Educação especial e inclusão

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE EDUCAÇÃO

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO I – A


EDUCAÇÃO ESPECIAL E INCLUSÃO


2008/1


ÍNDICE

Introdução................... 3

Um caso especial..................... 3

Relato............................ 3

Questionário....................... 6

Um pouco sobre alguns conceitos............ 8

Educação Especial...................... 9

Escola de Ensino Médio Para Surdos Professora Lília Mazeron........... 10

Entrevista....................... 11

Depoimento de Professora da APAE.......... 15

E a inclusão?...................... 16

Considerações Finais....................... 17

Referências Bibliográficas.................. 17


INTRODUÇÃO

O assunto de que trata a Educação Especial e a Inclusão é de grande interesse a nós. Como alunas de Licenciatura, conhecer as diferentes realidades das práticas escolares torna-se fundamental para a construção de nossa identidade docente. Não nos é possível abarcar neste trabalho todas essas realidades, pois convimos de que não há formas estabelecidas e fechadas quando se trata do tema Educação. Dada a heterogeneidade também do processo ensino-aprendizagem, focalizaremos neste trabalho, assuntos concernentes à Educação Especial e à chamada Inclusão.


UM CASO ESPECIAL

Para iniciar, apresentaremos a fala do pai de uma menina que é portadora da Síndrome de Asperger. No seu depoimento 1, podemos perceber o que ele, enquanto pai teve de enfrentar para conseguir que sua filha tivesse uma educação efetiva e de qualidade.


RELATO

A Ludmila é filha muito amada. Planejamos sua vinda quando tínhamos respectivamente 32 anos de idade. Já maduros e conscientes da imensa responsabilidade que é ter filhos. Ao confirmar-se a gravidez de Luciane em meados de 1995, naturalmente tomamos todo o tipo de cuidados para que nosso bebê viesse com saúde, fizemos todo o acompanhamento chamado pré-natal, Lu alimentava-se regularmente consumindo alimentos saudáveis, muita proteína, inclusive com orientações de nutricionistas. Ingeriu durante a gravidez apenas água e sucos, excluindo qualquer tipo de refrigerantes ou bebidas alcoólicas, enfim, fizemos planos diversos, infindáveis. Imaginávamos que o nascimento da Ludi seria como uma verdadeira viagem à Roma, terra de nossos ancestrais. No entanto, quando ela atingiu em torno de dois a três anos de idade, tivemos a certeza de que havíamos tomado o vôo errado. Havíamos desembarcado na Holanda. Ficamos completamente desorientados.

Ela era uma criança diferente das demais. Dentre tantas diferenças e apenas para exemplificar alguns acontecimentos, lembro-me que demorou a caminhar, o que fez somente com 1,6 meses de idade, ainda assim andava (e ainda anda) de um jeito mecânico, robótico, desajeitado, caindo constantemente. Não conseguia, nem consegue agarrar uma bola ou fazer nada atlético. Quando bastante garotinha não compreendia pequenas ordens, tipo “junte os brinquedos”, “pegue a colher”. Insistíamos permanentemente para que olhasse nos nossos olhos quando tentávamos conversar com ela. Referia-se a ela própria na 3ª pessoa (“a Ludi vai passear”, “a menininha quer comer”, “a Ludi quer isso”, “a menininha quer mamãe”, “a Ludi quer papai”).

Confundia as próprias roupas e os calçados que vestia como se fossem objetos que faziam parte de seu corpo. Na hora do banho ou no momento de levá-la para cama, quase entrava em surto para tirar o tênis, pois dizia que era o pé da menininha; a camiseta, o abrigo, o pijama eram sua pele. Gritava desesperadamente para não arrancarem sua pele. Muitas vezes dormia de roupa, que tirávamos somente após ter adormecido.

Seu período de sono nos primeiros anos era muito pequeno, raramente adormecia antes das 23h ou 24h e 5h ou 6h da manhã já estava completamente desperta, o que nos deixava absolutamente exaustos, considerando que tínhamos nossas atividades profissionais. No mesmo segmento, ora Ludmila era encontrada olhando fixamente nos espelhos, ora absolutamente silenciosa em um canto escuro de um quarto, ou da sala. Perguntávamos-lhe uma coisa, ela respondia outra totalmente aleatória sempre olhando para outra direção, normalmente desviando o olhar. Gostava de ficar girando em torno dela mesma, falando “gira-gira”.

Já a partir dos primeiros sinais estranhos tínhamos procurado médicos especialistas. A primeira neurologista disse à Luciane que a “louca” era a própria mãe, que a Ludmila não tinha nada e que os pais é que deveriam tratar-se. A segunda profissional limitou-se a fazer um teste de QI e disse que Ludmila era retardada mental. A terceira, neurologista famosa e que cobrava já em 1998/99 R$ 300,00 a consulta em Porto Alegre, apenas encaminhou para um teste caríssimo de ressonância magnética computadorizada no Hospital Mãe de Deus. Enfiaram nossa filha numa espécie de cilindro e fizeram-lhe todos os exames com dezenas/centenas de imagens de seu cérebro, onde ficou apurado que Ludmila não tinha nenhum problema de ordem neurológica. Era neurologicamente perfeita. Todavia, nossas observações, nossas conclusões a respeito do desenvolvimento de nossa filha, levavam-nos a outras direções.

Iniciamos por conta própria algumas pesquisas na internet, a partir de nossas próprias vivências e chegamos à conclusão de que Ludmila era portadora de algum transtorno no desenvolvimento (eu sempre fui um advogado muito curioso e Luciane formada em Educação Física, com pesquisas na área de psicomotricidade.).

