Educação de Jovens e Adultos

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Introdução

O Ensino de Jovens e Adultos começou há algum tempo aqui no Brasil, desde então vem tentando se moldar à realidade em que vivemos. Nesse país onde há um maçante número de analfabetos e adultos que freqüentaram apenas os primeiros anos de alfabetização, essa política já deveria estar numa crescente evolução. Porém o que se percebe é a grande dificuldade de colocar em prática todas as políticas que assegurariam essa deficiência e o grande esforço que professores e diretores dispõe para concretizar uma pequena parcela dos direitos dos seus alunos.

O trabalho que segue tem como objetivo a verificação da real situação em que se encontram as práticas educativas de Jovens e Adultos em escolas estaduais e municipais da rede de ensino, bem como as características físicas e o funcionamento no âmbito escolar.

Para desenvolver essas observações foram realizadas entrevistas com os professores no seu local de trabalho, onde eles expõem seus anseios e nos fornecem dados reais para caracterização da visão geral referente ao Ensino de Jovens e Adultos. A entrevista foi realizada em forma de um documentário e filmada para a apresentação no grande grupo da disciplina de Psicologia da Educação, que será avaliada como trabalho final.

Desenvolvimento

EJA

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Brasil está sendo reconhecida como um direito para a grande maioria da população que não teve chances de fazer a sua escolaridade desde o século passado. Esse direito só foi formalizado em lei, como dever de oferta obrigatória pelo Estado brasileiro, a partir da Constituição de 1988, e reafirmado pela Lei de Diretrizes e Bases de 1996. Segundo Sérgio Haddad, não foi implantado nacionalmente uma política para EJA, nem se concretizou, como decorrência da conquista desse direito, um sistema nacional articulado de atendimento que permita que todos os cidadãos e cidadãs acima de 14 anos possam, pela escolarização, enfrentar os desafios de uma sociedade como a brasileira.

A pressão social dá-se por diversos movimentos da sociedade civil, movimentos sociais e sindicais, pressões de redes de atores comunitários. Essas pressões algumas vezes foram canalizadas por meio de mecanismos participativos que ampliaram as formas de democracia representativa vigentes no país. Isso ocorreu, por exemplo, no caso da demanda por EJA contemplada no contexto do orçamento participativo em Porto Alegre (Pontual, 2000).

Nos dois governos do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), o Brasil passou por uma reforma educacional que se iniciou em 1995. Essa reforma foi implementada sob a ordem da restrição do gasto público, de modo que cooperasse com o modelo de ajuste estrutural e com o programa de estabilização econômica adotados pelo governo federal. Essa política tinha por objetivo descentralizar os encargos financeiros com a educação, racionalizando e redistribuindo o gasto público em favor da prioridade ao ensino fundamental regular. Essas diretrizes de reforma educacional implicaram que o Ministério da Educação (MEC) mantivesse a educação básica de jovens e adultos em posição marginal entre as prioridades das políticas públicas de âmbito nacional.

O Ministério da Educação tem como objetivo garantir a todos os brasileiros de 15 anos ou mais que não tiveram acesso à escola ou dela foram excluídos precocemente, o ingresso, a permanência e a conclusão do ensino fundamental com qualidade. Para a oferta da educação de jovens e adultos, modalidade da educação básica, o MEC articula-se com estados, municípios e sociedade civil organizada. O MEC está implementado um conjunto de ações para a ampliação da oferta, para recuperação e melhoria da escola pública e para valorização do professor, tais como: apoio técnico e financeiro aos sistemas de ensino e elaboração e distribuição de material didático.

Legislação

A Constituição Federal de 1988 estabelece que "a educação é direito de todos e dever do Estado e da família..." e ainda, ensino fundamental obrigatório e gratuito, inclusive sua oferta garantida para todos os que a ele não tiveram acesso na idade própria.

O Parecer 05/97 do Conselho Nacional de Educação aborda a questão da denominação "Educação de Jovens e Adultos" e "Ensino Supletivo", definindo os limites de idade fixados para que jovens e adultos se submetam a exames supletivos, define as competências dos sistemas de ensino e explicita as possibilidades de certificação.

No Parecer 12/97 do Conselho Nacional de Educação elucida dúvidas sobre cursos e exames supletivos e outras. No Parecer 11/99 do Conselho Nacional de Educação aborda o objeto da portaria ministerial nº. 754/99 que dispõe sobre a prestação de exames supletivos pelos brasileiros residentes no Japão.

A criação do sistema de Educação de Jovens e Adultos (EJA), segundo o Parecer 11/2000 do Conselho Nacional de Educação, representa uma dívida social não reparada para com os que não tiveram acesso a e nem domínio da escrita e leitura como bens sociais, na escola ou fora dela, e tenham sido a força de trabalho empregada na constituição de riquezas e na elevação de obras públicas. Ser privado deste acesso é, de fato, a perda de um instrumento imprescindível para uma presença significativa na convivência social contemporânea.

A Resolução CNE/CEB nº. 1, de 5/06/2000, estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação e Jovens e Adultos.

No seu Art. 5º:

“Os componentes curriculares conseqüentes ao modelo pedagógico próprio da educação de jovens e adultos e expressos nas propostas pedagógicas das unidades educacionais obedecerão aos princípios, aos objetivos e às diretrizes curriculares tais como formulados no Parecer CNE/CEB 11/2000, que acompanha a presente Resolução, nos pareceres CNE/CEB 4/98, CNE/CEB 15/98 e CNE/CEB 16/99, suas respectivas resoluções e as orientações próprias dos sistemas de ensino.

Parágrafo único. Como modalidade destas etapas da Educação Básica, a identidade própria da Educação de Jovens e Adultos considerará as situações, os perfis dos estudantes, as faixas etárias e se pautará pelos princípios de eqüidade, diferença e proporcionalidade na apropriação e contextualização das diretrizes curriculares nacionais e na proposição de um modelo pedagógico próprio, de modo a assegurar:

I - quanto à eqüidade, a distribuição específica dos componentes curriculares a fim de propiciar um patamar igualitário de formação e restabelecer a igualdade de direitos e de oportunidades face ao direito à educação;

II - quanto à diferença, a identificação e o reconhecimento da alteridade própria e inseparável dos jovens e dos adultos em seu processo formativo, da valorização do mérito de cada qual e do desenvolvimento de seus conhecimentos e valores;

III - quanto à proporcionalidade, a disposição e alocação adequadas dos componentes curriculares face às necessidades próprias da Educação de Jovens e Adultos com espaços e tempos nos quais as práticas pedagógicas assegurem aos seus estudantes identidade formativa comum aos demais participantes da escolarização básica."

O Parecer de 11/2000 do Conselho Nacional de Educação faz referência às Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos, incorporando a EJA às normas e diretrizes nacionais da educação básica.

Fica evidente que a conquista do direito à EJA e a mobilização por sua implementação, inseridas no processo de redemocratização do sistema político nas décadas de 1980 e 1990, foram marcadas pela presença da sociedade civil na reivindicação de direitos e pela pressão por mais participação nos rumos da gestão pública. Esse movimento, principalmente por meio de pressões municipais, fóruns estaduais e encontros nacionais, resultou em novas ofertas de serviços de atendimento e em novas formas de pensar e fazer a EJA, assim como na necessidade de buscar regulamentá-lo.

O Significado da EJA

É um sistema de ensino utilizado na rede pública do sistema educacional brasileiro, para incluir os jovens e adultos na rede de ensino que não estão mais na idade escolar. Tem o objetivo de desenvolver com qualidade o ensino fundamental e o médio para todos aqueles que não tiveram acesso durante a infância e adolescência.

O idealizador da educação para jovens e adultos foi Paulo Freire que, desde 1964, atuava na área desenvolvendo o Programa Nacional de Alfabetização para jovens e adultos. Organizou os círculos de cultura propondo que alunos e professores fossem considerados membros e agentes da educação. A alfabetização deve ser realizada pela definição das palavras e dos temas geradores, próprios do universo vocabular de cada comunidade. Segundo Cynthia G. Veigas, a proposta de Paulo Freire pressupõe intensa participação, criatividade e debates das vivências das pessoas.

Essa educação voltada para adultos passou por vários atropelos por parte de alguns políticos que não a queriam, eles acreditavam que a eliminação do analfabetismo se limitava apenas em proporcionar uma educação de qualidade para as crianças e não para os adultos analfabetos. Devido à lutas de senadores e deputados que não eram contra a educação daqueles que não tiveram condições de estudar, houve, dessa forma, em 1971, a formulação de projetos em favor da Educação de Jovens e Adultos, foi atribuído em projeto de lei para a LDB o ensino supletivo mais tarde transformado em EJA.

A EJA para Paulo Freire deveria considerar o alfabetizando como sujeito de seu saber, no âmbito de uma proposta pedagógica pautada em relações dialógicas de cooperação e solidariedade, constituindo-se em uma opção política e de política educacional. Apesar da exigência constitucional de prioridade deste atendimento e do avanço científico e tecnológico alcançado em nosso país, ainda existem milhões de brasileiros analfabetos.

A importância da EJA se dá na transformação social. É compreender as dificuldades de sua implantação, como política permanente, num país desigual como o Brasil. A EJA, dotada de qualidade, transformou-se em uma política social que ameaça o status quo das elites privilegiadas, com possibilidade de produzir “desobediência civil” ao não aceitar os limites impostos pela sociedade de classes, esse é o grande motivo pelo atraso no interesse se sua implantação. Quantao mais analfaeto for um povo, mais fácil será para manipulá-lo.

Voltando um pouco no tempo e permitindo uma breve lembrança, a lei de 1946 organizou o ensino primário em fundamental e supletivo para jovens e adultos. Em 1961 foi criada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), ela manteve a autonomia administrativa dos estados em relação ao ensino primário e normal, a única padronização foi quanto à duração dos cursos. Estabeleceu parâmetros genéricos válidos para todo o território nacional e assegurou que a educação fosse direito de todo o cidadão.

Lindo discurso, na prática o Estado brasileiro não assumiu o compromisso constitucional de promover educação para todos. Evidencia-se o fato pela reedição de exceções legais que isentavam pais ou responsáveis da obrigatoriedade de mandar as crianças à escola através da comprovação de estado de pobreza, insuficiência de vagas e de escolas. Além disso, o governo favorecia a iniciativa privada com subvenções e financiamento para construir escolas particulares. Com essa política fica impossível melhorar a taxa de alfabetização do povo brasileiro. Foram criados manifestos pela escola pública, leiga e gratuita para todos os cidadãos, neles eram evidenciados os problemas da educação que eram causados pela ausência de uma melhor definição em âmbito nacional dos fins e dos meios da educação.

A experiência dos movimentos sociais e de técnicos envolvidos nas políticas sociais foi mostrando, no entanto, que a Educação Popular é um instrumento importante de aperfeiçoamento das relações entre as classes populares, os movimentos sociais e o Estado. José Luís Coraggio salienta que a Educação Popular não é apenas uma maneira de comunicação, ensino, aprendizagem e reflexão, mas de gestão de campos específicos da atuação humana. Conforme torna possível o dialógo e a negociação nas práticas sociais, nas localidades e subsetores das instituições e organizações civis, pode ser um meio importante de radicalização do processo de democratização política.

Os Educadores em Formação

A profissionalização do educador de EJA tem se tornado cada vez mais nuclear, tanto nas práticas educativas quanto nos fóruns de debate. Com base na ação do voluntariado, a primeira Campanha Nacional de Educação de Adultos no Brasil, lançada em 1947, passou a ser sistematicamente criticada por não preparar adequadamente professores para trabalhar com essa população. No I Congresso Nacional de Educação de Adultos, realizado no Rio de Janeiro, ainda em 1947, já eram ressaltadas as especificidades das ações educativas em diferentes níveis e se recomendava uma preparação adequada para se trabalhar com adultos. Passados mais de dez anos, no II Congresso Nacional de Educação de Adultos, realizado em 1958, as críticas à ausência de formação específica para o professorado, assim como à falta de métodos e conteúdos pensados particularmente para a educação de adultos, tornaram-se ainda mais agudas, explícitas e generalizadas.

