Episódio maníaco

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“Se não vivêssemos perigosamente (…) tremendo a beira dos precipícios, não estaríamos nunca deprimidos, estou segura disto, mas seríamos cinzentos, fatalistas e velhos". V.Woolf (1924) apud Gramary (2006).

O transtorno bipolar é uma doença que pode ser associada a uma roda gigante do humor, onde o sujeito se confronta com um turbilhão de emoções.

Já em 1895, Freud esboçou algumas hipóteses acerca do mecanismo psíquico da melancolia, salientando que a característica mais notável da melancolia é a sua tendência a se transformar em mania. O episódio maníaco é caracterizado por uma excitação eufórica do humor, por uma intensa agitação motora, distraibilidade, logorréia e por uma reduzida necessidade de sono; o sujeito pode supervalorizar-se e fazer coisas que normalmente não faria, pois distorce a realidade de modo a não enxergar os perigos embutidos em suas ações. A agitação predominante do humor pode ser a irritabilidade quando os desejos da pessoa são frustrados. Além disso, devido à elevação da autoconfiança, idéias grandiosas podem chegar a evoluir para delírios grandiosos ou religiosos de identidade ou papéis.


Na fase maníaca dessa loucura cíclica o indivíduo parece estar na condição de perdedor do se próprio eu, um eu que se transforma, que se perde em seu próprio funcionamento. No entanto, para Freud (1921) essa oscilação tratava-se de uma neurose narcísica em que ocorre um equilíbrio entre o eu e o supereu, ou há um triunfo do eu, onde o sujeito entra em acordo com seus instintos e o eu alcança seu ideal. Já Lacan, vai nos dizer que a mania é uma das variações da estrutura melancólica. Para ele, o maníaco é aquele que mostra como o objeto de desejo não desempenhou seu papel de limitação, ignorando, assim, os constrangimentos do real e do imaginário; o que está em jogo nesta fase é a não função do objeto a, e não simplesmente seu desconhecimento (Lacan,1963,apud,Ribeiro,s/d). Ou seja, o indivíduo sabe de sua história, mas não faz referência a ela. Um dos pioneiros no estudo da psicose maníaco-depresiva, juntamente com o psiquiatra Emil Kraepelin, Karl Abraham (1911), considera que "o começo da mania ocorre quando a repressão não pode mais resistir o assalto dos instintos (impulsos) reprimidos”. Sendo assim, os episódios maníacos seriam resultados da supressão total ou parcial das inibições normais do sujeito.


Nessa fase, a sua relação com os demais é de superioridade. O sujeito assume um lugar onde a posição do outro é de espectador e de admirador de suas façanhas. O indivíduo maníaco precisa de palco e de platéia para desempenhar sua grandeza e exercer seus poderes. É o outro que precisa receber e ninguém melhor do que o maníaco para satisfazer a demanda desse outro. Essa sensação de que tudo pode, de que tudo consegue dá a impressão de que o superego fica reduzido pelo exercício do ego onipotente. De certa forma, essa fase parece ser uma defesa da depressão, existindo então uma necessidade de vivenciar tudo o que fica inerte e insosso na fase depressiva, de maneira que não se tenha nenhum tempo disponível para sentir tais emoções. Seria uma defesa em que o ego evita a percepção de algum aspecto penoso. Pode-se dizer que há uma evasão para a realidade externa a fim de repudiar o mundo interno ameaçador. Trata-se de um corpo que precisa mostrar que tem vida, que é capaz, que pulsa e que precisa preencher o vazio experienciado quando o seu corpo não reagia. Portanto, a exposição a situações de riscos, os gastos exagerados e a sensação de onipotência são comportamentos defensivos que têm a função de neutralizar o sofrimento, mas acabam prejudicando o juízo crítico. O sujeito age ativamente lá onde sofreu passivamente, acreditando, com isto, evitar o retorno da morte interior.

Essa passagem ao ato, demonstra um ego em revolta, ávido de investimentos e esforçado em manter um falso humor de bem-estar pela denegação. Sendo assim, as defesas maníacas teriam a função de proteger o ego do desespero total, pois na maioria das vezes elas consistem na única forma de superar o sofrimento, uma vez que a resolução da depressão é muito lenta. Portanto, a sensação de onipotência vivenciada é uma fantasia para suportar a dor de existir. Nesse sentido, o ego inconsciente lança mão de atitudes defensivas com as quais o sujeito sente-se liberto das ansiedades depressivas, procurando trocar os sentimentos de opressão e de desvalia pelos de auto-estima inflada e de auto-suficiência inesgotável. Dessa forma, esses sentimentos eufóricos podem ser considerados fontes de prazer, como conseqüência da eliminação das inibições; na medida em que permitem o acesso a antigas fontes que tinham sido reprimidas, levando, conseqüentemente, à condutas de tipo infantil.


Diante de tudo isso, é importante destacar, ainda, que para a psicanálise, independente de o paciente estar numa fase melancólica ou maníaca; sob os sintomas aparentemente opostos, encontra-se a mesma estrutura psíquica que precisa ser tratada. Em seu texto Luto e melancolia, de 1917, Freud relata que o conteúdo da mania em nada difere do da melancolia, pois ambas as desordens lutam com o mesmo "complexo", mas que, provavelmente, na melancolia o ego sucumbe ao complexo, ao passo que na mania domina-o ou o põe de lado.


Referências:


ABRAHAM, Karl (1911). Notas sobre la investigación y yratamiento psicoanalíticos de la locura manníaco-depresiva y condiciones ssociadas. In Psicoanálisis clínico.

DICIONÁRIO DE PSICANÁLISE : Freud & Lacan. 2.ed. Salvador: Agalma, 1997. 2v

DICIONÁRIO DE PSICANÁLISE LAROUSSE / Artes Médicas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. 240 p.

FREUD, Sigmund. (1895). Rascunho G: Melancolia. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud). Rio de Janeiro: Imago, 1969. v. I.

FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1917). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro.Imago, 1980. v. XIV

FREUD, S. Psicologia de grupo e análise do ego (1921). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro. Imago,1980 v. XVIII

FERRARI, Ilka Franco. Melancolia: de Freud a Lacan, a dor de existir. In: Latin-American Journal of Fundamental Psychopathology on Line, VI, 1, 105-115

RIBEIRO, Eduardo Mendes Entre Tóxicos e Manias in: http://www.appoa.com.br/download/Revista%2026%20%20Entre%20t%F3xicos%20e%20manias.pdf

ROUDINESCO, Elisabeth. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998. 874 p

RYCROFT, Charles. Dicionário crítico de psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1975. 262 p.

ZIMMERMAN, David Epelbaum. Vocabulário contemporâneo de psicanálise. Porto Alegre: Artmed, 2001

Wolf, V.(1924)apud,GRAMARY, Adrian Virgínia. Woolf: A Morte e a Donzela in: [1]


Por: Patrícia Alves Teixeira

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