Outro profissional um médico psiquiatra, Dr. Jéferson Barcellos, após várias consultas concordou que Ludmila tinha TGD (transtorno geral no desenvolvimento). Depois, emitiu o diagnóstico de autismo, destacando tratar-se de uma autista “atípica” ou de alto rendimento, isso em fins de 1998 - meados de 1999.

Imagine você nosso desespero. Todos os nossos planos e sonhos pareciam ter ido por “água abaixo”. (Não restava qualquer dúvida de que nossa viagem planejada para Roma, a essa altura, tinha acabado. Precisávamos alterar o roteiro. Conhecer a Holanda, terra sobre a qual não tínhamos o menor conhecimento.).

Gastamos o que tínhamos e o que não tínhamos. Vendemos carro, terrenos, apartamento, fizemos empréstimos, tudo para investir exclusivamente em nossa filha. Não nos arrependemos em nenhum instante. Psicoterapeutas, psiquiatras, psicólogas, neurologistas, equitação, equoaterapia, hidroterapia, musico terapia, balé, teatro, orações, convenções, grupos de pais e amigos de autistas, AMA de São Paulo, participação em teses de doutoramento em psicologia na UFRGS, discussões, debates, enfim, tudo o que esteve ao nosso alcance fizemos para o bem-estar e o desenvolvimento de Ludmila.

Ao mesmo tempo em que percebíamos pequenos progressos em Ludmila, conseguimos perceber que a Holanda também era um país muito bonito, nas suas montanhas, suas flores, seus moinhos de vento; que Ludmila era linda, inteligente, simpática, educada, uma criatura doce, terna, gentil e que a garota que um dia tínhamos planejado, tanto quanto a viagem à Roma não tinha acontecido. Veio outra pessoa não planejada, uma pessoa que não esperávamos, tínhamos sido surpreendidos, mas aceitado, desde o início as novas circunstâncias em relação a nossa filha, desfrutando com ela, de todos os momentos, locais, passeios, restaurantes, e de todos os lugares públicos, sem vergonha de seu comportamento muitas vezes estranho e desajeitado.

Convivíamos com olhares de surpresa de algumas pessoas nas praças, da cara de espanto ou de olhares e palavras cruéis de outras crianças nas festinhas de aniversário, dos olhares irônicos de pais arrogantes e preconceituosos em reuniões escolares, de palavras duras. Diziam: “essa menina não tem condições de andar ou guiar um cavalo”, “essa menina é muito burra”, “essa menina é da turma dos loucos”, “deixa ela de lado, não sabe pegar uma bola”, “não sabe brincar de nada”, “a gente pergunta uma coisa ela responde outra”, “o que é que ela tem mesmo?”. Houve deboches, riso cruel, era como se não fossem pessoas, fossem verdadeiros morcegos, absolutamente incomodados com a luz. Irradiada por nossa menina.

Mas também e muito freqüentemente nos deparávamos com olhares alegres, de pessoas que por alguma razão demonstravam mais sensibilidade, maior interesse, coisas em comum. E aí passamos a perceber que Ludmila chamava atenção pelo seu desenvolvimento intenso. Já conseguia interagir melhor. Aprendera por sua conta a fornecer respostas mais coerentes a algumas perguntas. Embora seu diálogo fosse (e ainda continue sendo) bastante limitado, com seu próprio esforço consegue defender-se, proteger-se de muitas dessas agressões psicológicas.

Talvez sua mais bem articulada defesa nas ocasiões em que é observada com estranhamento ou questionada do POR QUÊ faz isso ou aquilo, seja a resposta que dá com uma outra pergunta: “ Não sabe que sou autista? Não sabe. Autista conversa com ele mesmo, com as paredes, vive no mundo da lua. Qual é teu time? Eu sou do Inter e quero ser cantora e bailarina”.

Atualmente Ludmila Quadros Dalabilia tem 12 anos e após freqüentar escola pública de currículo normal, escola privada de currículo normal, escola pública com classe de turma especial, freqüenta há quase dois anos a CAP-CRIATIVA, uma escola privada-especial localizada na Rua Vasco da Gama, nº 583, em Porto Alegre-RS. Ali aprendeu a conhecer todas as letras do alfabeto, consegue ler sozinha várias palavras escritas, desde que escritas em letras maiúsculas, tudo a partir de muito esforço (há claros sinais de dislexia). Relaciona-se muito bem com os professores, recebe telefonema e visita de alguns colegas (amigos como ela diz).

Sempre procuramos elevar a auto-estima de nossa filha. Nesse aspecto, constatamos que nessa escola, na maior parte do tempo ela sente-se bem. Talvez pela variedade de casos assemelhados ao seu. Incrivelmente ela percebe as diferenças. Compreende que há crianças bem mais comprometidas intelectualmente que ela e faz referencias à isso.

Notamos que sente-se muitas vezes depressiva , chegando ao ponto de manifestar com lágrimas seu estado emocional, ao relatar acontecimento com alguns colegas que não conseguem controlar direito os esfíncteres. Identifica entre os próprios colegas alguns como sendo preconceituosos, outros malvados, outros amigos/amigas e demonstra estar apaixonada por um garoto da Kombi-escolar freqüentador de outra escola.

Ludmila, de inicio tomou vários medicamentos, Risperidona, Ritalina, entre outros, até que o psiquiatra com quem ela mais teve afinidades, Dr. Cristiam, passou a reduzi-los, eliminando completamente todos os medicamentos há aproximadamente 4 anos.

Paradoxalmente, embora tenhamos envidado todos os nossos esforços para o bem-estar de Ludmila, proporcionando-lhe tudo o que esta ao nosso alcance, melhores escolas, Unimed, amor incondicional, para que ela fosse e continue sento feliz, acabamos nos descuidando de nós mesmos. Luciane e eu, embora mantenhamos um bom relacionamento não vivemos mais juntos, separamo-nos legalmente, inclusive com o estabelecimento da “guarda compartilhada” em meados de 2004.

Ludmila Quadros Dalabilia é uma Asperger (tipo de autismo). Os portadores da Síndrome de Asperger quase nunca mostram corretamente suas emoções. Sessenta anos atrás, o psiquiatra austríaco Hans Asperger escreveu sobre crianças que apresentavam uma série de comportamentos comuns em pessoas com autismo, como deficiências marcantes no relacionamento social e na habilidade de comunicação. Em 1981 essa condição foi chamada de Síndrome de Asperger. Em 1984, foi incluída na Classificação Internacional de Doenças (CID. 10), pela OMS, manual utilizado pelos profissionais da saúde mental. A síndrome está classificada sob o registro número F 84.5. Houve um tempo em que os psiquiatras diagnosticavam os Aspergers como depressivos, esquizofrênicos ou sofrendo de muitas outras doenças mentais. A Síndrome de Asperger não é tão prejudicial assim e pode até conceder alguns dons raros. Alguns Aspergers têm extraordinária aptidão para compreender problemas complexos e podem se tornar brilhantes engenheiros ou cientistas. Outros parecem possuir dons musicais sobrenaturais. MAS NÃO NOS DEIXAMOS ENGANAR, Ludmila, como a grande maioria das crianças com Asperger (autistas atípicos) não se tornam grandes professores ou cientistas excepcionais.

Não existe cura, nem é preciso. Há, no entanto, a necessidade de conhecimento e de adaptação por parte das crianças com Síndrome de Asperger, de suas famílias e de seus amigos, dos profissionais da área de saúde, e da sociedade num todo. Pois crescer é muito difícil! Com certeza é este um solitário e doloroso caminho. Sobretudo para nossa LUDI e tantas outras crianças que como ela, não são “doentes”, nem “loucos”, mas que têm sua própria maneira de ser.

Orgulhamo-nos da valentia de nossa filha. Temos certeza de que ela é feliz!


QUESTIONÁRIO

1. No primeiro momento que você procurou uma instituição regular de ensino para matricular sua filha, existiram obstáculos? Se sim, quais? Por quem foram impostos?

Sim, foi na escola pública Medianeira em Porto Alegre. Ao serem informados do diagnóstico disseram que não estavam preparados para isso, provavelmente a criança não conseguiria acompanhar o ritmo das outras crianças. Entretanto como não poderiam negar a matrícula, Ludmila foi aceita. As observações foram feitas pela diretora da Escola. No decorrer do ano, uma professora de nome Cleonice foi muito atenciosa, mas apesar de todos os seus esforços o aproveitamento escolar foi nulo.

2. Como pai, quais os benefícios e prejuízos de uma criança que freqüenta apenas escolas de Educação Especial?

Benefícios: Há certamente menos preconceito, algumas pessoas ou professores são mais experientes no trato dessas crianças. Não há uma exigência curricular específica. Prejuízos: Em algumas situações certos professores buscam dar maior atenção para aquelas crianças com maior dificuldade, ignorando, de certa forma, aqueles que atingiram um certo patamar, um nível melhor em relação à outros. Isto é, buscam nivelar todos. Ex. A Ludmila, o Guilherme, A Janaína são normais se comparados em relação a outros colegas com maiores dificuldades.

3. Quais os benefícios e prejuízos de uma criança com necessidades especiais ao freqüentar uma escola regular?

Não vejo benefício algum de uma criança com necessidades especiais freqüentar uma escola regular. São crianças diferentes que no aspecto educacional não podem ser tratadas com os mesmos critérios aplicados aos demais alunos. Há que se tratar com desigualdade os desiguais, na medida em que se desigualam.

4. No meio escolar, qual foi a situação em que o preconceito por parte dos professores/alunos, ficou mais evidente? Se possível, procure relatar em detalhes.

Talvez tenha sido na Escola Privada “Descobrindo a Vida”, quando uma mãe de aluno reclamou que Ludmila estava atrapalhando, prejudicando o desenvolvimento de seu filho já que a professora perdia muito tempo lhe explicando coisas simples. Por outro lado, na Escola Pública “Evaristo Flores da Cunha” a Ludmila e outros vários alunos (12 à 15 crianças) ocupavam um espaço/sala/casa apartado do prédio principal e os outros alunos da escola referiam-se à sala dos loucos, à casa dos loucos, à turma dos loucos. Isso fazia com que todos tivessem medo de sair para o recreio, alguns meninos ainda reagiam, outros como a Ludmila acabavam sendo agredidos e não sabiam reagir.

5. Dentre as escolas regulares que visitou com o objetivo de matricular sua filha, qual a proporção entre instituições privadas e públicas?

Foram várias escolas visitadas, tanto públicas quanto privadas. Em muitas ficavam evidentes o constrangimento e o desinteresse da diretora ou proprietária em ter Ludmila como aluna.

6. Em qual delas sentiu-se acolhido e bem-vindo? E sua filha? Se possível, procure justificar a resposta.

Na Escola Evaristo Flores da Cunha, a professora Maria Eduarda era realmente muito dedicada. Tinha um currículo excelente e as crianças adoravam-na. Lamentava não ter estrutura e mais auxilio na educação de seus alunos “especiais”. Ludmila nunca teve qualquer queixa dessa professora. Na CAP-CRIATIVA, também fomos muito bem recebidos por diretora e vice-diretora, uma jovem psicopedagoga e uma veterana professora primária. Ludmila sente-se muito bem nessa escola. Diz que não quer sair nunca de lá. Há encontro mensal dos pais dos alunos, interação social, acompanhamento de psiquiatras, psicólogos, musicoterapeutas etc.

7. Hoje, depois de muitas experiências com relação à inclusão escolar, você como cidadão, acredita que essa reforma do sistema educacional pode ocorrer na prática e em todos os sentidos? No seu ponto de vista, quais as providências mais urgentes a serem tomadas para isso? Em sua opinião, quem são os principais responsáveis por esta reforma?

8. Quanto a Educação Especial, qual sua percepção? Se pudesse citar mudanças para que contribuir ainda mais com o desenvolvimento dos alunos, quais seriam? Quais as principais dificuldades deste sistema de educação?

Não pretendo ser pessimista, mas realista. Na prática, tão cedo, não acontecerão mudanças relevantes. Não estamos preparados para isso, há muito pouco tempo as pessoas com deficiência eram institucionalizadas em clinicas e hospícios, ou fechadas em casa, acorrentadas, abandonadas a viver uma vida sem nenhuma esperança. Têm ocorrido algumas mudanças a partir da boa vontade de algumas ONGs ou de pais envolvidos com a situação. O Estado de um modo geral se interessa muito pouco. Afinal louco não vota. Alguns políticos tratam do tema para parecerem politicamente corretos. Raros realmente têm boa vontade. Os profissionais que pretendam trabalhar com crianças especiais ou deficientes devem primeiramente ser vocacionados. Depois há que se oportunizar que esses profissionais/professores que desejam trabalhar com crianças especiais ou deficientes sejam bem remunerados para que possam especializar-se, fazer cursos, estudar realmente o comportamento humano. Tudo, entretanto, gira em torno do aspecto financeiro. Os principais responsáveis por esta reforma acabarão sendo todos aqueles que de um jeito ou de outro mantém alguma ligação fraterna com os considerados diferentes, até que o Estado brasileiro realmente passe a investir no tratamento dessas pessoas.

9. Hoje, por suas experiências, você pode dizer que existe Inclusão Escolar? Por quê?

Não acredito na Inclusão Escolar, sobretudo pelo que foi exposto anteriormente. As escolas públicas e particulares não têm estrutura, nem professores capacitados para tratar pacientemente dessas crianças.

10. Suas considerações finais?

Somente o amor incondicional dos pais, amigos, aliado a uma busca incessante de conhecimento através de especializações, pesquisa, de leituras de artigos simples, técnicos e preparação científica sobre as mais variadas condições das crianças especiais pelos professores e profissionais da área de saúde poderá provocar mudanças nesse sentido. O resto é procura, é esperança, é sonho. SOU UM HOMEM DE SORTE. SOU PAI DA LUDMILA.

LORENI DOMINGOS DALABILIA - 44 ANOS DE IDADE.


UM POUCO SOBRE ALGUNS CONCEITOS

Como pudemos perceber do relato do Sr. Loreni, há dificuldades e muitos desafios no tratamento às crianças com necessidades educativas especiais. O desconhecimento que a sociedade e, também, a escola tem da especificidade e necessidade mais acentuada que certas pessoas apresentam, dificulta a inclusão delas no meio social.

Buscamos algumas referências aos conceitos que envolvem a discussão sobre o assunto. Tomamos por base alguns textos de Lígia Assumpção Amaral (1998)2, que explicitam bem alguns conceitos.

Os conceitos, e também a definição do termo deficiência, passam por dimensões descritivas e por dimensões valorativas, além de serem historicamente datados. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), há dois níveis de deficiência: a primária e a secundária. No primeiro nível está enquadrada a deficiência (impairment) em si, com enfoque orgânico, definida em termos da perda ou anormalidade de algum órgão. Também está a incapacidade (disability), que se refere à restrição de atividades individual, da pessoa. No segundo nível, está a desvantagem (handicap), que é a condição social de prejuízo, ocorrente na interação pessoa-meio. Assim, podemos inferir que a escola deva priorizar o atendimento à deficiência secundária, levando em conta os aspectos relativos, extrínsecos, e não ao sujeito tão somente.

Por anormalidade, entendemos ser a expressão da diversidade da natureza e da condição humana. O anormal diz respeito a aspectos universais e totalizantes, e é posto em confronto a uma normalização, vigente por padrões. Questionando-se esses padrões, podemos pensar no quê caracteriza uma diferença física. Ser obeso, magricela, muito alto, muito baixo, negro, usar óculos, ser surdo, cego, paraplégico? Tudo isso se resume a processos de diferenciação: o lugar de cada um individualmente. A partir deste lugar, origina-se a diversidade: a expressão das diferentes possibilidades de características dos seres humanos.

Uma diferença significativa pressupõe três critérios: 1) estatístico – relativo à moda e à média; 2) de caráter – diz respeito à forma, funcionamento; 3) de cunho psicossocial – caracterizado pelo tipo “ideal” (criança de idade “compatível” com a seriação escolar, branca, cristã, sem sexualidade, física e mentalmente perfeita, produtiva na capacidade de acompanhar veloz e acriticamente “saberes e fazeres” apresentados, de comportamento exemplar, descansada, vestida, calçada, alimentada, de nariz limpo, pertencente a uma família “bem estruturada” e que mora em casa tradicionalmente construída, “decentemente” localizada).

Daí surgem os estigmas, referentes ao corpo, de opções comportamentais, ou de inserção. As atitudes frente às diferenças significativas, vão desde o extermínio, à culpabilização da vítima, passando pela marginalização, o assistencialismo de cunho paternalista, por uma generalização indevida, ou até mesmo a idéia de um contágio osmótico. Tudo isso são barreiras atitudinais, que levam ao preconceito, um filtro de nossa percepção, uma predisposição perceptual.

A concretização ou personificação dos preconceitos cria o que chamamos de estereótipo. Por exemplo, o deficiente físico é visto como o “revoltado” ou o “gênio intelectual”; o cego, o “cordato”, o “sensível”, ou o “gênio musical”; o surdo é o “isolado”, o “impaciente”, ou o “mudinho”; o portador da Síndrome de Down é a “meiguice personificada”, e assim por diante.

Precisamos mudar nossa forma de olhar para a diferença. E a partir desse olhar, desmistificar certos sentimentos, e aprender a lidar com eles, e não fingir que somos tolerantes às diferenças.


EDUCAÇÃO ESPECIAL

Para ilustrarmos o que se passa no âmbito da Educação Especial, visitamos uma escola destinada para surdos. Entrevistamos a diretora da escola, e pudemos visualizar melhor como se dá o processo ensino-aprendizagem com os alunos surdos. A educação de surdos difere em muito da educação regular e também da chamada educação inclusiva, onde alunos com alguma deficiência (física ou mental) participam de turmas regulares de ensino. Vejamos através da fala da diretora.


ESCOLA DE ENSINO MÉDIO PARA SURDOS PROFESSORA LÍLIA MAZERON 3

A Escola de Ensino Médio para Surdos Professora Lília Mazeron, fundada em 13 de maio de 1988, é uma das Escolas vinculadas à Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas Portadoras de Deficiência e Pessoas Portadoras de Altas Habilidades no Rio Grande do Sul (FADERS). Atualmente, a escola possui cento e dezessete (117) alunos. No entanto, com a implantação do Ensino Médio, estima-se que esse número venha a ser duplicado nos três (03) anos subseqüentes. O currículo é desenvolvido de forma a atender especificidades da comunidade surda, promovendo o desenvolvimento e a construção de sua identidade através da história dos surdos, arte e LIBRAS.


ORGANIZAÇÃO


Educação Infantil – Jardim B; Ensino Fundamental: séries iniciais e finais, de acordo com as bases curriculares; Ensino Médio – primeiras turmas no ano de 2007.


A escola tem como proposta pedagógica atender o aspecto sócio-político-cultural-educacional em uma educação libertadora e humanística. Fundamenta-se na pedagogia da diferença, entendendo educando e educador como sujeitos ativos que agem de maneira transformadora e criativa. Os professores são especialistas em educação de surdos e os profissionais que atuam na escola são proficientes em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), respeitando a cultura de nossos alunos, professores e servidores surdos. A escola dispõe de atendimentos complementares, que compreendem: psicologia, orientação escolar, supervisão pedagógica, serviço viso-gestual; biblioteca e atividades extra-curriculares.

Endereço: Rua Morretes, 222 - Bairro Santa Maria Goretti - Porto Alegre/RS CEP: 91.030-300 - Telefone/Fax: (51) 3341 9498


ENTREVISTA 4

Entrevistado(a):

Formação: Magistério, graduada em Educação Física, Pós Graduada em Educação de Excepcionais (na época era esse o nome dado à Educação Especial), e fez um curso de um ano no INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos) no Rio de Janeiro, destinado à formação específica de professores de surdos.

Função na Escola: Atualmente ocupa o cargo de Diretora.

Há quanto tempo trabalha na área de Educação Especial: 26 anos.

1 - Sendo a Escola preparada para educar pessoas surdas, porque o nome da escola é Escola de Ensino Médio para Surdos Professora Lília Mazeron, quais as especificidades da comunidade surda são atendidas nesse tipo de educação?

Ana: Basicamente, o diferencial é a língua. A escola trabalha como primeira língua a Língua de Sinais. E depois, a forma de avaliação, que é diferente principalmente na disciplina de Língua Portuguesa. Mas de mais específico é a língua. Claro que isso envolve muitas outras coisas também, como por exemplo, a cultura deles.

2 - Quantos alunos têm na Escola, qual o perfil desse aluno?

Ana: Bom, para ser aluno da Escola Lília Mazeron, a primeira coisa é ser surdo, né, independente do grau de surdez (leve, médio ou profundo), mas que ele seja preferencialmente surdo profundo, que tenha a Libras como língua materna, e tenha a cultura surda, se aceite como surdo. Mas a família pode escolher, nós temos, por exemplo, aqui crianças com surdez leve, que sabem falar, e se tu fala elas até te ouvem, mas é uma opção da família matriculá-las aqui.

3 – Então há um diálogo bem grande entre a escola e a família?

Ana: Com certeza, é uma opção da família colocar o aluno aqui. A gente já conversou que ela (a criança com surdez leve) podia estar em uma escola regular, né, numa escola de ouvintes, digamos assim, mas numa escola regular ela ficaria um pouco pra trás. Ela até ouve se tu fala diretamente com ela, mas numa sala com trinta (alunos) ela sai perdendo. Enquanto aqui ela é mais bem atendida, a necessidade dela é melhor atendida.

4 – Aqui na escola vocês tem alunos de toda a Porto Alegre?

Ana: De Porto Alegre, grande Porto Alegre, Gravataí, tem de Cachoeirinha, Alvorada.

5 – E hoje tem quantos alunos na Escola?

