A autoridade na educação

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A CRISE DA EDUCAÇÃO E DA AUTORIDADE EM HANNAH ARENDT

A teórica política alemã Hannah Arendt fora uma especialista nos estudos relacionados ao totalitarismo. Devido, evidentemente, ao fato de pertencer a uma família judia em meio à ascensão do nazismo na Alemanha, emigrou para os Estados Unidos, onde pôde exercer sua carreira acadêmica. Arendt fez questão de ressaltar que não era uma educadora profissional, mas que os rumos que a educação estava tomando nos Estados Unidos eram, para ela, motivo de preocupação.

Não nos cabe aqui especificar quais as motivações, as causas e as conseqüências desta crise. O que nos interessa, uma vez que o tema é autoridade, é a visão de Arendt com relação a este tema tão caro à educação e que baliza muito dos trabalhos relacionados à autoridade na educação. A autoridade na educação é, para Arendt, fundamental. Um dos pontos de crítica da autora, com relação à “emancipação” das crianças em relação aos adultos, que seria uma medida para resolução da crise na educação, é que faz com que aquelas percam a autoridade orientadora, que lhes dariam um norte e caiam numa autoridade muito mais tirânica: a do grupo das próprias crianças, a conseqüência da falta da autoridade adulta é a delinqüência e o conformismo. Já o educador também perde autoridade na medida em que deixa de dominar o seu conteúdo e ensiná-lo em troca de mostrar a arte de viver para as crianças. Em outras palavras, as crianças ganham autonomia em relação aos seus professores, tornam-se independentes enquanto aqueles se tornam refém de uma pedagogia preocupada em que a criança tomasse lições de adulto, esquecendo as qualidades e características da infância. A questão da autoridade também inclui a responsabilidade, segundo a teórica, isto é, o educador é responsável pela criança e por mostrar a ela o funcionamento do mundo em que esta estará se inserindo, é aí que reside a autoridade do educador. No momento em que há recusa com esta responsabilidade, não há educação. Pois aí reside o problema do período vivido por Arendt: autoridade é confundida com autoritarismo e há uma negação evidente em assumir esta responsabilidade: “A autoridade foi recusada pelos adultos e isso só pode significar uma coisa: que os adultos se recusam a assumir a responsabilidade pelo mundo ao qual trouxeram as crianças” (ARENDT, p. 240). A autoridade é uma atitude conservadora, no sentido da proteção da criança que está começando a conhecer o mundo que passará a viver, e os adultos precisam assumir esta responsabilidade com relação aos “pequenos”, permitindo a esta nova geração a adotar medidas novas no futuro. Em outras palavras, a educação precisa ser conservadora para trazer benefícios revolucionários.

Por fim, Arendt entende que o conservadorismo que é necessário para educação – sempre ressaltando que não se trata de conservadorismo político – torna-se difícil de atingir uma vez que a tradição também está em crise, ou seja, a autoridade do passado também se encontra perdida:

O problema da educação no mundo moderno está no fato de (...) não poder esta abrir mão da autoridade, nem da tradição, e ser obrigada, apesar disso, a caminhar em um mundo que não é estruturado nem pela autoridade, nem tampouco mantido pela tradição. (ARENDT, pp. 245-246)


Em suma, a autoridade e a valorização ao passado andam juntas e só serão retomados na educação a partir do momento em que o mundo voltar a ser estruturado sob essas bases, sem que os homens temam a autoridade como autoritarismo e o entendam como responsabilidade para com o mundo.


A AUTORIDADE NA EDUCAÇÃO DESDE UMA PERSPECTIVA ANARQUISTA

Embora possa parecer contraditório, o conceito de autoridade é considerado pelo autor como o ponto de partida do processo a que denomina de atividade pedagógica contra-ideológica e que se apresenta em contraposição ao modelo de educação que legitima uma realidade manipulada. Neste contexto, a infância é entendida como a idade onde desenvolvem-se as estruturas básicas da subjetividade de cada indivíduo e a escola passa a ser então, como lócus da criança neste período, a ferramenta de desenvolvimento e consolidação dessas estruturas.

Baseado fundamentalmente em autores como a teórica alemã Hannah Arendt e o russo anarquista Mikhail Bakunin, Gallo resgata a idéia da necessidade da autoridade na formação inicial dos indivíduos. Conforme Arendt, o professor teria autoridade porque sabe mais e porque tem uma cosmovisão mais elaborada. Para Bakunin a aplicação do princípio da autoridade nas crianças justifica-se pelo fato de que elas devem ser encaradas, não como adulto em miniatura, mas como um ser com características próprias e com um desenvolvimento físico e psicológico que deve ser respeitado para que ele se torne um indivíduo equilibrado. Ainda, de acordo com Carlos Díaz, a partir dos doze anos a criança está capacitada para raciocinar abstrata e formalmente e, por esse motivo, a autoridade aplicada na infância deve ser progressivamente diminuída objetivando a formação de um adulto autônomo. Segundo esta visão, a autoridade só tem legitimidade na educação se age sobre indivíduos ainda em formação, ou, utilizando uma linguagem do autor, que ainda não estão preparados para a ação política.

