Comparações: pespectivas psiquiátricas e psicanalíticas sobre distúrbios do pensamento

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Distúrbios de pensamento na esquizofrenia: psiquiatria e psicanálise


Segundo o CID – 10: “Os transtornos esquizofrênicos se caracterizam em geral por distorções fundamentais e características do pensamento e da percepção, e por afetos inapropriados ou embotados. Usualmente mantém-se clara a consciência e a capacidade intelectual, embora certos déficits cognitivos possam evoluir no curso do tempo. Os fenômenos psicopatológicos mais importantes incluem o eco do pensamento, a imposição ou o roubo do pensamento, a divulgação do pensamento, a percepção delirante, as idéias delirantes de controle, de influência ou de passividade, vozes alucinatórias que comentam ou discutem com o paciente na terceira pessoa, transtornos do pensamento e sintomas negativos” (Organização Mundial da Saúde, 1997). A psicanálise contribui à observação fenomenológica psiquiátrica na medida em que, além de observar os sintomas, “ela busca uma compreensão de sua origem a partir de uma teoria da constituição psíquica humana em geral e da história daquele sujeito em particular” (Sterian, A. Esquizofrenia, 2001). Neste artigo, tentaremos expor essa contribuição, articulando as observações do campo da psiquiatria com as teorias psicanalíticas a respeito da esquizofrenia.


Distúrbios do conteúdo do pensamento

Para a psiquiatria:

Quanto ao conteúdo do pensamento, Dalgalarrondo (2000, p. 125) diz ser ele “aquilo que preenche a estrutura do processo de pensar. Neste sentido, o conteúdo do pensamento corresponde à temática do pensamento [...] Há tantos conteúdos quanto são os temas de interesse ao ser humano”.

Principais conteúdos que preenchem os sintomas psicopatológicos: 1. de perseguição; 2. depreciativos; 3. religiosos; 4. sexuais; 5. de poder, riqueza ou grandeza; 6. de ruína ou culpa; 7. conteúdos hipocondríacos.

Dalgalarrondo (2000, p. 132) afirma a importância de fazer-se a distinção entre delírio e erro. Nesse intento, remete-se à escola psicopatológica de Jaspers, segundo a qual “os erros são geneticamente compreensíveis, pois admite-se que possam surgir e persistir em virtude de ignorância, de fanatismo religioso ou político, enquanto o delírio tem como característica principal a incompreensibilidade”. Os delírios seriam, desse modo, “juízos patologicamente falseados”. O falseamento patológico do juízo caracteriza-se pela “certeza subjetiva praticamente absoluta” na crença, pela sua impossibilidade de modificação pela realidade objetiva, pela impossibilidade de seu conteúdo, e pela associalidade da produção da crença, ou seja, seu não compartilhamento por um grupo religioso, político etc.


Para a psicanálise:

Quanto aos distúrbios do conteúdo do pensamento, muitos psicanalistas teorizam que o superego explicaria a gênese de delírios e alucinações persecutórias. O esquizofrênico que se queixa de ter seus pensamentos conhecidos e suas ações vigiadas, de ouvir vozes que lhe falam na terceira pessoa, seria responsável pelo próprio delírio, sendo as vozes advindas dele mesmo. Alude-se, também, a um funcionamento específico do superego – um dos componentes do aparelho psíquico do indivíduo “normal” - um poder “que vigia, que descobre e que critica todas as nossas intenções” (S. Freud. Sobre o Narcisimo: uma introdução, 1950 [1914]). “Os delírios de estar sendo vigiado apresentam esse poder numa forma regressiva, revelando assim sua gênese e a razão pela qual o paciente fica revoltado contra ele, pois o que induziu o indivíduo a formar um ideal de ego, em nome do qual sua consciência atua como vigia, surgiu da influência crítica de seus pais (transmitidas a ele por intermédio da voz), aos quais vieram juntar-se, à medida que o tempo passou, àqueles que o educaram e lhe ensinaram, e a inumerável corte de todas as outras pessoas de seu ambiente”(id.).


Distúrbios do curso do pensamento

Para a psiquiatria:

Quanto ao curso do pensamento, Dalgalarrondo (2000, p. 125) diz ser ele “o modo como o pensamento flui, a sua velocidade e ritmo ao longo do tempo”. O autor apresenta quatro tipos de alteração do curso de pensamento: a aceleração (ocorre em alguns esquizofrênicos), a lentificação (pode ocorrer em algumas intoxicações por substâncias sedativas), o bloqueio e o roubo do pensamento (típicos da esquizofrenia).


Para a psicanálise:

Para a psicanálise, os distúrbios do curso do pensamento refletiriam o modo de desenvolvimento do psiquismo. Segundo Sterian (2001, p. 86), “o psiquismo humano não nasce pronto”. Por sua vez, também refletiriam o modo de comunicar-se com o outro. Segundo a autora, “aprendemos, primeiro em nosso meio familiar e, depois, na escola e em nossa vida social, a receber e transmitir determinadas informações a partir de certos códigos de linguagem” (id.). O bebê, inicialmente um amálgama de necessidades, é, quando da descontinuidade dos cuidados maternos, “obrigado a ‘descobrir’ que existe uma outra pessoa além dele mesmo” (id.), diferenciando, assim, a realidade interna da realidade externa. A mãe, com efeito, nomeia as necessidades que percebe em seu filho, dando a ele, à medida que se desenvolve, a capacidade de ligar as suas sensações e necessidades a palavras, fazendo com que ele aprenda “a se comunicar para lidar com sua realidade interna e externa” (id.). O bebê passa a poder buscar não só a mera satisfação das necessidades corporais, mas a desejar os cuidados, amparos e o amor da mãe. A voz da mãe acalma o bebê, enunciando suas necessidades, fazendo com que ele aguarde certo tempo pela saciedade de sua demanda. Sua capacidade de adiar as necessidades deve-se à capacidade do psiquismo de ligar a pulsão a um objeto, de modo que percepção do objeto (mãe) “passa a lembrar para ele, então, a promessa de uma satisfação próxima” (Sterian, 2001). A imaginação da satisfação vindoura começa a constituir a memória, a formar uma rede de representações. Essas representações são inicialmente representações da coisa; posteriormente, a criança passa a poder ligar essas representações da coisa a representações da palavra. A criança aprenderá a dizer: “estou com fome!”. Contudo, se, no “período em que a mãe tem de ajudar seu filho a constituir seu psiquismo, a mãe encontra-se mobilizada por questões mal elaboradas de sua própria vida (atuais ou antigas), sua capacidade de percepção e reconhecimento das necessidades do filho fica distorcida” (id.). O resultado é uma forma psicótica de lidar com a realidade interna e externa, e um desenvolvimento diferente da comunicação, que se evidencia nos distúrbios do curso do pensamento – de certa forma, “herdados” da mãe (o cuidador), no sentido que ela influencia a constituição desses comportamentos, a despeito de uma relação causal – presentes na esquizofrenia.


Distúrbios da forma do pensamento

Para a psiquiatria:

“A forma do pensamento é a sua estrutura básica, a sua ‘arquitetura’, preenchida pelos mais diversos conteúdos e interesses do indivíduo” (Dalgalarrondo. P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais, 2000). Para Dalgalorrondo (2000, p. 129), suas principais alterações são a fuga de idéias, a dissociação e a incoerência do pensamento. Também observa o quadro diagnóstico composto de sintomas como o afrouxamento das associações, o descarrilamento e a desagregação do pensament. Segundo Dalgalorrondo (2000, p. 130), “na esquizofrenia, de um modo geral, o progredir da desestruturação do pensamento segue a seguinte sequência (em ordem de gravidade): afrouxamento das associações, descarrilamento do pensamento e, finalmente, desagregação do pensamento”. O afrouxamento de associações é quando, “embora ainda haja uma concatenação lógica entre as idéias [...], as associações parecem mais livres, não tão bem articuladas” (id.). O descarrilamento do pensamento é quando o “pensamento passa a extraviar-se de seu curso normal, toma atalhos colaterais, desvios, pensamentos acessórios, retornando aqui e acolá ao seu curso original” (id.). A desagregação do pensamento é quando “há uma profunda e radical perda dos enlaces associativos, total perda de coerência do pensamento” (id.).