Ana: Hoje está com cento e vinte e nove.

6 – Até pouco tempo a Escola tinha só o Ensino Fundamental, não?

Ana: O Ensino Médio foi autorizado no ano passado, em 2006. Em 2007 começou a primeira turma. Uma turma de primeiro ano. Na verdade, duas turmas de primeiro ano. Hoje temos duas de segundo e uma de primeiro. Como é a única escola em Porto Alegre que tem Ensino Médio, gratuito, tinham muitos (surdos) que estavam esperando. Então, tem alunos que estavam esperando, tem outros que estavam em outra escola, os outros que fizeram só até a oitava série também, então esses são os que vieram em peso.

7 – E como se dá o ingresso do aluno aqui na Escola?

Ana: É se tem vaga na série.

8 – Quantos alunos tem por turma?

Ana: Aí varia. De primeira à quarta série é até 8 alunos. De quinta até oitava pode ser no máximo 10. De 10 à 12. E no ensino médio pode ser no máximo 15. Isso porque, apesar de ser (a aula) na língua deles, requer uma atenção maior, uma coisa mais tet-à-tet. Esse limite é posto pela lei para o Ensino Fundamental, mas pro ensino Médio ainda não tem uma Lei, é uma estipulação nossa, né, porque mais do que 15 (alunos) fica difícil de atender, baixa a qualidade.

9 - Qual o perfil do professor de surdos da Escola?

Ana: Temos professores ouvintes, temos professores surdos, todos sabem Libras, o comum entre eles é que todos utilizam a Língua de Sinais. No Ensino Médio é que nós temos muitas disciplinas, né, por ser novo o curso, que não tem ainda professores formados e que sabem Língua de Sinais, por exemplo, em Química e Física nós temos uma dificuldade enorme (de achar professor capacitado), então nós admitimos professor que não sabe a Língua de Sinais. Nessas disciplinas daí nós temos interprete na aula, junto com o professor.

10 – Então essa é uma demanda que tem, professores da área mais das Exatas?

Ana: Sim, inclusive atualmente nós estamos precisando de 3 professores, química, física e matemática. Matemática nós tínhamos, mas ele se aposentou.

11 - Como funcionam os atendimentos complementares disponíveis?

Ana: Bom, os setores que temos são, nós temos o SOE, né, como qualquer escola, tem a Seção Pedagógica, tem a Biblioteca, serviço de Psicologia Escolar, Laboratório de Informática, é são essas.

12 - Quais as atividades extra-curriculares oferecidas aos alunos?

Ana: Bem, essas atividades são atividades fora da escola. Fora da escola, eu digo assim, vamos supor que estão estudando meio ambiente, e tal, daí eles tem uma aula que é uma visita ao Lixão, ao Parque. Isso se dá porque os alunos são extremamente visuais, não é só colocar o conteúdo no quadro, não, o recurso visual é extremamente importante. Não só ir até um local, mas também gravura, data show, retro projetor, etc. Materiais, coisainhas, com os pequenininhos, né.

13 – E quanto às atividades curriculares, quais as disciplinas que a escola oferece?

Ana: Como qualquer outra escola. Português, Matemática, História, Geografia, tudo.

14 – E quanto à disciplina de Português, a única coisa que difere de uma outra escola é a forma de avaliação?

Ana: Sim. É que é assim: a estrutura da Língua de Sinais é diferente da Língua Portuguesa. A língua portuguesa é uma língua oral-auditiva, e a língua de sinais é visual, espacial. Então, para o surdo aprender a Língua Portuguesa como ela é, é realmente muito difícil. Então se tu vai ver a escrita de um surdo tu vai ver que ela não é exatamente igual à nossa, né, é mais ou menos como na estrutura da língua deles. É claro que a gente entende, mas é com uma estrutura diferente. A língua deles não tem o gênero, por exemplo, eles usam, por exemplo, cavalo+homem, para cavalo e cavalo+mulher, para égua. O verbo também, eles não conjugam, é tudo no infinitivo, por exemplo, além da estrutura mesmo, né, “eu gosto muito de cavalo” eles não dizem, né, eles fazem “cavalo amar muito”. Pra eles o português é muito difícil. Então quando a gente vai avaliar, a gente considera isso, a gente lê o texto dele, da forma como ele escreveu. É muito mais o que ele quis comunicar. Por exemplo, eu vou contar uma história, e eles vão escrever a história que eu contei, e eu vou ver se eles, através do que escreveram, conseguiram entender a história. Se bem que de fato avaliar o português deles é bem diferente. Se bem que esta é uma discussão que a gente faz muito aqui na escola, que tem sido feita muito, porque passa por todas as disciplinas, não só o português. Então a gente tem reavaliado a avaliação.

15 – E as provas são provas escritas?

Ana: Sim, são provas escritas, mas nós estamos começando a aplicar prova em língua de sinais, né. Pra avaliar o conhecimento mesmo que eles adquiriram. Porque as vezes o aluno erra, não porque não aprendeu o conteúdo, mas porque não entendeu o que a questão está pedindo, não entendeu o português.

16 – Os alunos são avaliados por conceitos, por notas? Eles reprovam?

Ana: Sim, sim, são avaliados com conceitos, eles rodam também, rodam sim. Até a quarta série é por nota, parecer descritivo. E daí em diante é por conceitos.

17 – Bom, ainda não tem uma turma que concluiu o Ensino Médio, né, então assim, quantos concluem o E.F.? Como é que acontece isso?

Ana: Sim, sim, a maioria se forma, e até o ano passado eles se formavam na oitava série e iam procurar outra escola, né, particular, para fazer o ensino médio.

