Síndrome de Otelo

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Síndrome de Otelo – Ciúme Patológico e Delirante

As idéias prevalentes ou sobrevaloradas (Dalgalarrondo, 2008) são idéias predominantes sobre outros pensamentos e de grande importância afetiva para o indivíduo que as produz; idéias que, ao contrário das obsessivas, são aceitas pelo sujeito, já que fazem sentido para ele. As idéias delirantes, ou delírios, por sua vez, são juízos patologicamente falsos. De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR, 2002), o Transtorno Delirante Paranóico do tipo ciumento é o delírio centrado na convicção, sem motivo justo ou evidente, de que está sendo traído pelo cônjuge ou parceiro romântico. A crença é injustificada e se baseia em inferências incorretas sustentadas por pequenas “evidências” (por exemplo, manchas nos lençóis) as quais são acumuladas e utilizadas para a justificativa do delírio. O sujeito pode tomar medidas extremas para evitar a suposta infidelidade. Segundo Dalgalarrondo (2008), nos delírios de Ciúmes e de Infidelidade, o indivíduo descobre-se traído pelo parceiro de forma cruel, acusando-o de manter relações íntimas com outras pessoas. Geralmente, o sujeito que apresenta esse delírio é extremamente dependente de forma emocional da pessoa amada. O ciúme, quando desproporcional e profundo em indivíduos com alto grau de possessividade e insegurança, pode ser difícil de distinguir do delírio de ciúme. Nessa perspectiva, o ciúme patológico pode ser tanto um verdadeiro delírio, como também uma idéia prevalente. Pessoas acometidas pelas intensas atividades de delírio do tipo ciumento, muitas vezes, violentam fisicamente ou mesmo cometem homicídio contra o “traidor”.


Otelo, o Mouro de Veneza

Otelo, o Mouro de Veneza é uma famosa obra de William Shakespeare na qual são abordados temas de grande relevância até os dias de hoje, dentre eles, o ciúme. Para que haja maior compreensão da síntese da peça, alguns personagens serão mencionados brevemente:

. Otelo: um honesto nobre e general mouro a serviço do Estado de Veneza;

. Desdêmona: uma linda e doce jovem, e esposa de Otelo;

. Cássio: tenente de Otelo;

. Iago: um invejoso e alferes de Otelo;

. Brabâncio: um senador e pai de Desdêmona;

. Rodrigo: soldado veneziano (apaixonado por Desdêmona);

. Emília: esposa de Iago.

A obra inicia-se com Iago e Rodrigo tramando, secretamente, uma maneira de impedir a realização do casamento de Otelo e Desdêmona. Assim, o plano consistia no pai desta, Brabâncio, ficar à parte das relações íntimas de sua filha com o mouro, uma vez que era esperado que ele desaprovasse sua escolha, sobretudo por motivo de racismo. Brabâncio vai até o casal, visando matar o genro e o acusa de praticar feitiçarias para casar com sua linda e amada filha, que tão disputada era por vários jovens; porém, após conversar com Desdêmona, não só desiste de praticar o ato, como também passa a desconsiderá-la como filha, pondo um fim na relação de ambos. No entanto, ele alerta o genro dizendo que sua filha é infiel, já que enganou o próprio pai; no entanto, Otelo afirma confiar na fidelidade de sua esposa. Otelo era ingênuo, acreditava nas palavras dos outros com tamanha facilidade, principalmente nas de seu alferes, chamando-o de “honesto Iago”. Este, por sua vez, arquitetava planos contra o general mouro por ser invejoso e por não tê-lo promovido como seu tenente. O ocupante do posto invejado por Iago foi Cássio, jovem atraente e também ingênuo, e grande amigo de Otelo. Iago conseguia ser discreto diante dos olhos de seu general, e se aproveitava de sua ingenuidade fingindo ser honesto e leal a ele, o que aumentava sua credibilidade. Com a finalidade de destruir a vida de Otelo e de Cássio, e percebendo que a melhor forma de atacar seria através do ciúme, começou a agir: assim, o alferes preparou friamente cada ocasião, insinuando uma relação amorosa entre Cássio e Desdêmona. Por mais que Desdêmona mostrasse seu amor pelo marido e implorasse que confiasse em sua palavra - que era verdadeira - em nada acreditava, pois estava convicto da traição. Iniciou-se, assim, as agressões tanto físicas quanto verbais; nesta última, chamando-a de rameira, causando infelicidade na esposa. O alferes conseguiu o que almejava: introduzir as “sementes” do ciúme. Nessa perspectiva, Iago aprontou várias situações, o que resultou em tragédia: Otelo, com seu ciúme doentio, e com a certeza de que sua mulher o traía constantemente com seu tenente, planejou, junto com seu aliado, a morte do “casal”; então, assassinou a doce e terna jovem. Depois, contudo, ficou sabendo, pela esposa de Iago, de que tudo isso foi planejado por seu marido. Desolado, arrependeu-se amargamente de ter feito o que fez com sua doce mulher, e agrediu o invejoso. Na mesma noite do homicídio, após tanto lamentar-se, apunhalou-se e morreu.


Síndrome de Otelo

“O ciúme é o monstro de olhos verdes que zomba da carne com que se alimenta.” (Shakespeare).


