A Perda da Identificação Primária na Esquizofrenia

From Wikipsicopato
Jump to: navigation, search

No início de seu desenvolvimento, o indivíduo apenas consegue perceber as sensações de forma fragmentada, não sendo capaz de ver seu corpo como um todo. Ele investe suas pulsões parciais, como a pulsão oral, em objetos parciais, como o seio. Essa fase Freud denominou como auto-erótica. O bebê passará então a integrar essas sensações com a ajuda de seus pais, que idealizarão uma imagem para seu filho com a qual ele possa se identificar e se ver como um ser inteiro. Esse processo é chamado de identificação primária, e é neste momento que se dá a formação do eu. Com seu eu formado, o indivíduo substitui o auto-erotismo pelo amor objetal. Sua libido então não é mais direcionada a objetos parciais, mas a objetos inteiros.

A identificação primária, quando acontece de maneira saudável, é caracterizada pela idealização, pelos pais, de um bebê cheio de qualidades. Os pais “se acham sob a compulsão de atribuir todas as perfeições ao filho — o que uma observação sóbria não permitiria — e de ocultar e esquecer todas as deficiências dele” (Freud, 1914). Assim os pais ajudam na formação do eu-ideal do bebê e na escolha do primeiro objeto unificado escolhido por ele: o próprio eu. Essa é a chamada fase narcisista. Após essa etapa o indivíduo deverá passar a investir sua libido em objetos externos.

Na esquizofrenia, essa construção psíquica sofre abalos. O indivíduo poderá regredir, deixando de dirigir sua libido ao mundo externo, assim como apresentar megalomania, rejeição da realidade, etc. Freud explica que a perda da realidade pode ocorrer quando a pessoa passa por situações traumatizantes que causam tanta excitação que o aparelho psíquico não tem condições de elaborá-las, e a representação é então rejeitada. Apesar de já não ter mais valor simbólico e conexões com outras representações, a representação rejeitada não deixa de existir, podendo retornar à consciência. Sempre que retorna, traz consigo muito sofrimento, que a pulsão de vida não é capaz de abrandar. A pulsão de morte passa então a ter mais força, e a de vida já não consegue executar sua função de manter o eu coeso.

Nem todas pessoas, entretanto, teriam seu eu desestruturado dessa forma e desenvolveriam uma psicose a partir das mesmas vivências desagradáveis. No caso apresentado por Sterian (2001), os acontecimentos desfavoráveis vêm desde sua infância. Quando a moça nasceu seus pais não tiveram condições de lhe propor um eu-ideal consistente, já que ainda estavam sofrendo pela morte do filho, que havia sido tão desejado. Ela era apenas uma forma de remediar aquela perda, e os pais preferiam que sua existência fosse o mais discreta possível. Sem um eu-ideal satisfatório, ela não pode formar um ideal-de-eu adequado. Seu superego a criticava por qualquer expressão de autonomia, desejos ou sentimentos, o que, com outras experiências negativas ao longo de sua vida, tornou sua situação ainda mais delicada, chegando ao ápice de ter seu eu desintegrado.

Com essa desintegração do eu, o psiquismo sofre uma regressão, situando-se entre o auto-erotismo e o amor objetal. Ele passa então a funcionar a partir de mecanismos mais primitivos, como os do processo primário e o da satisfação alucinatória. Nessas condições, a pessoa deixa de dirigir sua libido a objetos externos, ou seja, às pessoas ou coisas que amava. Os esquizofrênicos podem revelar também megalomania: “uma superestima do poder de seus desejos e atos mentais, a ‘onipotência de pensamentos’, uma crença na força taumatúrgica das palavras, e uma técnica para lidar com o mundo externo — ‘mágica’ — que parece ser uma aplicação lógica dessas premissas grandiosas. Nas crianças (...) esperamos encontrar uma atitude exatamente análoga em relação ao mundo externo. Assim, formamos a idéia de que há uma catexia libidinal original do ego” (Freud, 1914). Isso sugere que na esquizofrenia ocorre um retorno ao estádio do narcisismo.

Em neuroses como a histeria pode também haver uma recusa da realidade, no entanto a libido não é afastada de objetos externos, pois permanece ligada a eles na fantasia. O esquizofrênico, por sua vez, geralmente não substitui as pessoas reais por outras na fantasia. Quando isso de fato ocorre, é uma tentativa de recuperação, que acaba por resultar em manifestações como a alucinação. A alucinação é o primeiro mecanismo psíquico utilizado na tentativa de eliminar o desprazer causado pela insatisfação das necessidades. O grande desprazer gera a rejeição de representações da realidade e nesse lugar fica uma fenda aberta. A alucinação é, na verdade, uma nova representação criada para tomar o lugar daquela que foi rejeitada, funcionando como um “remendo”. Esse remendo é colocado entre representações reais, mesmo que esse encaixe não seja muito coerente.

Outra manifestação interessante da esquizofrenia é o distúrbio de linguagem observado nos pacientes. Eles apresentam muitas modificações na fala, que pode se tornar incompreensível com suas frases desorganizadas. Freud acredita que nos esquizofrênicos a elaboração da linguagem passa pelo mesmo mecanismo da formação dos sonhos, ou seja, o processo primário. Nesse processo, característico do funcionamento do sistema inconsciente, as palavras passam por uma condensação, podendo então representar várias idéias ou afetos latentes. As palavras podem então transferir seus investimentos libidinais umas pras outras, através do deslocamento. Assim, uma palavra com muitas conexões pode se tornar a representação de todo um encadeamento de pensamentos.

No processo primário as representações são todas inconscientes, já que são ligadas apenas à imagem ou traço da coisa. Para se tornarem conscientes, essas representações precisam se ligar a uma representação de palavra, pois “não temos como pensar ou falar a respeito de algo que vimos ou sentimos se essas coisas não puderem ser representadas (simbolizadas) por palavras” (Sterian, 2001). No esquizofrênico, ocorre uma rejeição da realidade tão radical que as representações inconscientes do objeto são desinvestidas. A partir disso, procurando uma recuperação desse objeto perdido, o psiquismo poderá se contentar com o objeto apenas em sua forma verbal. Ocorre, portanto, uma substituição da representação de objeto pela representação de palavras. As palavras então não remetem ao símbolo de nada, são as coisas em si. Por isso essas palavras na fala de um esquizofrênico são incompreensíveis e parecem disparatadas.

Por Débora Augustin

Referências:

Freud, S. (1914). Sobre o narcisismo: uma introdução. Edição eletrônica brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v.14. Rio de Janeiro: Imago.

Sterian, A. (2001). Esquizofrenia. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Personal tools