Altas Habilidades e Superdotação

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Universidade Federal do Rio Grande do Sul


Faculdade de Educação



Educação Especial:

Alunos com Altas Habilidades/Superdotação


Educação Especial: Altas habilidades/Superdotação

Como ponto de partida é importante apontar o reconhecimento crescente de que uma boa educação para todos não significa uma educação idêntica para todos. Em função deste reconhecimento, tem sido salientada a necessidade de o professor estar equipado para propiciar uma educação de boa qualidade, levando em conta as diferenças individuais e encorajando o desenvolvimento de habilidades diversas, talentos e competências.

Desfazendo idéias errôneas

Superdotado e gênio como sinônimos: é comum acreditar que para ser considerado superdotado o indivíduo necessariamente tenha que apresentar um desempenho surpreendentemente significativo e superior desde muito jovens, ou dado contribuições originais na área científica ou artística reconhecidas como de inestimável valor para a sociedade.

O superdotado tem recursos intelectuais suficientes para desenvolver por conta própria o seu potencial superior: Acredita-se ser desnecessário o estímulo a uma criança superdotada.

O superdotado se caracteriza por um excelente rendimento acadêmico: Nem sempre os alunos superdotados têm um bom rendimento.

A participação em programas especiais fortalece uma atitude de arrogância e vaidade no aluno superdotado: Dados empíricos demonstram que isso não ocorre, o atendimento especial gera na verdade um aluno mais satisfeito.

Estereótipo do superdotado como um aluno franzino, do gênero masculino, de classe média e com interesses restritos especialmente à leitura: Não existe um estereótipo, os superdotados formam um grupo muito heterogêneo.

Valores culturais a favor de um atendimento especial apenas a alunos com distúrbio de conduta e deficiência: Existe uma preocupação muito grande com o grupo citado, e os superdotados acabam sendo deixados de lado, a educação é voltada para alunos médios e abaixo da média.

O superdotado tem maior predisposição a apresentar problemas sociais e emocionais: Não existe tal predisposição.


A superdotação não é independente do meio, é necessário estímulo. Nenhuma criança nasce superdotada, apenas com o potencial para superdotação, embora todas as crianças tenham um potencial surpreendente apenas aquelas que tiverem a sorte de terem oportunidades de desenvolverem seus talentos e singularidades em um ambiente que responda aos seus padrões particulares e necessidades, serão capazes de atualizar da forma mais plena as suas habilidades.

Indivíduos com altas habilidades/superdotação não constituem um grupo homogêneo, variando tanto em habilidades cognitivas quanto nível de desempenho e personalidade. Tal conceito leva à análise de um conceito moderno de inteligência, o modelo proposto por Gardner é o mais aceito, ele defende que a inteligência se divide da seguinte forma:

Lingüística: habilidades envolvidas na leitura e na escrita; Musical: habilidades inerentes a atividades de tocar um instrumento, cantar, compor; Lógico/matemática: habilidade de raciocínio, computação numérica, resolução de problemas, pensamento científico; Espacial: habilidade de representar e manipular configurações espaciais; Corporal/cinestésica; habilidade de usar o corpo inteiro ou parte dele para a realização de tarefas; Interpessoal: habilidade de compreender outras pessoas e contextos sociais; Intrapessoal: capacidade de compreender a si mesmo, tanto sentimentos e emoções, quanto estilos cognitivos e inteligência; Naturalística: habilidade de perceber padrões complexos no ambiente natural;

Isso nos leva ao seguinte conceito: “Portadores de altas habilidades/superdotados são os educandos que apresentam notável desempenho e elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos, isolados ou combinados: capacidade intelectual superior, aptidão acadêmica específica pensamento criativo ou produtivo, capacidade de liderança talento especial para artes e capacidade psicomotora.”

A superdotação como um fenômeno multidimensional agrega todas as características de desenvolvimento do indivíduo sejam eles: aspectos afetivos, cognitivos, neuropsicomotores e de personalidade.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais, em sua série de Adaptações Curriculares, Saberes e Práticas da Inclusão (Brasil, 2004), publicada pela Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação, atribui traços como comuns aos superdotados:

Alto grau de curiosidade: Boa memória; Atenção concentrada; Persistência; Independência e autonomia: Interesse por áreas e tópicos diversos; Facilidade de aprendizagem; Criatividade e imaginação; Iniciativa; Liderança; Vocabulário avançado para a sua idade cronológica; Riqueza de expressão verbal (elaboração e fluência de idéias); Habilidade para considerar pontos de vista de outras pessoas; Facilidade para interagir com crianças mais velhas ou com adultos; Habilidade para lidar com idéias abstratas; Habilidade para perceber discrepâncias entre idéias e pontos de vista; Interesse por livros e outras fontes de conhecimento; Alto nível de energia; Preferência por situações/objetos novos; Senso de humor; Originalidade para resolver problemas;

Problemas emocionais freqüentes:

Dificuldades nos relacionamentos sociais: Dificuldade em aceitar críticas; Não conformismo e resistência à autoridades; Recusa em realizar tarefas rotineiras e repetitivas; Excesso de competitividade; Intensidade de emoções; Preocupações éticas e estéticas; Ansiedade; Autoconsciência elevada;

Quando se fala em superdotação é necessário que se tenha em mente sobre esse grupo:

Heterogeneidade: diversidade de habilidades e grau de manifestação

Multipotencialidade: confluência de habilidades e interesses característicos de alguns indivíduos

Assincronia no desenvolvimento cognitivo, afetivo, psicomotor e social .

Possibilidade de desenvolvimento de problemas emocionais, de aprendizagem, comportamental e social.


ESTRATEGIAS DE IDENTIFICAÇÃO DO ALUNO COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO

O processo de identificação desse aluno deve ter como base referenciais teóricos consistentes e resultados de pesquisas sobre o tema. O objetivo e discutir maneiras de construção do processo de identificação, que gerem informações sobre o aluno com alto potencial e orientem a pratica docente em termos do planejamento de aula, seleção de estratégias de ensino e métodos de avaliação do desempenho escolar.

A necessidade de identificação do individuo com altas habilidades/superdotação o quanto antes de forma a se evitar problemas de desajustamento, desinteresse em sala de aula e baixo rendimento escolar.

O processo de identificação deve ser diluído em diversas fases e a identificação precoce e necessária para assegurar o desenvolvimento saudável de crianças superdotadas.

Instrumentos de identificação mais utilizados:

testes psicometricos; escalas de características; questionários; observação do comportamento; entrevistas com a família e professores, entre outros.

Escalas e testes não fazem diagnósticos, entretanto são ferramentas importantes e servem de rastreamento, pois fornecem dados objetivos úteis para avaliação, intervenção e pesquisa.

A identificação do aluno requer a realização de uma seqüência de procedimentos, incluindo etapas bem definidas e instrumentos apropriados, formando uma combinação entre avaliação formal e observação estruturada. E importante que a identificação seja um processo continuo.

A identificação deve ser enriquecida por outras fontes de informação, de forma a privilegiar uma visão sistêmica e global do individuo e não somente sua inteligência superior medida por meio de um teste de QI.

O processo de identificação do aluno deve envolver uma avaliação abrangente e multidimensional, que englobe variados instrumentos e diversas fontes de informações, levando-se em conta a multiplicidade de fatores ambientais e as riquíssimas interações entre eles que devem ser consideradas como parte ativa desse processo. As características como criatividade, aptidão artística e musical, liderança, entre outras, são também consideradas, porem não são medidas por testes de inteligência, tornando essa identificação mais complexa. E importante destacar o julgamento, avaliação e observação do professores, sendo possível que o professor indique o aluno mais criativo da turma, com maior capacidade de liderança, maior conhecimento e interesse na área de ciências , maior vocabulário, pensamento critico mais desenvolvido, por isso foi elaborado por Delou (1987) uma lista de indicadores de superdotação.


Lista de indicadores de superdotação:

O aluno demonstra prazer em realizar ou planejar quebra-cabeças e problemas em forma de jogos; O aluno mantem e defende suas próprias idéias; O aluno sente prazer em superar os obstáculos ou as tarefas consideradas difíceis; O aluno dirige mais sua atenção para fazer coisas novas do que para o que já conhece e/ou faz; O aluno usa métodos novos em suas atividades, combina idéias e cria produtos diferentes; O aluno põe em pratica os conhecimentos adquiridos.

Escala de freqüência com que certos comportamentos são registrados no dia-a-dia do aluno:

APRENDIZAGEM O aluno demonstra vocabulário avançado para a idade; O aluno possui uma grande bagagem de informações sobre um tópico especifico; O aluno tem facilidade para lembrar informações; O aluno tem perspicácia em perceber relações de causa e efeito.

CRIATIVIDADE O aluno demonstra senso de humor; O aluno demonstra espírito de aventura ou disposição para correr riscos; O aluno demonstra atitude não conformista, não temendo ser diferente; O aluno demonstra imaginação.

MOTIVAÇÃO O aluno demonstra obstinação em procurar informações sobre tópicos de seu interesse; O aluno demonstra persistência; O aluno demonstra envolvimento intenso quando trabalha certos tópicos ou problemas; O aluno demonstra comportamento que requer pouca orientação dos professores.

Concluindo, uma única fonte de informação jamais será suficiente. O desempenho superior pode estar mais relacionado a vida familiar, aos traços de personalidade e ao engajamento em atividades de seu interesse, do que simplesmente as habilidades cognitivas superiores. Estudos recentes estão mostrando que existe a possibilidade de alto potencial em alunos com dificuldade de aprendizagem (uma dificuldade especifica por um lado e o alto potencial por outro). Esses alunos podem encantar com sua fluência verbal, porem sua escrita e ortografia contradizem essa imagem. Algumas vezes esses alunos que parecem saber tudo, se mostram esquecidos, desorganizados e desinteressados.


PRÁTICAS EDUCACIONAIS DE ATENDIMENTO AO ALUNO COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO


O passo seguinte à identificação deve ser o encaminhamento adequado, com o objetivo de desenvolver as habilidades identificadas e oferecer uma formação ampla ao indivíduo de acordo com suas potencialidades.

Conforme está previsto na legislação, os alunos com altas habilidades/superdotação devem receber atendimento que valorize e respeite suas necessidades educacionais diferenciadas quanto a talentos, aptidões e interesses.

Por mais excepcional que sejam tais aptidões e talentos, caso não haja estímulo e atendimento adequados, os indivíduos dificilmente atingiram um nível de excelência.

Planejar alternativas de atendimento a estes alunos que atinjam suas reais necessidades, expectativas dos pais, bem como correspondam à filosofia educacional das escolas, sem entrar em conflito com o ensino regular, é um trabalho difícil, que deve ser executado com cuidado.

O papel do programa específico para estes alunos especiais é suprir e complementar suas necessidades, possibilitando seu amplo desenvolvimento pessoal e criando oportunidades para que eles encontrem desafios compatíveis com as suas habilidades. Sem este atendimento o aluno vai tentar se adaptar à rotina do ensino convencional, podendo gerar desperdício de talento, potencial ou desmotivação por não estar devidamente assistido.

Uma das grandes dificuldades para implantar esse atendimento se deve à tentativa de implementar um programa pretendendo ajustá-lo aos grupos já estabelecidos na seriação escolar, cuja separação por faixa etária pressupõe uma correspondente igualdade de nível intelectual; mas alunos com altas habilidades/superdotação têm, basicamente, dois grupos de companheiros com os quais necessitam interagir:

Os pares de mesma idade (onde experimentam inclusão e aprendem a viver com a desigualdade);

Os pares intelectuais (onde satisfazem suas curiosidades).



ALTERNATIVAS DE ATENDIMENTO


Na escolha do método devemos levar em conta que o cotidiano escolar é, ainda, predominantemente organizado por séries, com disciplinas isoladas, oferecidas por meio de aulas com duração definida, articuladas em grades dentro das quais o conteúdo de cada ano letivo é transmitido aos alunos por um professor de um domínio específico do conhecimento.

Intervenção Educativa para Alunos com Altas Habilidades

Sistemas de Agrupamento Específico Agrupamento em centros específicos; Agrupamento em aulas específicas em escolas regulares; Agrupamento parcial/temporal, flexível.

Sistemas de Intervenção na Sala de Aula Regular Flexibilização/aceleração

Entrada precoce na escola;

Dispensa de curso;

Programa de estudos acelerados flexíveis no ritmo, tarefas e/ou áreas de conhecimento.

Enriquecimento

Enriquecimento dos conteúdos curriculares:

Adaptações curriculares; Ampliações curriculares: Verticais/área específica; Horizontais/interdisciplinar; Tutoriais específicas, monitorias.

Enriquecimento do contexto de aprendizagem:

Diversificação curricular; Contextos enriquecidos; Contextos enriquecidos e agrupamentos flexíveis; Contextos instrucionais abertos, interativos e auto-regulados.

Enriquecimento extracurricular:

Programas de desenvolvimento pessoal; Programas com mentores.


CONSIDERAÇÕES:

É importante que a criança não se sinta discriminada ou isolada.

Devem ser selecionados professores bem qualificados, que devem estar constantemente atualizados quanto às pesquisas, formas de avaliação e propostas curriculares específicas para esses alunos.

Deve ser encorajado o desenvolvimento em várias áreas além da intelectual.

Lembrar que a motivação fica comprometida sempre que novos conceitos são muito fáceis ou muito difíceis; o desafio deve ser apropriado ao nível de prontidão do aluno.

O aluno pode ainda sofrer preconceito por parte dos professores, seja porque se ressentem da falta de informações sobre as altas habilidades, ou pela insegurança de ter sucesso no manejo da diversidade e receio pela capacidade de adaptação do aluno.


CUIDADOS NA IMPLEMENTAÇÃO DO PROGRAMA:

Evitar a sobreposição de conteúdos que serão ensinados em séries posteriores (estaremos apenas adiando o problema de desinteresse e da falta de motivação destes alunos). Não podemos, também, sobrecarregar a criança com um grande volume de tarefas, pois assim ela estaria sendo penalizada por suas habilidades. Evitar tensões usualmente vividas pelos superdotados, pressionados – seja pelo ambiente, seja por eles mesmos – a manter um desempenho superior constante, numa condição emocionalmente desgastante.

A singularidade de um aluno superdotado, com todo o potencial e o entusiasmo que normalmente possui, pode enriquecer os outros alunos, e o nosso desafio é auxiliá-lo a se manter motivado e interessado, ajudando-o a descobrir razões para querer aprender sempre mais.



Bibliografia

http://www.vademecum.com.br/sapiens/escola3.htm

Cartilha: Política educacional para alunos com altas habilidades/superdotação – Porto Alegre 2006 : Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas Portadoras de Deficiência e de Altas Habilidades/Superdotação no Rio Grande do Sul - FADERS

Centro de Desenvolvimento, Estudos e Pesquisas nas Altas Habilidades/Superdotação - CEDEPAH

Manual para o professor : Alunos com altas habilidades superdotação – Ministério da Educação 2007