18 – E tem aluno que conclui o E.F. e não prossegue nos estudos, não quer continuar estudando?

Ana: Não, normalmente eles continuam, a não ser é claro, tem alunos que tem outras dificuldades, que não só a surdez, daí esses sim, as vezes param, ou são encaminhados pro mercado de trabalho.

19 – E a escola tem esse serviço de encaminhamento para o mercado de trabalho?

Ana: Sim, esse é uma das atividades da Psicologia Escolar. Trabalha com o aluno e depois o encaminha para o estágio em empresas, depois para o trabalho. Os que estão trabalhando estão todos em lojas, ou indústrias, na Paquetá, geralmente em tarefas que não envolvem contato com a clientela diretamente. Mas muitos já trabalham, por exemplo, na FADERS, como recepcionista, na área da Informática.

20 - Como você caracteriza a Educação Especial? Até porque o nome da Escola, não é Escola Especial...? Apesar de sabermos que requer um atendimento especializado?

Ana: É. Isso até é porque o surdo, ele é surdo. Ele não se considera em portador de necessidades especiais, ele não gosta que chamem ele de deficiente, ou de especial, né, então por isso não tem no nome da Escola. Mas eu acho que a educação especial é necessária, né, eu vejo que é necessária uma escola própria para eles por causa do canal de comunicação deles. Que sem a comunicação, nada vai acontecer. E na escola regular, o tipo que temos hoje, nós sabemos que a inclusão não funciona, porque os professores não estão preparados. O professor da escola regular vai receber um aluno surdo e vai fazer o que com ele? Vai ter 30 alunos na sala, e mais o surdo, ele não vi poder atender o aluno surdo, não existe intérprete disponível. E eu na minha visão não vejo o intérprete como a solução no ensino regular, pelo menos não na educação básica. A explicação, a atenção, o tempo de entendimento daquele aluno é diferente. Porque aqui a nossa didática é diferente, ela é mais voltada para o visual, né, inclusive nas séries iniciais, né, nas outras matérias também, não é só colocar no quadro, explicar, e o aluno entendeu, não! Tem uma série de coisas que uma escola regular não vai se dar o trabalho de preparar. Então, quando me disserem, tem a professora, e tem uma outra professora intérprete de sinais, que o curso está funcionando direitinho, que o aluno está bem atendido, daí... Mas isso requer uma logística, e recursos, dinheiro que não vai existir, a precariedade que está a educação, não vai existir... Nós já tivemos essa experiência há uns anos atrás, ainda não se chamava inclusão, era integração, nós não éramos escola ainda, o aluno vinha aqui pro Centro (de Atendimento Especializado), nós preparávamos esse aluno para ir pra escola regular, ele ia pra escola regular, e daí um tempo esse aluno voltava, ele não conseguia! Porque não tinha estrutura necessária. E isso que ele voltava no contra turno da escola regular pro Centro, e mesmo assim não adiantava. A gente via que não dava certo. Com mental eu não sei, eu não posso dizer porque não tenho experiência, mas eu acho que também não dá, pelo menos nas séries iniciais, da primeira à quarta. Claro que a integração, a inclusão social, o convívio é importantíssimo, e a gente sabe que os dois vão ganhar, mas a parte pedagógica, a parte da aprendizagem vai ficar defasada.

21 – Em Porto Alegre tu sabes me dizer quantas escolas há para surdos?

Ana: Tem o Concórdia, que é particular, o Frei Pacífico, que também é particular, e um escola nova agora que a Prefeitura abriu faz pouco, municipal. É, são essas quatro.

22 – Vocês atendem só crianças e adolescentes?

Ana: A nossa idade mínima pra ingresso é 6 anos. E não tem idade máxima pra sair... nós temos no Ensino Médio aluno com 30 anos. Alguns porque terminaram o E.F. e não tinham condições de pagar o E.M. e ficaram esperando abrir E.M. aqui.

23 – Isso deve ter envolvido uma luta muito grande.

Ana: Bah, muito grande, tanto da comunidade surda, quanto de profissionais que atuam na área. Nós somos Escola desde 1998, e só agora conseguimos E.M.

24 - Poderias relatar a nós um dia típico na Escola/na sua aula/ atividade?

Ana: Bem, eu não tenho nenhum fato específico para contar assim, de uma aula. O mais gratificante pra mim é ver o aluno quando chega aqui na escola, muitas vezes rotulado como o “atrapalhado”, “problemático”, e em uma semana ele aprende a língua, naturalmente, ganha um sinal,vai construindo a identidade dele, porque até então ele não tem um nome, ele não tem uma língua, ele não tem nada. E aos poucos ele vai construindo isso tudo. Ele constrói a sua identidade como surdo, ele ganha um sinal, conhece o dos colegas, em fim, então isso foi pra mim, assim, uma experiência muito bom, gratificante.

25 - De que forma nós, estudantes da Universidade Federal, futuros professores das mais diversas disciplinas, podemos nos mobilizar para promover a inclusão da comunidade surda em nossa sociedade?

Ana: Bom, o primeiro passo é aprender a língua de Sinais, né, e o segundo passo é aceitar o surdo com a sua língua, a sua cultura, e divulgar isso, na Universidade.



Como pudemos perceber, o caso dos surdos é bem específico. Todavia, a partir deste relato da diretora, podemos depreender alguns parâmetros que norteiam a Educação como um todo e a Especial também.

