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o impacto sobre a criança e o adolescente • texto completo |
| O Poder Atribuído |
Léo Voigt
Nada mais comum do que imaginar que as cenas de violência na televisão servirão como motivação para o desencadeamento de atos violentos na sociedade. Na minha opinião, nada mais falso porque é destituído de conhecimento. Gostaria aqui de refletir sobre isto.
Acreditamos nesta equação automática porque olhamos apenas o discurso proferido pelo meio de comunicação. Ao avaliar que o conteúdo desse discurso é de violência e de perversidade, concluímos, apressadamente, que o telespectador se identificará com tais valores e será estimulado a praticar ações semelhantes.
Costumamos estabelecer, equivocadamente, uma relação simples de causa e efeito quando, na realidade, estamos diante de um fenômeno bem mais complexo. Há de se saber diferenciar a capacidade mobilizatória da televisão, que é muito grande e que deve se direcionar para o interesse da sociedade, da capacidade manipulatória, pela qual imaginamos ser onipotente sobre comportamentos e mentes. A incompreensão destes dois elementos tem produzido um conjunto de críticas que não pertencem à televisão.
Para ilustrar, façamos uma analogia: uma criança que brinca com revólver de brinquedo não está sendo treinada para usar na vida adulta uma arma de verdade. Ao contrário, ela está elaborando impulsos e fantasias violentas que são próprias da infância e que, por terem sido adequadamente elaboradas, não a assaltarão à traição na maturidade. Só faz bang-bang na vida adulta quem não teve suficientes oportunidades de fazê-lo ludicamente na infância.
As pesquisas que investigam o poder da televisão operam uma ruptura importante: em vez da reincidente análise do discurso que a mídia profere, voltam-se à reveladora leitura do discurso do público que a vê. O clássico estudo da Antropóloga Ondina Fachel Leal sobre a novela das oito1 junto às classes populares é confirmado pela pesquisa do Ministério da Justiça, publicada neste subsídio. Nestes estudos - entre tantos - verifica-se que há uma complexidade maior de elementos entre o que foi proferido pelo discurso da mídia e o que foi assimilado pelo público. Ou seja, a mensagem da tv não é engolida tal qual é transmitida. Há um universo que determina, em cada lar, o modo como é assistida, como é interpretada e como seu discurso será reelaborado pelo telespectador. Acima disto, este público é formado por sujeitos que são diferentes, portadores de uma história pessoal e com uma determinada inserção social, fatores que desenvolvem decodificadores de mensagens que nunca são iguais. E isto é especialmente diferente entre distintas culturas nacionais ou étnicas.
Por outro lado, Renato Ortiz2 afirma que as massas são resistentes aos discursos que homogeneizam as práticas, seja para a manutenção do status quo ou para as propostas de transformação social. Nelas, todo o discurso unificador das práticas e das consciências se fragmenta, por características próprias da cultura popular. A capacidade que a novela tem de lançar modas e gírias é vista como sinônimo do seu poder condicionante. Na realidade, este é o seu limite. Ela não poderá interferir na vida e na trajetória das pessoas para além destes aspectos meramente fenomenicos. Jamais alguém se tornará violento por assistir um filme do Rambo ou os programas do Ratinho. São outras as determinantes da violência social, e bem mais profundas. Talvez o maior risco da televisão seja banalizá-la. Mas dar acesso a todos os tipos de informação, correndo-se o risco da banalização, é uma das conquistas que somente a televisão permitiu à humanidade.
2ORTIZ, Renato. A Consciência
Fragmentada: ensaios de cultura popular e religião. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
O estudo do Ministério da Justiça sublinha a importância informativa e formativa da tv. Devemos velar pela programação que nos é apresentada exatamente porque a televisão vem se constituindo em importante instrumento de conscientização e educação das massas. Portanto, devemos mobilizar pelo que tem de positivo: ela é um meio de acesso à informação. Possuir uma televisão na sala da casa é, principalmente para as classes populares, um passaporte simbólico de inclusão social. Ela produz a idéia de pertencimento, de fazermos parte do mesmo mundo que o restante da humanidade e, independente da condição sócio-cultural, podermos partilhar dos mesmos códigos de convívio social.
Por fim, assumir o esforço de relativizar o
seu poder não significa isentá-la de sua responsabilidade
social como meio de comunicação. Trata-se, antes de tudo,
de adequar e melhor direcionar a vigilância civil sobre
estes meios. Convém a uma sociedade verdadeiramente
democrática que os serviços de comunicação sejam uma
concessão pública, regulada pelo Estado e fiscalizada pela
sociedade através de suas diferentes organizações, entre
elas o parlamento. Os empresários da comunicação devem
ter consciência de que detêm uma permissão pública,
pois trabalham em um meio de interesse estratégico de
uma nação: a informação, o entretenimento e a educação.
| SUMÁRIO |
APRESENTAÇÃO
Guia Médico sobre Violência na Mídia
Uso da Mídia: Sugestões aos Pais
Conteúdo
Resumo
A Formação
O Impacto da Mídia
Recomendações
Fontes de Informação
Valores Sociais e Meios de Comunicação de Massa (Pesquisa RETRATO/IBOPE)
Uma Força a ser Utilizada
A Violência na Mídia: Aspecto Jurídico
O Poder Atribuído
A Violência e as suas Formas
O Poder da Imagem