O inciso VII do art. 4º da LDB 9394/96 estabelece a necessidade de atenção às características específicas dos trabalhadores matriculados nos cursos noturnos. Vê-se, assim, a exigência de formação específica para atuar na EJA, explicitada pelo Parecer CEB/CNE 11/2000: "Trata-se de uma formação em vista de uma relação pedagógica com sujeitos, trabalhadores ou não, com marcadas experiências vitais que não podem ser ignoradas".

Ainda que não seja uma questão propriamente nova, somente nas últimas décadas o problema da formação de educadores para a EJA ganhou dimensão mais ampla. Esse novo patamar em que a discussão se coloca relaciona-se à própria configuração do campo da Educação de Jovens e Adultos. Nesse sentido, a formação dos educadores tem se inserido na problemática mais ampla da instituição da EJA como um campo pedagógico específico que, desse modo, requer a profissionalização de seus agentes.

Segundo os dados do INEP de 2002, das 519 Instituições de Ensino Superior (IES) brasileiras que ofertam o curso de Pedagogia e que foram avaliadas pelo Exame Nacional de Cursos, apenas 9 (1,74%) oferecem a habilitação de EJA: 3 na região Sul, 3 na Sudeste e 3 na região Nordeste (MEC/INEP, 2002). Os dados de 2005 revelam que houve aumento, ainda que pouco expressivo, do número de instituições que oferecem a habilitação de EJA para os cursos de Pedagogia: das 612 contabilizadas, 15 oferecem a habilitação (2,45%) e, dos 1698 cursos, há 27 ofertando essa formação específica.

Trabalho de Campo

ESCOLA ESTADUAL DE ENSINO MÉDIO

A Prof(a). assume a direção do Grupo Escolar em primeiro de abril de 1966. O prédio estava ainda em construção, situado em um bairro central de Porto Alegre , RS. A Escola inicialmente era composta por quatro salas de aula, mais uma parte destinada à Administração e serviços. No dia 02/04/66 as cinco primeiras professoras tomaram posse, sendo que no decorrer do mês, integraram-se ao grupo, mais onze professoras.

Atualmente a Escola oferece Educação Infantil, Ensino Fundamental de 1ª à 8ª série e inicia a oferta do Ensino Fundamental de nove anos com uma turma de 1º ano no turno diurno, e Educação de Jovens e Adultos, abrangendo a Pós-Alfabetização e Nível Médio, à noite, foco do presente estudo.

Aspectos Físicos da Escola

Hoje, a Escola é composta por dois prédios de alvenaria e um pátio central subdividido em uma cancha de futebol e outra de vôlei. No prédio principal há onze salas de aula, sala de professores, secretaria, salas da Direção e Vice-Direção, sala do serviço de Orientação educacional, sala do serviço de Supervisão Educacional, sala do setor de recursos Humanos, sala do setor Administrativo-Financeiro, biblioteca, refeitório, cozinha, laboratório de Ciências, de Informática, sala de artes, sala de mecanografia, almoxarifado e banco do livro, sala de vídeo, seis sanitários para os alunos e três para os professores, um bar, uma sala para pessoal de serviços gerais e uma sala com banheiro onde funciona um serviço de xerox terceirizado.

O prédio auxiliar é composto por seis salas de aulas, quatro sanitários, sala de recursos, sala de Línguas, sala de material de Educação Física e Grêmio de Alunos. Em anexo à sala de aula da Educação Infantil situa-se uma pracinha com brinquedos utilizada no desenvolvimento de suas atividades e recreação.

O corpo discente é composto pro 1.205 alunos, esses dados são de 2006, divididos em: 21 alunos (manhã) na Educação Infantil, 772 alunos (manhã e tarde) no Ensino Fundamental e 412 alunos na Educação de Jovens e Adultos. Desses 1.205 alunos, 31% residem no bairro da Escola, 37% em bairros próximos da Escola e 28% em bairros afastados da Escola e de lugares da Grande Porto Alegre e 4% não responderam os dados na hora da coleta das informações realizada pela Escola. A situação sócio-econômica dos alunos é: 6% responderam possuir renda de até um salário mínimo, 29% de um a três salários, 335 de três a seis salários mínimos, 27% acima de seis salários, 3% desempregados e 2% não responderam. A escolaridade dos pais ou responsáveis é: 5% não completaram o Ensino Fundamental, 9% tem o Ensino Fundamental completo, 4% não concluíram o Ensino Médio, 29% possuem o Ensino Médio, 18% não possuem Ensino Superior, 22% possuem o Ensino Superior completo e 7% informaram ter feito a Pós-graduação, 6% não responderam. Total dos pais ou responsáveis é de 793 pessoas.

A taxa de repetência: no ano de 2005 da 1ª à 4ª série foram reprovados 29 alunos, da 5ª à 8ª série foram 120 alunos, mostrando índices de 8,8% e 28,3% respectivamente. As disciplinas que mais reprovam são matemática e português.

O corpo docente e funcionários são compostos por: 01 prof. Na Educação Infantil, 48 no Ensino Fundamental e 15 no EJA, a Escola conta com 13 funcionários. A formação do Corpo Docente é de 04 com Magistério do II Grau, 3 com Ensino Superior e 01 com licenciatura curta, 53 com licenciatura plena, 15 com Pós-Graduação Lato Sensu completo, 01 com Pós-Graduação StrictoSensu completo.

Marco Referencial

A educação é condição indispensável para o desenvolvimento auto-sustentado do país. Ela mostra-se empobrecida por um ensino desqualificado, que não vislumbra os objetivos principais da formação da cidadania, de um sujeito ativo e critico. Para a Escola o povo sem educação é o povo que pensa menos, mais facilmente fica à mercê das classes dominantes e a qualquer tipo de manipulação. É um povo nada criativo, reflexivo e questionador, não interfere nas políticas, aliena-se e submete-se.

O descaso salientado ainda para a educação refere-se à desvalorização dos profissionais que atuam na área, através de uma formação deficitária e com péssima remuneração.

Há preocupação por parte da Escola com a desestruturação da família. Essa inquietação dirige-se à criança que cresce sem o acompanhamento de um responsável que o oriente na observância de limites, respeito, formação de hábitos e atitudes. A luta pela sobrevivência é também responsável pelo encurtamento das relações familiares. A escola e os professores acabam tendo a responsabilidade de resolver problemas cotidianos dos alunos, inclusive afetivos.

Além disso, há ainda a questão da globalização que preocupa os responsáveis pela Escola (professores, pais, funcionários e alunos) porque promove uma sociedade violenta, individualista, gananciosa, vazia, desumana e excludente. Ao mesmo tempo, que possibilita a evolução dos meios de comunicação e avanços científicos para uma melhora na qualidade de vida.

Marco Doutrinal

O marco doutrinal dessa Escola almeja um mundo sem violência, que abrigue uma sociedade justa, evoluída, participativa, democrática, solidária em que os direitos de todos sejam reconhecidos e garantidos, sem exclusão. Uma sociedade que atenda às necessidades de uma família, onde exista educação com qualidade e saúde preventiva.

Deve ser uma educação que busque transformar o que for necessária para o bem comum, desenvolvendo a solidariedade, criatividade, prática democrática e participativa. Uma educação com sentido social, que valorize o ser humano crítico, capaz de fazer leitura de mundo, de nele estabelecer e vivenciar relações, conscientizando-se de suas necessidades e possíveis soluções.

As linhas norteadoras para o ano referem-se à reformulação do plano de estudo deixando-o mais adequado para o aluno do EJA, mais voltado para o mundo do trabalho. Reforçar a qualidade das aulas através de projeto e saídas de campo.

Processo de Planejamento

O planejamento deve partir da realidade concreta tanto dos sujeitos quanto do objeto de conhecimento e do contexto em que se dá a ação pedagógica. Pressupõe conhecimento da realidade dos alunos, da escola, comunidade, além de autoconhecimento e conhecimento do objeto de estudo e da realidade mais ampla. Requer, ainda, uma atitude de reflexão-ação-reflexão-ação. E, requer participação de todos os envolvidos: professores, pais, alunos, funcionários e comunidade, na elaboração dos Planos de Estudos e dos planos de trabalhos oportunamente.

Entrevistas

Entrevistas com alunos e com Orientador Pedagógico e Vice- diretora da escola, realizadas em 13 de outubro de 2008 sobre a importância da EJA:

A escolha da Escola deve-se ao fato da aluna Ângela já ter atuado como professora estagiária da disciplina de Sociologia para as turmas 202 e 303 do Ensino Médio/EJA, por conhecer as pessoas que atuam, o qual possibilitou a facilidade do grupo em conversar abertamente com as pessoas para a realização do trabalho. Retornar para a Escola que eu realizei meu estágio foi muito gratificante pelo fato de receber o reconhecimento dos alunos, por ser chamada de professora e pela pergunta deles em saber se eu daria aula para eles novamente. Os alunos da turma 303 já tinham concluído o seu Ensino Médio/EJA e já não estavam mais na Escola. Mas, os alunos da turma 202 agora eram os novos alunos das turmas do terceiro ano. Eles estavam bem eufóricos porque faltava pouco tempo para finalizarem o seu ensino médio.

O nosso grupo de trabalho realizou na Escola entrevista com três alunos, com a Vice-diretora e com o Orientador Pedagógico, conforme segue:

'1)Aluno – 1': foi meu aluno no primeiro semestre na turma 202, hoje já passou para o último ano está na turma 301. Esse é o aluno que eu relato nas minhas observações como o aluno mais interessado. É trabalhador, tem filhos e é responsável pelo sustento da família. Enfatiza na entrevista a importância do EJA porque possibilita para os mesmos uma formação mais rápida, uma oportunidade para eles e seus colegas que não conseguiram estudar quando eram mais jovens e principalmente porque com essa aprendizagem ele poderá orientar melhor os seus filhos no dever de casa.

'2)Aluno - 2': também foi meu aluno na turma 202 e já está na turma 301. Era interessado e participava de todos os debates assim como o nosso primeiro entrevistado. Parece brincadeira, mas sem querer entrevistamos os dois homens com mais idade que possuem o mesmo nome. Antônio revela que o estudo é importante e que voltou a estudar por exigência profissional. Hoje em dia ter o ensino médio representa para ele uma melhor oportunidade no mercado de trabalho e também pelo fato de que a empresa onde ele trabalha está exigindo dos seus funcionários o Ensino Médio completo. Assim como o nosso primeiro entrevistado optou pelo EJA pelo fato de ser mais rápido e de possibilitar que pessoas como ele possa voltar a estudar no meio de outras de fixas etárias mais parecidas.

'3)Aluna – 3': enfatiza a importância de a escola ter a EJA, diz que devido às dificuldades financeiras parou de estudar e que agora retornou porque a EJA possibilita uma conclusão mais rápida para quem não está mais em idade escolar acabar seus estudos e estar melhor qualificado quando busca emprego.

'4)Prof°.M': destacou que o antigo “Supletivo” contemplava o aluno quanto a questão tempo, como a Eja, porém havia uma cobrança maior. Entende que perdeu a qualidade com a chegada da Eja. Os alunos usam a estrutura da escola com ressalvas. Mas participam de atividades como passeios, visitas, mostras e utilizam com interesse os laboratórios da escola.

'5)Profª. A' : para a professora andamos a passos lentos, no que diz respeito as necessidades. Existe uma carência teórica e estrutural. A própria SEC, não dá o auxílio necessário às instituições. Não existe sistematização e nem professores capacitados para as necessidades. A profissional afirma que a pedagogia praticada é fraca.

ESCOLA ESTADUAL DE PRIMEIRO GRAU

Observações salientadas por Tiago:

A possibilidade de realizar a observação em sala de aula, o contato com os alunos, com os professores e com a escola, é um privilégio para aqueles que estão iniciando a sua vida profissional como educadores. É momento marcante para o aluno da licenciatura quando ele começa a dar corpo em suas expectativas.