O compartilhamento de responsabilidades em situações de inclusão de crianças diferentes/ deficientes no contexto educacional requer: a construção de um projeto/ processo coletivo; a flexibilização da hierarquia rígida de saberes e fazeres; a sociabilização de medos e angústias; a problematização do conjunto de mitos e tabus sobre o assunto; a criação coletiva de formas de enfrentamento, entre outros.

Há que ter um desafio, “uma disputa em forma de diálogo improvisado no qual os atores se alternem na composição de ações que obriguem a uma resposta da parte contrária”, numa construção conjunta.

Sendo assim, o processo educativo, muito subjetivo e muito dinâmico, deve abarcar o processo bilateral da inclusão. Ao ensino (professores/ escola) cabem as estratégias e o provimento de recursos, para que do outro lado, no âmbito da aprendizagem, o aluno tenha capacidades para desenvolver seu conhecimento prévio. Há a necessidade de se conhecer o aluno. Seja qual for sua necessidade educacional. Como mais um exemplo de realidade escolar que requer atenção especial, temos o seguinte relato 5:


Depoimento - Professora da APAE de Venâncio Aires há 14 anos.

“Trabalho com a turma nível três A, na APAE de Venâncio Aires. As crianças têm entre 8 e 10 anos. O objetivo é trabalhar a alfabetização, como se fosse uma primeira série regular. O que difere é o tempo de aprofundamento com os alunos. Na minha turma tenho 8 alunos deficientes mentais. Destes, 5 tomam medicação para se acalmar e melhorar a concentração. Damos Ritalina para eles, mesmo quando as famílias não concordam. Alguns pais são contra qualquer medicação, por falta de dinheiro para comprar ou simplesmente por não acreditarem nos efeitos. No entanto, é notável a diferença quando os estudantes tomam ou não o remédio. A aula começa às 8 da manhã para mim, embora o horário seja 7h30. Em meia hora a Ritalina faz efeito e o clima fica adequado para começar qualquer atividade. Sobre a inclusão, é notável 2 tipos de alunos: os que têm possibilidade de seguir também com uma turma regular e os que precisam de um trabalho intensivo em uma escola especial. As maiores dificuldades no trabalho com portadores de necessidades especiais são: o controle da medicação e a agressividade das crianças. Exige muita paciência. É difícil, no entanto vale a pena. É gratificante ver a evolução dos alunos, o rostinho deles quando conseguem realizar uma atividade com muito esforço”.


E A INCLUSÃO?

Segundo a OMS, de 10 a 15% da população do Brasil tem algum tipo de deficiência. Deste percentual, apenas 2,1% é atendido na pela educação especial pública. 98% não chega à escola.

Num contexto integracionista, o sujeito se adapta à escola/ sociedade. Já a inclusão fomenta o contrário: a escola/ sociedade se adapta ao sujeito. Nesse sentido, a educação efetivamente seria para todos. Assim, uma escola inclusiva exige redefinições e uma outra estrutura. De acordo com Maura Corcini Lopes (2005)6, “a capacidade de problematizar as estruturas e de tirar as coisas do lugar para poder olhar de outra forma, é uma condição para que a escola possa trabalhar atenta para um número maior de pessoas – o que não significa dar conta de uma totalidade”.

A inclusão é um projeto da escola e não dos professores em particular. Em campanhas publicitárias que abordam a inclusão é recorrente a chamada do professor como aquele responsável por tal processo, praticamente isentando o Estado de prover as condições para tanto.

Incluir exige, principalmente, o integrar. Incluir, no sentido etimológico da palavra e não no sentido legal ou dicionarizado, significa colocar para dentro, enclausurar, colocar no mesmo espaço físico. A inclusão que reduz o processo de integração ao simples estar junto em um mesmo espaço físico ou que reduz o estar junto à socialização, é muito mais perversa que o seu outro, a exclusão: é uma inclusão excludente. A escola não pode ser reduzida ao seu papel de socializadora esquecendo-se da exigência do conhecimento e de outras funções que lhe cabe. Isso exige dos professores muito mais que amor, dedicação e vontade de fazer, exige conhecimento de áreas específicas e uma postura investigativa diante dos desafios.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pessoa com deficiência sabe o que a “marca” e terá que conviver com essa marca pelo resto da vida. Formamos uma identidade de nós mesmos através, também, dos olhares que nos são dirigidos. E não devemos nos acomodar numa atitude resignada. É necessário enfrentar isso e saber olhar, encarar as características que lhe são notadas. O que se tem para essa diferença é que deve ser positivo. Não olhar para a diferença com enfoque negativo.

Podemos pensar: que projetos estão sendo realizados para que a “inclusão” aconteça? Tais projetos prevêem as diferenças entre os sujeitos e as especificidades de sua cultura e aprendizagem? Que princípios pedagógicos estão sendo criados para balizar uma escola inclusiva que deve estar em permanente (des)construção?


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMARAL, Lígia Assumpção. Diferenças, estigma e preconceito: o desafio da inclusão. In: OLIVEIRA, Marta Khol de; REGO, Tereza Cristina; SOUZA, Denise Trento R. (orgs) Psicologia, educação e as temáticas da vida contemporânea. São Paulo: Moderna, 2002.

AMARAL, Lígia Assumpção. Sobre crocodilos e avestruzes: falando das diferenças físicas, preconceitos e sua superação. In: AQUINO, Júlio (org.) Diferenças e preconceitos na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1998.

AMARAL, Lígia Assumpção. Incluir pra quê? Temas de desenvolvimento. V.7, n. 39, p.52-55, 1998.

LOPES, Maura Corcini. Inclusão escolar: desarrumando a casa. Jornal NH – Suplemento NH na Escola, Novo Hamburgo (RS), p. 2-2, 12 nov. 2005.