O ciúme é conhecido como o medo da perda de um objeto amado. Um ciúme que gera pertubações, sofrimentos e torturas não é normal. O ciumento acumula sinais como se acumulasse provas materiais de defesa contra o outro; o que mais o incomoda é seu parceiro negar existência de outra pessoa na relação e tentar fazer com que acredite que são imaginações infundadas e que sempre lhe foi fiel. A partir da obra shakespeareana, a Síndrome de Otelo ficou bastante conhecida no campo do ciúme patológico devido aos delírios paranóicos ciumentos e às conseqüências que tal sintoma leva. Otelo, a partir das insinuações, feitas por Iago, de que Desdêmona estaria o traindo com seu grande amigo, passou a desconfiar da fidelidade da jovem com muita facilidade, através de “evidências” que, na realidade, não chegavam a ser motivos de tamanha desconfiança.


Uma das situações que Iago planejou foi a seguinte: Otelo, havia dado um lenço de linho de presente a sua esposa; aliás, foi o primeiro mimo e Iago bem sabia. Porém, o alferes induziu sua esposa, Emilia - a qual trabalhava para Desdêmona -, a roubar o lenço e diz ao general mouro que Desdêmona havia presenteado seu amante com o objeto, deixando Otelo enciumado. Ele pergunta à esposa sobre o lenço e, ela, sem imaginar que estava com Cássio, não soube explicar o desaparecimento do lenço. Nesse tempo, Iago foi até os aposentos de Cássio para deixar o objeto, para que Otelo o encontrasse. Após isso, Iago fez com que Otelo se escondesse para ouvir sua conversa com o suposto “amante”. A conversa foi em relação a uma meretriz amante de Cássio; mas, como Otelo ouviu uma parte do diálogo, imaginou que a mulher sobre qual o tenente falava era sua amada esposa.


Essa foi uma das ocasiões tramadas por Iago que culminou no assassinato de Desdêmona, a qual nunca deu motivos para tanta desconfiança. Em várias cenas, ainda no início da desconfiança, Otelo agrediu verbalmente e, mais adiante, fisicamente. No início da obra, tinha a convicção de que a amada era somente sua e de mais ninguém. Suas suspeitas o devoraram, intensificando o ciúme de modo a tornar-se patológico; através de pequenas “evidências” e ocorrências irrelevantes, sem ter visto algo que realmente justificasse a desconfiança, cometeu homicídio contra Desdêmona. Otelo preferiu perder o objeto de que fará luto a sofrer os tormentos do ciúme; é um dos aspectos que caracterizam um delírio do tipo ciumento.


Freud situa três “camadas de ciúme” anormalmente reforçado:

. ciúme concorrencial ou normal: se compõe da tristeza, da dor de saber ou de crer que o objeto de amor está perdido, da ofensa narcísica e dos sentimentos hostis em relação ao rival. Este tipo de ciúme é considerado como racional, “dominado pelo eu consciente demonstrando ter raízes profundas no inconsciente” (Lachaud, 2001).

. ciúme projetado: há uma colocação em jogo de um processo inconsciente, a projeção de um desejo de trair recalcado.

. ciúme delirante: os objetos de fantasia são homossexuais, ocupando um lugar como uma das formas clássicas da paranóia. Nessa camada, o desejo de infidelidade está voltado para um parceiro do mesmo sexo que o sujeito. Como tentativa de defesa desse impulso homossexual, no homem, equivale a afirmação “Eu não o amo, é ela que o ama!”.


Em minha visão, a partir às contribuições freudianas, o ciúme de Otelo se encaixa nos dois últimos. Em relação ao ciúme projetado, houve um retorno dele, de sua própria traição, mas contra a lei; projetou suas idéias de infidelidade. Ele foi infiel somente à lei, uma vez que, por amor à Desdêmona, se converteu ao cristianismo. Quanto ao ciúme delirante, há um tema de homossexualidade, uma vez que sentia por Cássio uma paixão fraterna. Antes de tudo, eles eram grandes amigos, senão os melhores. À medida que as desconfianças cresceram, Otelo não tinha dúvidas de que a esposa amava o jovem e atraente Cássio, passando a odiá-lo.


Há, no ciúme, uma verificação que nenhuma prova jamais poderá satisfazer. No ciúme delirante, não há prova de defesa; tudo conspira para acusar o outro. O ciumento quer saber, nem que seja contra a verdade. Encontrar o que ele busca não o tranqüilizaria. No ciúme dito "normal", todavia, o ciumento busca a confissão. Em outras palavras, o ciúme se nutre de interpretações; é onipresente.

Como Shakespeare cita na obra, “As almas ciumentas não são ciumentas porque há uma causa, mas sim porque são ciumentas. Este é um monstro gerado em si mesmo e de si mesmo nascido.”


REFERÊNCIAS:

Cromberg, R.U. (2002). Paranóia - Clínica Psicanalítica.

Dalgalarrondo, P. (2000). Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed.

DSM-IV-TR (2002). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. (tradução) Claudia Dornelles. 4.ed. Texto revisado. São Paulo, Artmed

Lachaud, D. (2001). Ciúmes. Rio de Janeiro : Companhia de Freud, c2001.


Silvia de Andrade Neves Dias Brites



Pós-escrito

Depois de refletir mais sobre a história de Otelo, surgiu uma dúvida: Otelo teria mesmo um ciúme delirante? Na minha visão, uma pessoa que tem ciúme delirante sempre vai achar que está sendo traída. No entanto, não se sabe o que ocorreria caso Desdêmona tivesse sobrevivido, ou se o caso tivesse se esclarecido antes: o ciúme acabaria ou permaneceria mesmo após Iago ter admitido? ou o ciúme desviaria pra outro foco? Otelo era um homem corajoso, guerreiro e justo. A forma que ele achou que resolveria foi através da luta.


Silvia de Andrade Neves Dias Brites

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