Psicose Infantil

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Psicose Infantil

A psicose infantil é um campo de estudo que engloba diversas formas de manifestação, sintomatologia e prognóstico. Bleuler (1911), por exemplo, ao descrever o grupo das esquizofrenias, considerou que, em alguns casos, um dos sintomas seria a vida interior assumir uma preponderância patológica, o que consistiria (atualmente) um caso de autismo; foi este termo que Leo Kanner tomou em 1943 para designar o autismo infantil ; na descrição dos casos estudados ele chamou atenção para um distanciamento desses pacientes do contato com os pares da mesma faixa etária, além de apresentarem dificuldades na linguagem e comportamentos estereotipados.

Na década de 80, entretanto, houve uma revolução conceitual: do autismo como psicose infantil para o autismo como transtorno do desenvolvimento, sendo assim classificado e tendo seus critérios diagnósticos citados no DSM-IV-TR e no CID-10 (Gadia, Tuchman,& Rotta, 2004); apesar dessa tentativa de unificar o diagnóstico, ainda há divergência entre os autores das mais diversas abordagens. Para Reis (2000), a polêmica é extremamente acirrada, pois alguns profissionais da área psicanalítica acreditam que a psicose se configuraria somente na adolescência (após o período de latência), tornando o diagnóstico de psicose infantil algo precipitado e errôneo, e que o diagnóstico poderia colaborar para a piora da manifestação dos sintomas ao incidir sobre a criança nesse período da vida, além de marcar e inclusive dificultar seu desenvolvimento. Uma das causas dessa indefinição acerca do diagnóstico, que tem perdurado até hoje, é o fato de o autismo ser considerado uma síndrome de etiologias múltiplas (Bosa & Calias, 2000).

As diferenças entre o diagnóstico de autismo e o de psicose infantil são um fator de discordância muitas vezes mesmo entre psicanalistas (quando de diferentes abordagens), apesar de os estudos destes terem sido direcionados em demonstrar as diferenças entre os dois casos. Jerusalinsky (1999) propõe que o autismo seja considerado uma quarta estrutura clínica, ao lado da neurose, da psicose e da perversão; o autor considera também que uma diferenciação clara entre psicose infantil e autismo seria que no autismo, falharia a função materna, e na psicose, a função paterna; ele propõe então a utilização do termo ‘psicose indecidida’ para definir o autismo.

As demais psicoses infantis tiveram a existência negada durante muitos anos, talvez devido ao estigma social que carregam os alienados, mas hoje alguns autores entendem que essas se apresentam diferentemente da forma adulta, mas constituem-se de quadros semelhantes, como a esquizofrenia infantil e as formas ‘fronteiriças’. Não importando o nome que é dado ao diagnóstico, a evolução dos casos é variável e os tratamentos oferecidos também; além disso, não se deve ignorar o impacto do diagnóstico de autismo tanto nos indivíduos quanto em suas famílias.

Referencias:

-Gadia, Carlos A., Tuchman, Roberto and Rotta, Newra T. Autismo e doenças invasivas de desenvolvimento. J. Pediatr. (Rio J.), Abr 2004, vol.80, no.2, p.83-94. ISSN 0021-7557

-Bosa, Cleonice and Callias, Maria Autismo: breve revisão de diferentes abordagens. Psicol. Reflex. Crit., 2000, vol.13, no.1, p.167-177. ISSN 0102-7972

-Reis, Claudia do Amaral de Meireles. Uma reflexão acerca do diagnótico de psicose infantil: uma abordagem psicanalítica. Psicol. USP, 2000, vol.11, no.1, p.207-242. ISSN 0103-6564

-Jerusalinsky, A. (1999). Psicanálise e Desenvolvimento Infantil. Porto Alegre: Artes e Ofícios.


Colaborou: Jaqueline Giordani


Psicose Infantil: uma breve revisão teórica

Muitos autores consideram ser importante identificar sinais nas crianças do que poderia tornar-se psicose mais tarde, ressaltando com isso o papel da intervenção precoce nesses casos. Alguns são mais enfáticos e já consideram a existência das psicoses, de fato, na própria infância. Mahler, ao sistematizar os achados de suas pesquisas, separa e descreve os tipos de psicoses infantis basicamente em simbiótica e autística. Para ela, os bebês passariam, durante o processo de separação e individuação, por fases, quais sejam: autista normal, simbiótica e diferenciação. Primeiramente a criança nasceria apenas biologicamente, precisando, posteriormente, ser inaugurada psicologicamente. Segundo a autora, o objetivo seria tornar-se uma entidade individual, separada, adquirindo um, ainda que primitivo, primeiro nível de identidade do self. Assim fica entendido que se acontecem “falhas” durante esse desenvolvimento, essas aumentariam as chances para a “instauração” de quadros de psicoses infantis.