É no contexto escolar que a liberdade precisa então ser ensinada e, consequentemente, aprendida. O indivíduo precisará aprender a fazer escolhas e é neste momento que a autoridade desempenha seu papel fundamental. O professor não a exercerá “no sentido de impor à criança uma determinada realidade, um determinado comportamento, uma determinada atividade” (p. 75), mas a demonstrará no momento em que se demonstrar comprometido e responsável pelo mundo que ora apresenta. Nesse processo o professor prepara a criança para o momento em que tenha que definir a sua identidade e encarar a realidade, decidindo se a aceita como está conformada. Trata-se de inculcar que a criança, assim como o adulto, é responsável pelas escolhas que faz e pelas suas conseqüências também. Buscando uma perspectiva satreana, trata-se de convencê-las de que, “se o mundo é assim, isso deve-se a escolhas que todos nós fazemos” (p. 76). Essa concepção cria, na criança, um entendimento de que a realidade que ajudaram a criar tem efeitos sobre os demais indivíduos e conforma a escola como um espaço social privilegiado para a construção coletiva da liberdade.


A INDISCIPLINA E ESCOLA ATUAL, de Julio Groppa Aquino

O autor nos mostra as mais diversas desculpas usadas pelos educadores para justificar a indisciplina na sala de aula. Em todas o educador se isentada da culpa transferindo ela para os pais, ou que as crianças e adolescentes são “sem limites” ou ainda desinteressados.

Há educadores que dizem preferir a escola antiga por essa ser mais de qualidade. Julio nos relata que não é assim. A escola anterior aos anos 70 é uma escola militarizada ou religiosa poucas eram leigas. Havia exames de admissão (semelhante ao vestibular de hoje) logo a escola era elitista. Não é possível trazer de volta essa escola sem o seu entorno político. O aluno de hoje não pode ter uma escola de ontem. Antes o respeito, inspirado nos moldes militares, era fruto de uma espécie de submissão e obediência cegas. O respeito ao professor não pode advir do medo da punição – assim como nos quartéis. Não é verdade que muitas vezes alguns professores chegam a ameaçar seus alunos com a promessa de provas difíceis, notas baixas etc? Família e escola não são a mesma coisa. A função do professor não é moralizar o aluno. Perde-se muito tempo tentando fazer os alunos criar modos. O objetivo do trabalho escolar é fundamentalmente o conhecimento sistematizado. O que se visa é a ordenação do pensamento do aluno, por meio da reapropriação do legado cultural. O professor não se profissionalizou para uma espécie de pai “postiço”. Se o professor não se responsabilizar pelo conhecimento, quem o fará? Se o professor desempenhar o seu papel os alunos encontraram o seu.

Há também a queixa da má influência da mídia sobre o aluno. A escola não é tão atrativa quanto os meios de comunicação?A escola não é um meio de comunicação. A escola deve ter como objetivo principal a reapropiação do conhecimento acumulado. Na escola, portanto, não se repassam informações: ensina-se o que elas querem dizer. Mas para tanto, refaz-se o caminho já percorrido por aqueles que nos precederam, mediante os mesmos problemas, refazer a história dos campos de conhecimento, revisitar as respostas já consagradas às velhas inquietações humanas.

O aluno não deve ser visto como um empecilho, mas sim como uma oportunidade de exercermos tudo o que aprendemos em nossa profissão. Precisamos estar lá para o aluno problema. Não podemos ficar arrumando desculpas. Os professores esperam os alunos ficarem quietos para começar. O professor tem que começar e aguçar a curiosidade do aluno. Indisciplina é um indício de que a intervenção docente não está se processando a contento, que seus resultados não se aproximam do esperado. Temos que admitir que o aluno problema revela um problema comum,sempre da relação.vamos investigá-lo,interpretá-lo como um sinal dos acontecimentos da sala de aula. Devemos des-idealizar o perfil do aluno perfeito e nos mantermos fieis ao contrato pedagógico: o conhecimento.


Referências

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.

GALLO, Silvio. Educação Anarquista: uma perspectiva para hoje. Piracicaba: Unimep, 1995. Da autoridade à Liberdade, pp. 65-81.