sylvester Viereck: O senhor acredita na persistência da personalidade após a morte, de alguma forma que seja?

S. Freud: Não penso nisso. Tudo o que vive perece. Por que deveria o homem construir uma exceção?

George Sylvester Viereck: Gostaria de retornar em alguma forma, de ser resgatado do pó? O senhor não tem, em outras palavras, desejo de imortalidade?

S. Freud: Sinceramente não. Se a gente reconhece os motivos egoístas por trás de conduta humana, não tem o mínimo desejo de voltar a vida, movendo-se num círculo, seria ainda a mesma.

Além disso, mesmo se o eterno retorno das coisas, para usar a expressão de Nietzsche, nos dotasse novamente do nosso invólucro carnal, para que serviria, sem memória? Não haveria elo entre passado e futuro.

Pelo que me toca estou perfeitamente satisfeito em saber que o eterno aborrecimento de viver finalmente passará. Nossa vida é necessariamente uma série de compromissos, uma luta interminável entre o ego e seu ambiente. O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo.

George Sylvester Viereck: Bernard Shaw sustenta que vivemos muito pouco, disse eu. Ele acha que o homem pode prolongar a vida se assim desejar, levando sua vontade a atuar sobre as forças da evolução. Ele crê que a humanidade pode reaver a longevidade dos patriarcas.

- √Č poss√≠vel, respondeu Freud, que a morte em si n√£o seja uma necessidade biol√≥gica. Talvez morramos porque desejamos morrer.

Assim como amor e ódio por uma pessoa habitam em nosso peito ao mesmo tempo, assim também toda a vida conjuga o desejo de manter-se e o desejo da própria destruição.

Do mesmo modo com um pequeno el√°stico esticado tende a assumir a forma original, assim tamb√©m toda a mat√©ria viva, consciente ou inconscientemente, busca readquirir a completa, a absoluta in√©rcia da exist√™ncia inorg√Ęnica. O impulso de vida e o impulso de morte habitam lado a lado dentro de n√≥s.

A Morte é a companheira do Amor. Juntos eles regem o mundo. Isto é o que diz o meu livro: Além do Princípio do Prazer.

No come√ßo, a psican√°lise sup√īs que o Amor tinha toda a import√Ęncia. Agora sabemos que a Morte √© igualmente importante.

Biologicamente, todo ser vivo, n√£o importa qu√£o intensamente a vida queime dentro dele, anseia pelo Nirvana, pela cessa√ß√£o da ‚Äúfebre chamada viver‚ÄĚ, anseia pelo seio de Abra√£o. O desejo pode ser encoberto por digress√Ķes. N√£o obstante, o objetivo derradeiro da vida √© a sua pr√≥pria extin√ß√£o.

Isto, exclamei, é a filosofia da autodestruição. Ela justifica o auto-extermínio. Levaria logicamente ao suicídio universal imaginado por Eduard von Hartamann.

S.Freud: A humanidade não escolhe o suicídio porque a lei do seu ser desaprova a via direta para o seu fim. A vida tem que completar o seu ciclo de existência. Em todo ser normal, a pulsão de vida é forte o bastante para contrabalançar a pulsão de morte, embora no final resulte mais forte.

Podemos entreter a fantasia de que a Morte nos vem por nossa própria vontade. Seria mais possível que pudéssemos vencer a Morte, não fosse por seu aliado dentro de nós.

Neste sentido acrescentou Freud com um sorriso, pode ser justificado dizer que toda a morte é suicídio disfarçado.

Estava ficando frio no jardim.

Prosseguimos a conversa no gabinete.

Vi uma pilha de manuscritos sobre a mesa, com a caligrafia clara de Freud.

George Sylvester Viereck: Em que o senhor est√° trabalhando?

S. Freud: Estou escrevendo uma defesa da análise leiga, da psicanálise praticada por leigos. Os doutores querem tornar a análise ilegal para os não médicos. A História, essa velha plagiadora, repete-se após cada descoberta. Os doutores combatem cada nova verdade no começo. Depois procuram monopoliza-la.

George Sylvester Viereck: O senhor teve muito apoio dos leigos?

S. Freud: Alguns dos meus melhores discípulos são leigos.

George Sylvester Viereck: O senhor est√° praticando muito psican√°lise?

S. Freud: Certamente. Neste momento estou trabalhando num caso muito difícil, tentando desatar os conflitos psíquicos de um interessante novo paciente.

Minha filha também é psicanalista, como você vê…

Nesse ponto apareceu Miss Anna Freud acompanhada por seu paciente, um garoto de onze anos, de fei√ß√Ķes inconfundivelmente anglo-saxonicas.

George Sylvester Viereck: O senhor j√° analisou a si mesmo?

S. Freud: Certamente. O psicanalista deve constantemente analisar a si mesmo. Analisando a nós mesmos, ficamos mais capacitados a analisar os outros.

O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. Os outros descarregam seus pecados sobre ele. Ele deve praticar sua arte à perfeição para desvencilhar-se do fardo jogado sobre ele.

George Sylvester Viereck: Minha impress√£o, observei, √© de que a psican√°lise desperta em todos que a praticam o esp√≠rito da caridade crist√£o. Nada existe na vida humana que a psican√°lise n√£o possa nos fazer compreender. ‚ÄúTout comprec‚Äôest tout pardonner‚ÄĚ.

Pelo contr√°rio! ‚Äď bravejou Freud, suas fei√ß√Ķes assumindo a severidade de um profeta hebreu. Compreender tudo n√£o √© perdoar tudo. A an√°lise nos ensina n√£o apenas o que podemos suportar, mas tamb√©m o que podemos evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A toler√Ęncia com o mal n√£o e de maneira alguma um corol√°rio do conhecimento.

Compreendi subitamente porque Freud havia litigado com os seguidores que o haviam abandonado, por que ele não perdoa a sua dissensão do caminho reto da ortodoxia psicanalítica. Seu senso do que é direito é herança dos seus ancestrais. Una herança de que ele se orgulha como se orgulha de sua raça.

Minha l√≠ngua, ele me explicou, √© o alem√£o. Minha cultura, mina realiza√ß√£o √© alem√£. Eu me considero um intelectual alem√£o, at√© perceber o crescimento do preconceito anti-semita na Alemanha e na √Āustria. Desde ent√£o prefiro me considerar judeu.

Fiquei algo desapontado com esta observação.

Parecia-me que o espírito de Freud deveria habitar nas alturas, além de qualquer preconceito de raças que ele deveria ser imune a qualquer rancor pessoal. No entanto, precisamente a sua indignação, a sua honesta ira, tornava o mais atraente como ser humano.

Aquiles seria intoler√°vel, n√£o fosse por seu calcanhar!,

Fico contente, Herr Professor, de que também o senhor tenha seus complexos, de que também o senhor demonstre que é um mortal!

Nossos complexos, replicou Freud, s√£o a fonte de nossa fraqueza; mas com freq√ľ√™ncia s√£o tamb√©m a fonte de nossa for√ßa.

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