Da mesma forma, Winnicott aponta para algo parecido ao descrever o que chamou de “conseqüências de falhas no cuidado ambiental” que seriam a esquizofrenia infantil ou autismo, falso self e personalidade esquizóide. A criança experimentaria nessas condições agonias impensáveis tais como se quebrar em pedaços, cair para sempre, não ter conexão alguma com o corpo, as quais referem a essência das ansiedades psicóticas. Os cuidados para com o bebê seriam então de fundamental importância para promover a integração e personalização do ego e fazer com que a criança consiga se integrar em uma unidade (o que seria uma conquista da fase de dependência absoluta proposta pelo autor). Ainda durante os referidos cuidados, Winnicott ressalta a importância da interação e troca entre mãe e bebê de olhares, toques, caracterizando o que ele chama de espelhamento.

Seguindo nessa linha, Laznik (ainda que essa não aposte na existência de psicoses infantis, mas considere que isso é algo ainda em estruturação nessa fase da vida) também acredita que se há problemas na relação especular do bebê com o outro é interessante que se faça uma intervenção, pois caso contrário pode ser que o estádio do espelho não se constitua de maneira conveniente. A autora explica, ao retomar Lacan, a importância particular desse tempo do estádio do espelho de reconhecimento da imagem especular pelo Outro. Este é o momento em que a criança se vira para o adulto que a segura e pede para que esse ratifique pelo olhar o que ela percebe no espelho como assunção de uma imagem. A autora completa dizendo que é crucial esse momento da relação jubilatória à imagem do espelho porque é ela que vai dar ao bebê o sentimento de unidade e a base da sua relação com os outros.

Com isso, o que se percebe em comum é a importância dada às primitivas relações mãe-bebê, ressaltando a importância de atentar para as trocas de olhares, toques e cuidados entre esses dois; assim como de realizar intervenções quando há problemas nessas relações. Também parece ser consenso que é preciso “inaugurar” a criança emocionalmente, psicologicamente através dessa interação, havendo a necessidade de que a criança consiga integrar-se e organizar seu “self” de maneira separada, em certo momento do desenvolvimento. Identificar sintomas psicóticos nas crianças (os quais seriam decorrentes basicamente de falhas na interação e/ou cuidados) semelhantes aos sintomas de adultos psicóticos (ainda que alguns autores digam que a psicose infantil se dá de maneira bem distinta da psicose no adulto) é o que parece justificar o diagnóstico ou a constatação da psicose já na infância. Mahler descreve as psicoses infantis em linhas gerais apontando para o desencadeamento dessas ao dizer que parece existir uma ruptura com a realidade que surge do crescimento maturativo, sendo uma das principais dificuldades do bebê integrar as sensações do mundo externo com as do mundo interno e perceber a mãe como representante do mundo exterior. As diferentes e complexas demandas emocionais da situação edípica jogam a criança psicótica-simbiótica no que a autora chama de pânico afetivo. Ficariam então marcos da fragmentação do ego dos traumatismos sofridos pela criança através de doenças, separação (tal começar a freqüentar a creche), o nascimento de um irmão, além de outros tipos de mudanças que cheguem a perturbar o precário equilíbrio psicológico do bebê. O mundo é assim entendido pela criança como hostil e ameaçador porque é encarado como entidade separada, fazendo com que a ansiedade de separação esmague o seu frágil ego psicótico-simbiótico.

Apesar de podermos apontar os referidos traços em comum no pensamento de diferentes autores, há muitas discordâncias (até por causa das divergências teóricas) no campo das psicoses infantis em diversos aspectos. Outro ponto importante que se mistura com essa questão e suscita discussões é a diferenciação feita entre a psicose e o autismo. O que coloquei anteriormente como um possível ponto de articulação entre os autores (as dificuldades nas relações mães-bebê como um dos fatores para o desencadeamento da psicose infantil) pode significar que justamente não se trata de uma psicose, mas sim de autismo, conforme o autor e o argumento utilizado. Um exemplo disso seria a rápida diferenciação entre psicose e autismo que Jerusalinsky (um dos autores que defendem que a psicose na infância ainda não está decidida e que ainda considera o autismo como uma quarta estrutura clínica) faz ao dizer que no primeiro caso falha a função paterna e no segundo a função materna. Assim, percebe-se que não há unanimidade quanto ao tema e nem como afirmar categoricamente algo sem correr o risco de isso poder ser rebatido com outro argumento não menos consistente que o utilizado primeiramente.

Vê-se então ser relevante considerar a importância dos estudos e pesquisas sobre o campo das psicoses (ou ainda não psicoses) infantis, tendo em vista o valor das contribuições tanto para um maior entendimento acerca da questão por parte dos profissionais da área como para a prática clínica.



Referências

JERUSALINSKY, A. (1993). Psicose e autismo na infância: Uma questão de linguagem. Psicose, 4 (9). Boletim da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, RS.

LAZNIK- PENOT, M.C. (2004) A voz da sereia: o autismo e os impasses na constituição do sujeito. Salvador: Ágalma.

MAHLER, M. (1982) O processo de separação-individuação. Porto Alegre: Artes Médicas.

MAHLER, M. (1983) As psicoses infantis e outros estudos. Porto Alegre: Artes Médicas.

WINNICOTT, D.W. (1983) O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artes Médicas.



Doralúcia Gil da Silva

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