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o impacto sobre a criança e o adolescente • texto completo |
| Uma Força a ser Utilizada |
Maria Lucrécia S. Zavaschi
A televisão representa o mais extraordinário meio de comunicação de um século marcado exatamente pela excelência técnica e importância crescente da imprensa em todas as suas modalidades. A força da televisão reside menos em suas características de movimento, som e imagem, que na facilidade com que se coloca no interior dos lares, onde freqüentemente ocupa o centro das atenções. Uma pesquisa recente do Instituto Nielsen indicava que as crianças norte-americanas assistiam em média de 21 a 23 horas semanais de televisão e projetava que, se mantivessem essa média, chegariam aos 70 anos, tendo permanecido de 7 a 10 anos diante da tela. A situação das crianças brasileiras provavelmente não é muito diferente.
Também não é diferente outro aspecto - este mais grave - relacionado ao conteúdo da programação. Estima-se que até chegar à idade de 18 anos, um jovem médio terá sido exposto a nada menos que 200 mil atos de violência exibidos pela televisão. A relação de causalidade entre essa superexposição a assassinatos, estupros, assaltos e todo o tipo de agressões, de um lado, e o crescimento da violência e dos comportamentos agressivos entre os jovens, de outro, tem sido motivo de discussão. Há imensos interesses em jogo, mas a polêmica não tem razão de ser depois que mais de mil estudos produzidos por técnicos de saúde mental e especialistas de relações sociais estabeleceram que, indubitavelmente, há um nexo de causalidade entre as duas situações.
Neste sentido, aos estudos somam-se relatórios oficiais das autoridades norte-americanas de saúde, do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA e o Guia Médico sobre Violência na Mídia, editado pela Associação Médica Americana.
É de justiça assinalar que não se pode atribuir à televisão e aos demais meios eletrônicos de comunicação um papel único ou mesmo preponderante na geração da violência mundial. Os técnicos de saúde mental têm absoluta consciência da complexidade da tarefa de buscar a etiologia dos comportamentos violentos do ser humano. Há características individuais, além de sociais e ambientais, que concorrem para moldar a personalidade ou definir comportamentos, sobretudo a qualidade dos relacionamentos humanos. Não se pode dizer que os processos violentos e as situações agressivas sejam produto de causa única. Seria uma simplificação insustentável.
Há um mecanismo psíquico - conhecido pelos psicanalistas como mecanismo de identificação -, que pode ser de grande utilidade para o entendimento da importância da qualidade dos relacionamentos dos adultos com as crianças, bem como de todo o ambiente que serve de cenário para os relacionamentos entre os pais e a criança que se encontra em fase de desenvolvimento. O processo de identificação corresponde às experiências infantis, que proporcionarão a matéria-prima para a construção do indivíduo adulto. Os êxitos e as falhas no desenvolvimento da criança estão na origem do caráter adulto. Assim, dependendo de quais estímulos a criança recebeu, combinados com suas condições genéticas, o resultado será um adulto qualitativamente mais saudável ou não.
Surge aí a relevância da televisão. Além de entender a importância da educação familiar e do ambiente escolar, é preciso que se dimensione o papel desempenhado pela exposição da criança aos estímulos e à influência dos meios de comunicação, especialmente os eletrônicos. Na moldagem do psiquismo infantil, há modelos de adultos - pais, professores e outros heróis - com os quais a criança se identifica e que, por isso, influenciam decisivamente no comportamento dos filhos, alunos e fãs. Pela estrutura do mundo moderno, a criança passa muito mais tempo na companhia dos heróis da televisão que com o pai ou o professor. Milhões delas substituem a ausência familiar e compensam sua solidão pela companhia de uma tela colorida, ágil, múltipla e sempre presente e disponível. Os modelos de identificação, positivos e negativos, acabam emergindo desse conjunto de influência. Quanto menor e mais frágil a criança, mais influência sofrerá e mais suscetível será de encontrar num herói violento ou mau caráter o modelo no qual espelhará seu futuro. É nessa circunstância que se situa a importância social da televisão. Atrevo-me a dizer que ela deve ser tratada com a mesma preocupação que se dá à vida familiar saudável e à escola eficaz. Da mesma maneira que família e escola, também a televisão desempenha papel importante no desenvolvimento do indivíduo. Uns e outros são, portanto, decisivos na conformação da própria sociedade do futuro. Uma má programação de televisão, como um mau pai ou um mau professor, pode se juntar decisivamente a circunstâncias pessoais das crianças para se constituir em fator patogênico. Interações sutis repetitivas patrocinadas por programas de televisão podem ter influência (saudável ou maléfica) tão decisiva quanto fatos (felizes ou traumáticos) da vida real.
Não seria nem razoável nem inteligente pregar a censura ou qualquer medida que tenha essa conotação. As famílias e a sociedade têm, no entanto, o direito de exigir sistemas de controle que evitem distorções de conteúdo e inadequações nos horários de transmissão. Têm também o direito de esperar que as fantásticas potencialidades da televisão não se convertam em elementos de desintegração social. Instalada no recesso das casas, mostrando indistintamente heróis e vilões - muitas vezes sem promover a diferença entre ambos - exibindo sexo e violência com intensidade e freqüência, a televisão se transformou em algo que já não pode ser ignorado. É um veículo muito importante para que seu conteúdo fique apenas sob a responsabilidade das empresas que a exploram, seja do poder que a coordena, seja do arbítrio dos milhões de crianças, que são suas usuárias.
Cabe uma responsabilidade especial aos pais,
que, nos lares, podem determinar com que ênfase os
controles podem ser estabelecidos e dessa maneira determinar,
em última análise, que programa poderão exigir das
emissoras. Com seu potencial para representar uma alavanca
para a educação e a promoção do desenvolvimento do
indivíduo, a televisão precisa ser canalizada neste sentido.
Está em jogo a formação de gerações de jovens, que, por
acaso, são nossos filhos, nossos netos ou nossos alunos.
Está em tela, literalmente, o futuro do País.
| SUMÁRIO |
APRESENTAÇÃO
Guia Médico sobre Violência na Mídia
Uso da Mídia: Sugestões aos Pais
Conteúdo
Resumo
A Formação
O Impacto da Mídia
Recomendações
Fontes de Informação
Valores Sociais e Meios de Comunicação de Massa (Pesquisa RETRATO/IBOPE)
Uma Força a ser Utilizada
A Violência na Mídia: Aspecto Jurídico
O Poder Atribuído
A Violência e as suas Formas
O Poder da Imagem