A sala de aula foi uma experiência inusitada, onde senti a realidade concreta, um sistema de ensino que domestica os alunos através de uma educação bancária (Freire, 1983). Nesta estrutura, é reduzida à chance dos alunos desenvolverem em si a consciência crítica de que resultaria a sua inserção no mundo como transformadores dele, como sujeitos livres e completos.

Como já havia cursado a cadeira de prática de ensino e retornei para mesma instituição, foi um movimento intrigante. As discussões que realizamos ao longo da disciplina de “Psicologia da Educação I”, bem como as aulas de “Prática de Ensino” foram fundamentais para fazer a amarração, entre a teoria e a prática. Este adolescente, sedento por ocupar seu espaço na sociedade (Calligaris, 2001) , que chega as escolas era a maioria nas turmas de Eja. Como trazer as teorias e discussões da academia para uma escola tão empobrecida pela classe administrativa do Brasil? Como fazer com que o giz e a quadro negro tenham êxito sobre a novela das vinte uma horas da poderosa Rede Globo? Como dialogar, ensinar e avaliar um aluno com profundas dificuldades de ortografia e conhecimento da língua portuguesa, mesmo estando concluindo o Ensino Fundamental? Ao longo das observações questionava-me quanto aos desafios da classe docente, frente à efervescência social brasileira.

Realizei minhas observações no período da noite, em uma escola pública do Bairro Bom Jesus na capital gaúcha, Porto Alegre. A disciplina que observei foi Ensino Religioso, onde a Professora titular ministra aulas de Ética, Cidadania e Sociologia, e Língua Portuguesa em três turmas de EJA (Ensino de Jovens Adultos). Entendo que a educação libertadora, proposta por Freire é viável. Esta proposta é antes de tudo uma educação geradora de consciência, posto que além de conhecer a realidade, buscamos transformá-la (Freire, 1996).

ESCOLA ESTADUAL DE PRIMEIRO GRAU

Na Escola Estadual Antão de Farias recebi uma excelente receptividade durante meu estágio no semestre anterior. A disciplina na qual atuei foi o Ensino Religioso na Educação de Jovens Adultos, onde pude trabalhar os conteúdos de Ciências Sociais. Foi interessante retornar a escola e encontrar alunos, e Professores e ser recebido com: - Tudo bem “Professor!” – admito que dá um certo orgulho.

A Escola Antão de Farias localiza-se no Bairro Bom Jesus em Porto Alegre. A Escola atende na maioria, alunos do bairro. Como a localização é relativamente próxima da avenida 1Protásio Alves (duas quadras), no caso do EJA especificamente, alguns alunos vem de bairros próximos para assistir a aula.

O bairro Bom Jesus, é um dos primeiros bairros da região Leste da capital gaúcha. Segundo dados de censo do ano de 2000, da Prefeitura de Porto Alegre, o rendimento médio mensal dos responsáveis pelo domicílio é de 3,97 salários mínimos. Em relação ao censo de 1991, registrou-se crescimento de 2,80% ao ano. Sendo que a população total é de 28.229 moradores em uma área de 179 ha., sendo assim a densidade de 158 hab/ha. Acomodados em 7.874 domicílios. As mulheres representam 51% da população do bairro. Na escola devido a diversos fatores relativos a trabalho, evasão escolar, e envolvimento com o tráfico de drogas a maioria feminina se exacerba.

Infelizmente o bairro é marcado por um histórico longo de violência. Os acessos sinuosos que ligam a Avenida Protásio Alves e a Avenida Ipiranga, escondem um convívio silencioso com tráfico de drogas, prostituição infantil e disputas de território. Muitas mortes têm relação direta com grupos que rivalizam atividades lícitas e ilícitas no bairro. Existe uma guerra de famílias que se arrasta há décadas pelas ruas íngremes, estreitas e mal pavimentadas da vila. De amplo conhecimento dos moradores, é a existência de três grupos que disputam a hegemonia dos “negócios”: os Bragés, os Mirandas e os Bala na Cara. Por vezes este conflito se reflete dentro da escola através de brigas, espancamentos e troca de tiros.

A Escola completa no ano de 2008, 66 anos de existência. Ao todo são 1.452 alunos divididos ao longo das turmas que compõem o Ensino Fundamental. A escola atua nos turnos da manhã, da tarde e da noite, tendo uma funcionária para a secretaria. Neste segundo semestre de 2008 verifiquei, no mínimo mais 4 alunos de outras instituições de ensino estavam realizando seus estágios na escola.

Descrevendo as Turmas

Durante o período do estágio trabalhei com três turmas. As aulas eram ministradas nas quintas-feiras, em períodos subseqüentes. Os períodos iniciam-se as 19h00min com duração de 45 minutos. Usualmente os alunos na sua maioria já estavam em sala de aula, ou dentro da escola. Alguns minutos após o sinal inicial, a vice-diretora fecha o portão da escola, e os alunos atrasados não entram mais. Infelizmente existe um número considerável de alunos que dentro da escola não entram na sala de aula, no momento do sinal inicial, e com isso vão entrando nas salas de aula aos poucos, atrapalhando os demais e os próprios professores.

A T4 (6º série), apresentava uma concentração de alunos com idade avançada, e um número maior de alunos. Nesta turma havia desde um aluno de 65 anos, até um mais novo de 16 anos de idade. O aluno de 65 anos apresentava profundos problemas auditivos, sendo necessário repetir em voz alta as atividades ou algumas colocações que ele não compreendia. Por sua vez o aluno, mais novo da turma, tinha um histórico de repetência escolar e problemas disciplinares. Este havia sido expulso da escola nos turnos diurnos e foi lhe dado como última alternativa cursar o Eja no período noturno. Esta era a primeira aula da noite.

A T5 (7º série), era a última turma da quinta-feira no último período do noturno. Vinham de dois períodos de matemática. Nos primeiros encontros era complicado resgatá-los da ansiedade que os períodos iniciais impetravam na turma. “A prova”, “a matéria nova”, “a lição da última aula”, ficava sobrevoando a aula nos minutos iniciais. Para solucionar esta situação, passei a destinar os primeiros minutos a verificar as presenças, fazia as anotações iniciais no quadro e destinava alguns minutos ao atendimento individual nas mesas dos alunos que solicitavam minimizar alguma dúvida.

