O testemunho de Daniel Paul Schreber (1842-1911) em

Memórias de um Doente dos Nervos (1903)

Construção Hipertextual dos Alunos da Disciplina de Psicopatologia I - UFRGS 2007/01

 

Tornar-se Mulher de Deus: encontrar-se com o Pai?

O delírio primário de emasculação a princípio é motivo de grande injúria para Schreber, e tais idéias só podem ser externas a ele; num segundo momento tal delírio passa a ser aceito, mas por se tratar de uma grande causa: no momento em que Schreber passar a ter um corpo feminino, poderá ser a Mulher de Deus, e assim gerar uma raça de novos homens, todos possuidores e nascidos do espírito de Schreber.

A idéia de castração, presente na conflitiva edípica infantil, não se inscreve em Schreber: "A representação feminina, marcada pela ausência do pênis - que está no cerne da neurose e do desejo, foi rejeitada em bloco nesse caso" (Nasio, 2001). A função feminina não pôde ser elaborada de maneira neurótica, sendo assim, para Schreber, a feminilidade é uma transformação no plano do Real. Entretanto, Schreber parece tentar fazer uma espécie de "construção edipiana", mas dentro da estrutura psicótica: passando ao ato. O pai torna-se divino e a feminilidade tem de ser total, tornando-o mulher de Deus, prerrogativa essa que movimenta-se de fora para dentro dele: segue sendo uma forma de evitar a castração.

Os motivos que tornam a emasculação aceitável são racionais: justificam a criação de novos homens, uma humanidade real, diferente da que existia perto de Schreber, "feita às pressas", que se desfazia quando não mais em sua presença. Como se vê na psicose, quando esse processo de emasculação é aceito por Schreber, o culto da feminilidade é "inscrito em sua bandeira", independentemente do que possam pensar os outros - pois a ele não escapam as causas sobrenaturais: ele é quem tem certeza, suas concepções são indubitáveis.

A passagem para um segundo estágio nos delírios de Schreber, que poderia parecer um agravamento paranóico (sendo que há a transferência do perseguidor da figura de Flecshig para a figura divina), na verdade parece ser motivo de um certo apaziguamento. É mais fácil para Schreber aceitar que precisa tornar-se mulher para ser a esposa de Deus, gerar uma nova humanidade, por motivos superiores e externos, do que lidar com a conflitiva homossexual direcionada a Flecshig. O sentimento megalomaníaco que se instaura diante da certeza de vir a tornar-se mulher de Deus fortalece seu ego e o desejo de feminilizar-se passa a ser aceitável - e a procrastinação da resolução do conflito, na espera da emasculação completa, o protege.

Nesse momento secundário do delírio, no qual Schreber aceita resignadamente a idéia da emasculação, parece haver o início de uma melhora na sua organização psíquica. Visto que os motivos pelos quais ele tem de ser emasculado não são injuriantes - transformá-lo numa prostituta, abusar sexualmente de seu corpo e "deixá-lo largado" (expressão essa em que parece mais clara a idéia de que Schreber conta com abandono divino - reminiscência do paterno? - a qualquer instante) mas sim imperiosos, divinos, Schreber  se reconcilia com a idéia de ser transformado em mulher. Após essa reconciliação, Schreber se mostra menos delirante de modo geral, mas a semente primitiva de seu delírio, a própria idéia de emasculação, persiste. Ele passa a perceber que os homens aos seu redor não são "feitos às pressas", e se porta bem diante deles. Contudo, o mote principal de seu delírio, de que se tornará mulher, persiste.

Durante a ocorrência da leitura das Memórias de Schreber, pode-se supor que há transferência da figura paterna tanto para o Dr. Flecshig, que quer abusar do corpo de Schreber, quanto para Deus, que quer torná-lo Sua esposa. Com relação ao primeiro, pode-se observar o mecanismo de projeção, verificável na paranóia. Pode haver aí uma tentativa de Schreber num sentido de simbolizar os destinos do seu desejo - sua libido havia sido impulsionada num sentido homossexual, direcionada à Flecshig, o que não fora aceitável para ele, iniciando, aí, uma luta que dá origem aos sintomas. Com relação ao segundo, e a cessão de seu corpo aos raios divinos de volúpia, tão possível e resolutor do conflito para Schreber, parece a possibilidade de que ele, finalmente, encontre-se com seu pai, transferido aqui para a figura divina. Segundo Melman (2006), "A vinda terminal de Schreber para a posição de identificação imaginário em torno d'A Mulher garante-lhe a constante e consentida presença d'Esse pai (..)". Se tornando Mulher de Deus, Schreber se tornaria mulher de seu pai?

Por Natália dos Santos Pires

 

Referências

Melman, C. (2006) Retorno a Schreber.  Porto Alegre: CMC.
Nasio, J-D. (2001) Os grandes casos de Psicose: Um caso de S. Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Schreber, D. P. (1985) Memórias de um doente dos Nervos. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra.