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o impacto sobre a criança e o adolescente • texto completo |
| A Violência e as suas Formas |
Ondina Fachel Leal
Em se falando de violência, o primeiro ponto que o antropólogo deve chamar atenção é para o fato de que existem diferentes noções de violência. Ou melhor, o que cada sociedade entende como violência varia de sociedade para sociedade ou até mesmo de grupo para grupo, dentro de uma mesma sociedade. O segundo é que a violência é sempre uma forma de poder. De fato, em nossa sociedade, enquanto o Estado e as classes hegemônicas têm como recurso uma série de estratégias identificadas como não violentas de poder, ao dominado ou aos grupos subalternos, o exercício da violência em sua forma física - o roubo, o homicídio, o estupro - é possivelmente a única forma de poder destes grupos. Em terceiro lugar, é necessário observar que existem várias formas de violência e nem sempre a violência explícita, a violência física, é a forma mais perversa de violência. Todas as sociedades, em todos os tempos, cultivaram várias formas daquilo que nós, antropólogos, chamamos de violência simbólica, que pode ser definida como a internalização, por parte daquele que sofre a dominação da necessidade desta dominação e o reconhecimento de um papel necessariamente subalterno e passivo. Para Bourdieu, é esta força propriamente simbólica que permite a força exercer-se plenamente, fazendo-se desconhecer enquanto força e fazendo-se reconhecer, aprovar, aceitar, pelo fato de se apresentar sob a aparência de universalidade - a da razão e da moral.
Está claro que estas posições relativistas e relativizadoras, que são parte constitutiva do fazer antropológico, quando não se tratam de simples exercícios acadêmicos, podem facilmente se tornar - no mínimo - posições eticamente indefesáveis.
Mas, nosso tema aqui é a violência na mídia. Portanto, estamos falando de uma violência narrativa, ficcional - estética - diriam alguns. Cabe pensar então o que é esta violência veiculada na mídia. A mim, imediatamente, vêm imagens de um desenho animado Tom & Jerry, cenas de algum filme de gangster, crianças famintas em algum nordeste do planeta, pingüins mortos em praias manchadas de óleo, uma cinzenta nuvem atômica. Os flashes são muitos e minha memória os apresenta como slides que caem em seqüência. Penso em todas estas cenas como violência e na impossibilidade de hierarquizá-las em graus de violência, em uma escala de perversidade. Mas, certamente, o conteúdo das violências que tomei como exemplares da mídia equivalem-se entre si. Tampouco, apresentam o mesmo grau de nocividade em suas diferentes possibilidades de recepção e decodificações. Busquei no texto Sugestões para os pais do uso da mídia das Associações Médicas Americanas, ao que exatamente estava se chamando violência: Quais cenas, quais programas, quais ações, quais falas? Ocorreu-me que a questão talvez fosse inútil, pois da forma que o texto aborda o problema, violência é o Mal (ninguém duvidaria disto) e ele está disseminado por tudo (tudo aqui significando toda a programação, a produção, os espaços cibernéticos e virtuais dos impulsos luminosos e sonoros do medium) de tal forma que o próprio aparelho de televisão passa a ser o invólucro e emblemático deste Mal. Tomando-se isto como verdade, a solução apresentada pelo grupo de médicos é cândida: normatizar o acesso ao aparelho por meio do reforço da autoridade paterna.
O problema me parece muito mais amplo e complexo do que isto. Digo, muito mais complexo do que um problema de administração doméstica e de fórmulas de como dispor do aparelho de televisão na sala de estar. A responsabilidade social (e neste sentido moral) dos produtores e empresários da mídia não está sendo questionada.
Além disto, o efeito, relevância e eficácia de qualquer mensagem produzida pela indústria cultural será diretamente relacionada com a situação de recepção e decodificação desta mensagem. Uma sociedade individualizada ao extremo, como é o caso da sociedade norte-americana, com opções de sociabilidade muito diferenciadas da sociedade brasileira, por exemplo, no caso, relacional e hierárquica, a televisão e determinadas mensagens têm uma dimensão que não tem aqui. Não esqueçamos que a mesma programação que passa lá, de um modo geral, é apresentada aqui também. Os efeitos são diversos e o lugar que a televisão ocupa na vida das pessoas lá e aqui é muito diferenciado.
Poderíamos levantar uma hipótese: a de culturas ou sociedades do tipo narcisistas, isto é, culturas que se caracterizam por um
etnocentrismo exarcebado, por uma valorização do individualismo,
uma exaltação ufanista do estado nacional,
culturas autocentradas e autônomas, voltadas exclusivamente
para si ou que incorporam suas adjacências como parte de
si mesma, são culturas violentas. Isto é, sociedades onde
a guerra é um fator de organização e coesão social, e
onde os seus membros apresentam um comportamento
violento, ou onde este comportamento passa a ser um modo
de vida dentro desta sociedade. O interessante é que o
que podemos apresentar como exemplo deste tipo de
sociedade são dois pólos opostos, várias das sociedades
assim chamadas primitivas, que por seu isolamento e nível
sempre se pensava como únicas e como
umbigo do mundo e as sociedades industriais avançadas e pós-modernas, entre
as quais os Estados Unidos é exemplar. Nas primeiras, já
nos demonstrou Pièrre Clastres, na ausência do Estado, a
violência tem que ser controlada via ritual. Nas segundas,
o Estado e as instituições, que deveriam controlar a
violência, geram formas próprias de violência.
| SUMÁRIO |
APRESENTAÇÃO
Guia Médico sobre Violência na Mídia
Uso da Mídia: Sugestões aos Pais
Conteúdo
Resumo
A Formação
O Impacto da Mídia
Recomendações
Fontes de Informação
Valores Sociais e Meios de Comunicação de Massa (Pesquisa RETRATO/IBOPE)
Uma Força a ser Utilizada
A Violência na Mídia: Aspecto Jurídico
O Poder Atribuído
A Violência e as suas Formas
O Poder da Imagem