A T6 (8º série), apresentava um maior interesse e expectativa a cada encontro que realizamos. A turma estava no último semestre na escola, e o discurso dos alunos era frequentemente significado deste lugar. Notava-se em seu discurso uma postura de balanço da trajetória até concluir o ensino fundamental. A disciplina era um espaço onde trocávamos as possibilidades que o Ensino Médio proporcionaria para sua formação. Desta turma muito ouvi reclamações contra o Estado e a própria direção da escola, por conta das condições da biblioteca da escola, das salas e dos prédios da instituição. A maioria desta turma trabalha e estuda, bem como algumas alunas por vezes levavam seus filhos ou irmãos menores para a sala de aula. Todas as turmas apresentaram ao final do estágio um bom nível de assiduidade, até mesmo aponto como interessante o fato da quantidade de alunos. No final do estágio as turmas eram bem maiores que no início da nossa atividade.

Observações

As aulas que assisti na escola no semestre anterior, foram divididas em seis encontros com as turmas que eu realizei o estágio com a Professora titular da disciplina, a saber, Profº. Mestre em Sociologia Cleide Amorim. E mais três encontros com a Professora Rosangela, na disciplina de Língua Portuguesa. Nas aulas de Português foi utilizado o método expositivo. Neste modelo de aula tinha o padrão de permitir apenas que o professor falasse em sala de aula. Nas aulas de Ensino Religioso uma delas foi atípica como demonstrarei em meu relato, e a outra foi a realização de um diálogo com a turma a partir de uma reportagem. A professora Cleide Amorim, tem um programa fixo para todas as turmas, mesmo elas sendo de séries diferentes.

Neste segundo semestre de 2008, assisti as aulas de Língua Portuguesa com a Professora Rosangela, das mesmas séries do EJA, porém com as turmas diferenciadas em decorrência da troca de semestre. Ao todo foram 3 períodos.

10-04-2008 – Ensino Religioso

Cheguei à escola 18h30min conforme solicitação da Professora C. para que pudéssemos conversar um pouco antes da minha primeira observação. A aula inicia as 19h00min. Fiquei na sala dos professores, onde os professores assistiam Tv. A coordenadora da escola, já estava presente. Conversamos bastante, ela me levou até as salas de aula e falou das carências da instituição. Ela leciona também Língua Portuguesa para as turmas T4, T5 e T6, e está a um ano na escola. Combinamos que eu poderia assistir a sua aula, na próxima semana, pois atua com as mesmas turmas do EJA que trabalharei no período da noite.

A titular da cadeira teve contratempo, e chegou com alguns minutos de atraso. Fomos até a sala de aula juntos, onde a Professora me disse:

- Fica tranqüilo, hoje tu só irá observar.

Nossa primeira turma era a T4. Quando entramos na sala de aula a Professora Cleide pediu desculpas para turma pelo atraso. Fui apresentado como “um colega Sociólogo” da Ufrgs, que iria trabalhar com ela na disciplina por algumas semanas.

Logo após a Professora disse:

- Pessoal o seguinte, redaçãozinha sobre a dengue. A dengue ‘tá aí... Temos que nos cuidar, pois a dengue mata...Os cuidados que podemos tomar, para evitar a dengue...

Nisto uma aluna, tímida levanta a mão, e a titular lhe dá a palavra:

- Professora, na semana passada já fizemos uma redação sobre a dengue...

A titular, dá uma breve pausa...

- Pessoal o seguinte, redaçãozinha sobre o aniversário de Porto Alegre. O que vocês fariam para melhorar a cidade. O que vocês não gostam na cidade... Vão fazendo que vale nota daqui a pouco eu venho pegar aqui... Vamo, vamo, vamo...

Os alunos com uma expressão de que não gostaram muito da idéia foram arrancando as folhas dos cadernos, para a atividade. A titular me convidou para sair da sala e disse:

-Sempre que tenho que resolver algum problema eu dou uma redação para eles ficarem trabalhando. Fomos para a sala dos professores novamente. Lá a professora me contou de sua experiência como professora, de sua atuação como professora do mestrado em uma universidade da capital. Ela me “deu dicas” de como atuar na sala de aula. Um aluno veio até a sala para fazer uma pergunta sobre a atividade, e voltamos para a sala de aula.

Na sala de aula novamente, os alunos me olhavam, enquanto eu anotava as informações de meu diário de campo. As salas de aula com classes de diferentes formatos, bem como as cadeiras. O quadro é dividido por uma coluna, fazendo com que se tenha na prática, dois quadros verdes.

Alguns minutos antes do final do período os alunos já passaram a entregar as suas redações.

19h47min estávamos na sala da T6. A turma já estava toda na sala de aula. Fui apresentado aos alunos como futuro “Professor” da disciplina. A Professora disse que a atividade seria uma redação sobre o aniversário de Porto Alegre, valendo nota.

Sem perguntas ou reações a turma passou os minutos restantes redigindo as suas redações. Mais uma vez no fim do período todos entregaram.

Na T5 a titular demorou em entrar na sala de aula devido à mãe de um aluno ter vindo falar com a ela. Cumprimentei os alunos e sentei-me no fundo da sala de aula. Vi uma aluna dizer:

- Deve ser padre...

Quando a Professora entrou na sala de aula já eram 20h45minmin. Ela explicou a atividade e pediu para que fizessem a redação, valendo nota até o fim do período. Alguns alunos reclamaram do pouco tempo, mas acabaram fazendo o mais rápido possível. A professora veio até o fundo da sala, e sentou comigo, tive de fechar a agenda, mas recordo-me da sua expressão dizendo:

- Viu como é fácil, fica tranqüilo!

17-04-2008 – Ensino Religioso

Cheguei à escola 18h45minmin e a Professora Cleide já estava na escola. Conversamos bastante na sala dos professores, ela estava um pouco abatida. Comentou que temia estar com dengue, pois havia viajado a região centro-oeste durante a semana.

19:00 estávamos na T4. A turma estava bem agitada, era uma noite quente. Os alunos mais jovens entravam e saiam da sala de aula. Nas primeiras palavras da professora eles já foram silenciando.

A titular trouxe uma reportagem da Revista Escola. O título da reportagem era, “Ser negro, ser brasileiro”.

Ela mostrou para os alunos a revista, e a reportagem. Fez algumas considerações sobre a tiragem da mesma, e o alcance que a publicação tinha nacionalmente.

Depois disto leu algumas sentenças para a turma. E a partir deste momento começava a perguntar para a turma a opinião deles quanto ao assunto. Algumas alunas de mais idade passaram a relatar situações que haviam presenciado preconceito racial. A turma se manteve coesa e atenta ao assunto. Demonstraram grande maturidade para tratar do tema. Com colocações interessantes e bem articuladas. A titular conduziu a atividade de maneira, que todos participavam. Pois envolvia a turma nos questionamentos. Lamentei não haver uma amarração do tema com teóricos. Os minutos passaram muito rápido. Foi feito à chamada após ter soado a sirene do segundo período.

Fomos para a T6 e entramos na sala de aula 19h50min. Chegando à turma, a titular já pediu para que passasse a chamada. Fez uma breve introdução, alguns alunos estavam entrando na sala de aula ainda. E a professora recomeçava. Por fim explanou a sua introdução trazendo elementos sobre a revista e a tiragem da mesma. Apresentou a reportagem e iniciou a sua forma de provocar a participação dos alunos. A turma não estava muito inclinada a participar. Uma aluna especificamente começou a relatar uma situação que ocorreu na sua empresa. Esta foi emblemática, no que diz respeito ao racismo característico no Brasil. A mesma relatou que na sua empresa, ela é a cozinheira mais antiga e experiente, sendo pessoa de confiança da gerencia do hotel que ela trabalha. Já atua a oito anos no mesmo setor. A cozinheira chefe aposentou-se, e as evidências apontavam para a sua indicação como nova cozinheira responsável pelo setor. Infelizmente não foi o que ocorreu. Foi contratada uma outra cozinheira para assumir a cozinha do estabelecimento.

Quando ela foi, questionar os seus superiores por não ter assumido o cargo, eles disseram a ela, que “não eram especialistas em cozinha brasileira”. Vi que eu poderia auxiliar de alguma forma aquelas pessoas. E já passei a preparar a minha primeira aula, para a semana subseqüente.

20:30min estávamos iniciando a atividade na T5. A titular fez a sua introdução. A turma participou bastante na atividade. Fiquei feliz em ver que os alunos quando instigados, ou tocados pelo tema participam ativamente. Comentários interessantes foram emitidos por todos da turma. Mais uma vez a titular conduziu de forma precisa o encontro. As conversas paralelas que normalmente existem em sala de aula e principalmente neste tipo de atividade. Neste momento, as que existiam, eram sobre o tema. Um aluno perguntou “se havia preconceito nas universidades, pois havia visto manifestações deste tipo relativas as cotas étnicas na Ufrgs”. Fiz alguns comentários, quando a professora me passou a palavra. Os alunos ficaram todos até o toque final.

Na próxima semana eu estaria encerrando o tema.

18-04-2008 – Língua Portuguesa

Cheguei à escola 18h50min fui até a sala da coordenação, onde a Professora me recepcionou. Fomos para a T5, onde teríamos dois períodos de Língua Portuguesa. A maior turma do EJA estava dispersa as 19h00min, quando entramos na sala de aula. Quando a professora iniciou a aula, houve silencio. Não tenho certeza, mas em uma primeira contagem existe uma maioria feminina na sala de aula, sendo que os alunos de idade mais avançada são as mulheres.

A impressão que tenho é de que havia mais alunos hoje do que ontem, mesmo sendo uma sexta-feira à noite. O quadro desta sala de aula é dividido em dois por uma grande coluna. Para aproveitar toda a área, a professora tem de escrever as ultimas linhas agachada. O texto que está sendo trabalhado foi dado em um xérox no 1º dia de aula. Achei interessante que a maioria dos alunos tinha o texto. Todos participaram da interpretação de texto que estava sendo feita com a turma. Uma dificuldade interpretativa geral é facilmente percebida, quando exigida uma complexificação da turma, mas existe um esforço sério da turma e da professora em progredir neste respeito. A professora explanou sobre a necessidade de desenvolver o hábito da leitura.

Nosso último período iniciou 20h30min na T4. A turma estava bem pequena iniciamos a aula com sete alunos e terminamos com dez. “Sexta-feira” - disse a professora, quando entramos na sala. A aula foi muito produtiva, pude relembrar várias regras interessantes para identificar as preposições. De alta qualidade a aula ministrada, para os alunos presentes. O fato de não terem assistido a aula é de grande prejuízo para os alunos ausentes. Como no EJA, o conteúdo é sintetizado, os alunos tiveram hoje o seu encontro com as preposições, e no máximo terão mais um encontro. Durante o encontro a professora citou este dado duas vezes, acredito que como motivador aos alunos presentes.

24-10-2008 – Língua Portuguesa

Cheguei à escola 18h15min fui até a sala dos professores, mas não havia nenhuma professora ainda. Como as janelas estavam abertas, um som muito forte vinha de um carro de som que estava em frente da escola, fazendo campanha de um candidato a Prefeito de Porto Alegre, e de um vereador. Achei interessante que a música utilizada era um “funk”. Este estilo musical é de muita penetrabilidade na periferia, porém a imagem dos candidatos e suas origens eram extremamente distintas. Quando os primeiros professores chegaram tivemos um debate bem interessante sobre o assunto.

Expliquei para os professores sobre meu retorno e os motivos, foi bom re-encontrar a equipe de educadores.

A professora Rosangela chegou muito próximo do toque inicial. Ela me perguntou, qual atividade eu pretendia fazer? Expliquei que eu necessitava de complemento das horas de observação e não de estágio. Com isso fomos para a T6, onde teríamos dois períodos de Língua Portuguesa.

