Transtorno ou neurose?

From Wikipsicopato
Jump to: navigation, search

Este trabalho irá dialogar sobre as diferentes visões que são dadas à neurose obsessiva, conforme o olhar da psiquiatria e da psicanálise. Para tanto, trago como exemplo o Transtorno Obsessivo-Compulsivo, que na visão psiquiátrica assim se denomina, o qual ajudará na discussão. Serão usados como base os textos “Da verdade do sintoma à verdade do Sujeito: uma leitura sobre a dieta do TOC”, de autoria de Henrique Figueiredo Carneiro, apresentado na Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, nº 17, novembro de 1999 e “Estado atual da clínica psiquiátrica do transtorno obsessivo-compulsivo”, de autoria de Ana G. Hounie et al (2007). Eles vão nos servir como guias para a discussão, mas não será excluído outras ideias de outras fontes, pois elas contribuem para enriquecer o diálogo.

DSM-IV e Sua Visão

Começamos, então, caracterizando essa doença a partir do que o DSM-IV nos traz. Como Hounie et al (2007) dialoga em seu texto, o TOC está classificado entre os transtornos de ansiedade, cujo diagnóstico é realizado a partir de manifestações de ordem obsessiva e compulsiva. Para tanto, elas precisam causar sofrimento, com duração de mais de uma hora por dia ou trazer prejuízos significativos na rotina do sujeito como um todo, assim como em suas relações sociais e funcionamento ocupacional. Para o indivíduo ser diagnosticado com TOC é necessário ter alguma dessas psicopatologias:

- obsessões, que são ideias, imagens ou impulsos intrusivos repetitivos e estereotipados;

- compulsões, que são comportamentos ou atos mentais que o indivíduo executa voluntariamente em resposta a uma obsessão, para reduzir a ansiedade;

- tiques, que podem ser vocais (sons produzidos pelo ar nas vias aéreas) ou motores (movimentos repentinos e breves);

- fenômenos sensoriais, que são experiências físicas, que precedem ou acompanham os tiques ou compulsões;

Sobre os sintomas que um indivíduo com TOC manifesta, as duas correntes, tanto a psiquiatria, quanto a psicanálise concordam e veem os fatos de uma forma similar, ou seja, a sintomatologia não é negada. O que difere é o tipo de tratamento que cada uma irá adotar, com a finalidade de cessar o sofrimento de um indivíduo com TOC.

Um dos textos nos traz que os criadores do DSM-IV defendem que o Transtorno Mental só tem sentido quando há a manifestação de uma disfunção comportamental, e que os transtornos mentais não classificam as pessoas e, sim, os transtornos que elas apresentam. Bem, essa questão geraria outra rica discussão, mas detenhamo-nos à neurose obsessiva em si, considerando-a, de fato, um transtorno mental. Pois, ela provoca disfunções comportamentais e sofrimento ao sujeito, tendo sim que ser tratada. Entretanto, o que irá diferir é o olhar que lançamos ao sintoma e ao sujeito, assim acarretando significativas diferenças de tratamento, dando-se aí a importância da discussão. No texto de Carneiro (1999), ele traz a ideia da diferenciação entre a vocação da psiquiatria em mostrar a verdade do sintoma e a vocação da psicanálise em procurar a verdade do sujeito.

Verdade do Sintoma e Sua Visão

Na vertente psiquiátrica, como discute Carneiro (1999), a verdade do sintoma é confirmada “quando o médico prescreve uma dieta, e, sobretudo, crê que a referida medida ceifará o sintoma e com ele proporcionará ao paciente a verdade sobre seu sofrimento”. Quando o médico se resume ao ato prescritivo, ele procura meramente curar o sintoma e o que acontece é que a droga pode ter o potencial de artificializar a verdade do sintoma, assim fazendo com que ela faça parte dele: “a droga pode ser incorporada ao sintoma e essa passa a ser a verdade do sintoma” (Carneiro, 1999). O indivíduo com TOC, objetivando aliviar-se do sofrimento causado pelas obsessões, recorre às ações ritualizadas, caracterizando um quadro de compulsão. Com a medicalização, cessam-se essas ações, assim, a obsessão para momentaneamente e, então, alivia-se o sofrimento desse sujeito. Entretanto, na medida em que o indivíduo para com a medicalização, tudo pode voltar, ou mesmo essa carga energética pode ser transferida a outro lugar. O problema continua na verdade do sujeito, mascarando a verdade do sintoma.

Verdade do Sujeito e Sua Escuta

Em um tratamento psicanalítico, tendo o olhar voltado à verdade que o sujeito carrega, é necessário ir fundo ao inconsciente do sintoma, pois um neurótico se agarra em seus sintomas para manter o seu equilíbrio egóico. Os pensamentos intrusivos, que eles não conseguem lidar, ficam presos e esgotam seus pensamentos, levando ao sofrimento extremo. Muitos conseguem viver suas vidas sociais muito bem, disfarçando quando possível. O neurótico se dá conta de sua esquisitice, mas não consegue se livrar de suas compulsões e acabam cedendo a elas, assim, causando sofrimento.

Como Oliveira (2002) nos fala, para a psicanálise, a neurose obsessiva compulsiva tem como origem um conflito psíquico infantil e uma fixação da libido no estágio anal de maturação. No estudo que Freud fez sobre o Homem dos Ratos, ele descobriu que a obsessão deveria ser sempre relacionada a uma regressão ao estágio anal, com uma sustentação inconsciente a um forte sentimento de ódio primitivo. Ele viu que nos sintomas obsessivos há uma forte repressão à experiência infantil por parte do neurótico obsessivo compulsivo, causando desequilíbrio emocional no sujeito. Esse desequilíbrio tem um vínculo com um sentimento inconsciente de culpa, que o indivíduo não sabe o porquê.

Voltar-se para desvendar a verdade do sujeito é algo imprescindível. É ali que as respostas se escondem e dali que as obsessões surgem. Um neurótico obsessivo compulsivo irá se prender às suas compulsões e desenvolver esse transtorno, cujo tratamento deve ser muito bem conduzido. As diferenças entre as visões são necessárias existir, mas uma má condução delas no nível intrapsíquico pode fazer com que o indivíduo que sofre ser prejudicado ainda mais.


Referências:

CARNEIRO, H. F. (1999). Da verdade do sintoma à verdade do sujeito: uma leitura sobre a dieta do TOC. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, nº 17, Porto Alegre, APPOA, 1999.

DSM-IV – Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Trad. Dayse Batista; 4.ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

HOUNIE, A. G. et al. Estado atual da clínica psiquiátrica do transtorno obsessivo-compulsivo. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. X, 1, pp. 80-100, 2007.

OLIVEIRA, M. (2002). Estudo Psicanalítico sobre a Neurose Obsessiva Compulsiva. [1]


Camila Schorr Miná

Personal tools