O Normal e o Patológico

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Que é loucura: ser cavaleiro andante ou segui-lo como escudeiro? De nós dois, quem é o louco verdadeiro? O que, acordado, sonha doidamente? O que, mesmo vendado, vê o real e segue o sonho de um doido pelas bruxas embruxado?

Carlos Drummond de Andrade (Quixote e Sancho de Portinari, 1974)


O Normal e o Patológico


As mudanças que ocorrem na sociedade, nos seus conceitos, seus paradigmas podem ser vistas e analisadas recuando no tempo. Quando estamos imersos em nossa cultura de tal forma que não conseguimos deslocar nosso olhar temporal e espacialmente calcificamos nossas ideias e adquirimos o hábito de naturalizar o que percebemos em nossa volta. De outra forma, quando olhamos para o que se passa em nosso entorno com “olhos que analisam” e não que apenas aceitam descobrimos que o que julgamos ser nem sempre o é, e o que julgamos não ser, talvez, seja. A sociedade se modifica em todos os seus aspectos. Vemos ao longo da história mudanças; como: na forma de produção (industrialização), na política, com a implantação de outras formas de governar, e até mesmo transformação na concepção de homem. Há forças que operam na sociedade transformando-a; e estas forças, por sua vez, também agem sobre os indivíduos que se modificam e dão início a novas configurações no meio em que vivem. Esta relação é cíclica; e opera em todas as sociedades, e em todos os indivíduos, seja de forma consciente ou não. Ajustando nosso olhar, percebemos um sujeito que atua neste palco modificando o cenário social constantemente. A ideia de um indivíduo que se transforma e igualmente modifica seu entorno desenha a sociedade e todas as suas áreas de atuação, que logo depois é transformado novamente.


A Concepção de Doença se Difere


Georges Canguilhem traz em sua obra “O Normal e o Patológico”, duas concepções de doenças. Uma destas vê a relação saúde-doença sobre o ponto de vista quantitativo, enquanto a segunda sobre o ponto de vista qualitativo. A doença sobre o ponto de vista quantitativo se difere apenas quantitativamente da saúde (estado normal) havendo um contínuo entre elas. A perturbação do estado de equilíbrio do corpo é a doença, e buscar o retorno a este estado de equilíbrio é buscar a normalidade anulando a doença e atingindo a cura. Dentre os adeptos mais conhecidos desta forma de pensar a saúde encontra-se o filosofo Augusto Comte e o médico francês Claude Bernard. Sob o ponto de vista qualitativo a doença difere da saúde como uma qualidade difere da outra. Estes dois estados são tratados como distintos não tendo grau entre um e outro. Aqui se pensa a doença não como um grau diferente do estado “normal”, mas sim como algo que transforma o indivíduo e que o faz diferente do anterior.


Alguns Conceitos de “Normalidade”

O dilema de muitos profissionais da saúde mental é a fronteira entre o normal e o patológico. Onde termina a saúde e começa a doença? O que é normalidade? Os critérios para classificar o que é normalidade dependem de opções filosóficas, ideológicas e pragmáticas, segundo Canguilhem. Alguns dos principais critérios utilizados em psicopatologia são:

- Normalidade como ausência de doença. Neste a ausência de sintomas, sinais ou de doenças é sinônimo de saúde.

- Normalidade ideal. Estabelece-se uma norma ideal do que, supostamente é um sujeito sadio.

- Normalidade estatística. O normal é aquilo que se observa com mais freqüência.

- Normalidade como bem-estar. A Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu em 1946, a saúde como o complemento entre o bem-estar físico, mental e social e não somente como ausência de doença.

- Normalidade funcional. Baseados em aspectos funcionais o fenômeno é considerado patológico quando produz sofrimento para o individuo e/ou para o seu grupo social.

- Normalidade como processo. Este conceito considera os aspectos dinâmicos do desenvolvimento psicossocial, das desestruturações e das reestruturações ao longo do tempo.

- Normalidade subjetiva. Aqui o que vale é a percepção subjetiva do sujeito sobre seu próprio estado de saúde.

- Normalidade como liberdade. Alguns autores existencialistas tratam que saúde esta vinculado a possibilidade de transitar som graus de liberdade sobre o mundo; a doença é a fossilização destas possibilidades existenciais.

- Normalidade operacional. Aqui, a priori, define-se o que é normal e patológico e opera-se de acordo com estas definições.


Como podemos observar há vários conceitos de normalidade, e consequentemente vários de psicopatologia. Se pensar, é claro, que o que não é normal é patológico. Esta é uma questão com várias respostas. O limite entre o normal e o patológico é impreciso. O normal não é rígido, ele se adapta e se transforma de acordo com as condições individuais. Dois corpos podem estar submetidos as mesmas influências e reagirem a estas de maneira distinta. Segundo Canguilhem é para além do corpo que se deve olhar para se julgar o normal e o patológico para este mesmo corpo(Canguilhem, 2010). O que adoece não são apenas partes do corpo ou a sua totalidade. Há um adoecimento, um mal-estar, que se estende para além dos limites do corpo, que está na sociedade.


Referências Bibliográficas:

Dalgalarrondo, Paulo. (2008). Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 2ª.ed. - Porto Alegre: Artmed

Canguilhem, Georges. (2010). O Normal e o Patológico. 6ª.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária.


Diésica König dos Santos

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