A turma foi a princípio indiferente a minha presença, até o início do segundo período, quando chegou à sala um aluno que eu havia sido meu aluno no semestre anterior. Ele acabou sendo reprovado por faltas e também por não atingir os conteúdos, segundo ele. O mesmo informou que estava trabalhando na obra de construção de um shopping na capital, e perdia muito tempo no deslocamento.

A aula era continuidade da interpretação de um texto. Observei que poucos alunos realmente participavam na atividade, não notei na professora muito esforço em silenciar a turma. A turma estava dispersa, pois alguns não tinham o texto e levavam suas cadeiras a classe de outros colegas, e assim não trabalhavam.

O silêncio existiu quando a Professora respondeu as perguntas relativas a prova no fim da aula. Nosso último período iniciou 20h30min na T5. A professora conversou comigo nos minutos iniciais na minha classe no fundo da sala, enquanto os alunos entravam na sala de aula. Boa parte da turma eram de adolescentes bem jovens.

Assim que a professora fechou a porta fizeram silêncio e ela iniciou a correção de um material que ela havia passado para a turma. A turma permaneceu atenta e participativa. No mesmo material a professora trabalhou, verbos, concordância e pronomes. A turma permaneceu conectada a aula com momentos de intensa participação, fazendo perguntas e indo a mesa da professora. Tive a sensação de que existia uma pré-disposição da professora maior para com esta turma, em relação a anterior.

ESCOLA MUNICIPAL DE ENSINO FUNDAMENTAL

A escola que visitamos foi a Escola Municipal de Ensino Fundamental, situada na cidade de São Leopoldo na região metropolitana de Porto Alegre. A escola tem suas atividades nos três turnos: no diurno funciona o ensino fundamental regular e no noturno o EJA, onde estão matriculados em torno de 300 alunos.

O EJA é dividido em etapas que são representadas pelas séries de alfabetização, iniciais e finais.A entrevista foi realizada com o professor Paulo, que durante quatro anos fez parte da equipe diretiva da Escola Municipal de Ensino Fundamental.

Ficou muito claro que o EJA necessita de uma reestruturação para que faça parte de uma política eficaz e inclusiva, pois ainda possui grandes dificuldades em trazer para sala de aula práticas em que seja ilustrado o cotidiano dos jovens e adultos. Há uma grande falta de materiais e atividades específicas para este grupo de alunos, que acabam se dispersando e muitas vezes abandonando o módulo no decorrer do ano letivo.

A permanência é um dos maiores desafios dos professores do EJA, pois ainda é grande o número de alunos que contribuem para o aumento da evasão escolar. Professor P. também cita a falta de outras políticas para a inserção do aluno na sociedade, pois não basta apenas a estruturação do EJA para o ensino de jovens e adultos, mas um conjunto de fatores, que vão desde a família até a relação do indivíduo com si próprio.

Conclusão

O período de transição do milênio foi marcado, em todo o mundo, pelo crescimento das aspirações e da participação dos jovens e adultos em programas educacionais. Dentre as motivações para a busca de maiores níveis de escolarização após a infância e adolescência, destacam-se as múltiplas necessidades de conhecimento ligadas ao acesso aos meios de informação e comunicação, à afirmação de identidades singulares em sociedades complexas e multiculturais, assim como às crescentes exigências de qualificação de um mundo do trabalho cada vez mais competitivo e excludente. No caso brasileiro, esses fatores favoreceram a expressão de parcela da extensa demanda potencial acumulada ao longo de uma história de negação de direitos e limitado acesso à educação escolar, que legou ao presente grandes contingentes de jovens e adultos analfabetos, com reduzida escolaridade e escasso preparo profissional.

Embora todos os grupos etários tenham, na conjuntura atual, necessidades de aprendizagem incrementadas, a maior parte das pessoas que busca no sistema educacional brasileiro oportunidades de estudos acelerados em horário noturno (as características da educação básica de jovens e adultos mais claramente percebidas) são adolescentes e jovens pobres que, após realizar uma trajetória escolar descontínua, marcada por insucessos e desistências, retornam à escola em busca de credenciais escolares e de espaços de aprendizagem, sociabilidade e expressão cultural.

O perfil marcadamente juvenil que a educação escolar de adultos adquiriu no Brasil na última década deve-se à combinação de fatores ligados ao mercado de trabalho (exigência de certificação escolar) e ao sistema educativo (elevada defasagem na relação idade/série), potencializados pela redução da idade mínima permitida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996 para a freqüência a essa modalidade de educação básica.

Portanto, o trabalho ainda será muito árduo para a afetivação das políticas relativas à Educação de Jovens e Adultos. Enquanto essa esperada mobilidade não nos dá as caras, cabem a nós, futuros educadores, o engajamento e cobrança das modificações dos projetos educacionais, para que um dia não necessitemos de buscar soluções para reparar nossos próprios erros.

Referencias Bibliográficas

CALLIGARIS, Contardo. 'A Adolescência' (coleção: "Folha Explica", Publifolha, 2001)

FREIRE, Paulo, 1996. 'Pedagogia da autonomia'. São Paulo: Paz e Terra.

FREIRE, Paulo. 'Pedagogia do Oprimido'. (1983). 13.ed. Ruo de Janeiro, Paz e Terra. ( Coleção O Mundo, Hoje,v.21) HADDAD, Sérgio. 'A ação de governos locais na educação de jovens e adultos'. Ação Educativa, São Paulo, Rev. Bras. Educ. v.12 n.35 Rio de Janeiro maio/ago. 2007 MEIRELLES, M.; RAIZER, L.; INGRASSIA, T. 'Formação do professor de Sociologia: desafios à profissionalização e prática docente diante da obrigatoriedade da disciplina'.

RODRIGUES, Alberto Tosi. 'Sociologia da Educação'. – Rio de Janeiro:DP&A, 2004, 5 .ed

VEIGA, Cyntia G. 'República e Educação no Brasil: 1889-1971'. In IDEM. História da Educação. São Paulo: Ática, 2007. pp. 237-316.

Sites consultados: Ministério da Educação: www.mec.gov.br