Para a psicanálise:

Segundo Freud (1950 [1915], cap. VII), “a representação consciente abrange a representação da coisa mais a representação da palavra que pertence a ela, ao passo que a representação inconsciente é a representação da coisa apenas”. A representação da coisa, registrada no sistema inconsciente, só poderia tornar-se consciente se ela se ligasse a uma palavra. A esquizofrenia, em sua rejeição de fragmentos da realidade, realizaria, para tanto, justamente o corte dessa ligação. Neste quadro psicopatológico, “as palavras estão sujeitas a um processo igual ao que interpreta as imagens oníricas dos pensamentos oníricos latentes – que chamamos de processo psíquico primário. Passam por uma condensação e, por meio de deslocamento, transferem integralmente suas catexias de umas para as outras (id.)”. No sonho, contudo, ocorre uma livre comunicação entre as catexias da coisa e as catexias da palavra, ao passo que na esquizofrenia não há essa comunicação, pois as palavras “são as coisas em si” a serem regidas pelo processo primário. Além disso, assim como no sonho os restos diurnos fornecem material para ser ligado (e, portanto dar vazão à energia represada) a representantes pulsionais recalcados, as palavras, na esquizofrenia, são investidas libidinalmente, pois o psiquismo tenta encontrar, através de seus movimentos, o caminho para a recuperação do fragmento de realidade rejeitado. O que ocorre, na esquizofrenia, é um desinvestimento da representação inconsciente da coisa, que não foi bem elaborada, e que aflige o psiquismo. “O pensamento e a linguagem do esquizofrênico apresentam-se, então, como um quebra-cabeça incompleto” (Sterian, A. Esquizofrenia, 2001), pois ocorre o “desligamento de certos ‘pedaços de realidade’ da cadeia associativa” (id.). As palavras, em sua tentativa de ligar o fragmento de realidade rejeitado às representações inconscientes da coisa, ou seja, de recuperar o fragmento de realidade desligado da rede simbólica, estariam, sob a égide do processo primário, evidenciando, pois, os distúrbios da forma do pensamento comuns na esquizofrenia.

Conclusão:

Podemos perceber, dessa forma, a distinção clara entre as abordagens usadas pela psiquiatria e pela psicanálise. A primeira, utilizando-se de diagnósticos nosológicos (indicando a patologia inscrita) a partir de sinais e sintomas (o diagnóstico sindrômico). (Figueiredo, A. C. & Tenório, F., 2002). Ademais, é possível uma análise histórico-sociológica acerca do modo que os distúrbios psíquicos foram abordados pela psiquiatria, geralmente dotados de atravessamentos institucionais do que seria este “saber” psiquiátrico: o saber do médico sobre o doente. A psicanálise, por sua vez, empregando a associação livre como método terapêutico por excelência - rompe com certas instâncias instauradas na psiquiatria – as quais, de certa forma, limitam a visão terapêutica a, muitas vezes, somente acompanhamentos medicamentosos e interpretações dos quadros clínicos – por exemplo, a esquizofrenia – de forma rasa ou ineficaz. Conforme exercitado ao longo do escrito, é possível identificar essa diferença no que tange, por exemplo, às explicações causais, ou melhor, constituidoras do quadro psicopatológico. Enquanto a psiquiatria tange suas análises ao observável e biológico, a psicanálise busca e se articula de vários saberes para buscar entender o mais profundamente possível o delírio, ou a causa do sofrimento psíquico. O entendimento sobre os distúrbios psíquicos e suas instâncias – à exemplo do delírio e alucinações esquizofrênicas – é de suma importância para o aprimoramento do diálogo entre esses dois campos de saberes e práticas, tão diferentes (no que tange aos métodos terapêuticos e fundamentações teóricas) e ao mesmo tempo tão semelhantes (quanto ao campo de estudo e ao exercício colocado em questão: o tratamento terapêutico).



Referências:


CID-10. OMS. (1993). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionado à Saúde. 10ª rev. São Paulo: Universidade de São Paulo; 1997. v. 2.

Sterian, A. (2001). Esquizofrenia. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Dalgalarrondo, P. (2008). Psicopatologia e Semiologia dos transtornos mentais. 2.ed.Porto Alegre: Artmed.

Freud, S. (1950). Sobre o Narcisimo: uma introdução. Edição eletrônica brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. 1950. v. 14.

Freud, S. (1915). O Inconsciente. Edição eletrônica brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. 1950. v. 14.

Figueiredo, A. C. & Tenório, F. (2002). O diagnóstico em psiquiatria e psicanálise. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, V (1), pp. 29-43.


Eduardo Kives, Irimara Peixoto e Leticia Magdaleno.

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