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FAO deve ser efetiva e menos burocrática, afirma Graziano

Para o novo diretor-geral da FAO, que assume dia 01/01, "pela primeira vez na história temos a oportunidade de erradicar a fome no mundo"

Ajudaria muito ter uma regulação para impedir que os alimentos sejam tratados da mesma maneira que os produtos financeiros - São Paulo

Pela primeira vez na história "temos a oportunidade de erradicar a fome no mundo", declarou José Graziano da Silva, que está em Roma e assume domingo a direção-geral da Organização da Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Ex-assessor do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e criador do programa Fome Zero, Graziano esteve à frente do escritório da FAO na América Latina desde 2006. Agora, a partir de 1º de janeiro, ele substituirá o senegalês Jacques Diouf na direção-geral do órgão.

"Minha escolha criou muitas expectativas, porém, as circunstâncias atuais são bastante desfavoráveis. As mudanças de governos e a crise econômica podem atrasar muitas medidas que pensava adotar com mais rapidez", advertiu Graziano.

Por isso, logo após assumir a direção geral, Graziano apresentará ao conselho da FAO uma lista dos países pobres que estão enfrentando o problema da fome. A ideia é "prestar toda a assistência técnica e financeira para atender estes países".

O principal obstáculo para acabar com a fome no mundo não é de caráter burocrático. "A fome segue vinculada à guerra. Os países onde proporcionalmente temos maior número de famintos são os que estão em conflito, como a Somália, por exemplo", lembrou o futuro diretor geral da FAO. "Sem dúvida, a situação na Somália é a nossa principal preocupação e, para poder dar respostas para esta questão, vamos coordenar melhor a atuação da FAO, do Programa Mundial de Alimentos e do Fundo de Desenvolvimento Agrícola", garantiu Graziano.

Outra intenção da FAO é frear a volatilidade nos preços dos alimentos, uma situação que Graziano acredita que pode melhorar com a presidência mexicana no G20. "Ajudaria muito ter uma regulação para impedir que os alimentos sejam tratados da mesma maneira que os produtos financeiros", afirmou.

A produção de biocombustíveis, as subvenções agrícolas e as barreiras comerciais são temas de natureza eminentemente política e econômica, mas que acabam afetando à segurança alimentar. Mas Graziano reconhece que existem limitações. "A FAO faz recomendações, mas são os governos que possuem autonomia política e administrativa para implementar tais ações", explicou.



Sem continuísmo

Eleito no último mês de junho com 92 votos, quatro a mais que o ex-ministro espanhol das Relações Exteriores, Miguel Ángel Moratinos, Graziano se propôs a "construir uma ponte" entre os países ricos e pobres, "já que a FAO não pode estar mais dividida no combate contra a fome".

Embora alguns analistas afirmem que a escolha é um triunfo do continuísmo, em uma organização que foi dirigida nos últimos 35 anos por representantes de economias em desenvolvimento, Graziano prefere considerar que se trata de um reconhecimento à contribuição dos países latino-americanos em busca da segurança alimentar mundial.

"Atualmente, na América Latina, temos 120 milhões de pessoas muito pobres que estão sendo assistidas para que possam viver com mais dignidade", Lembrou Graziano. "Aprendemos com a crise e contamos com uma melhor capacidade para enfrentar os problemas".

A atual crise econômica, que afeta os países desenvolvidos, pode fazer com que as contribuições que os países europeus e os Estados Unidos entregam para o funcionamento da FAO sejam reduzidas. "Sem dúvida que vai haver cortes. Já estamos preparados para isso", garantiu Graziano. "A estratégia será muito simples: usar melhor o orçamento e aumentar a cooperação técnica entre os países do sul", afirmou.

Para que os governos tomem consciência da necessidade de impulsionar a segurança alimentar, Graziano pensa em usar a mesma fórmula aplicada na América Latina: promover leis de segurança alimentar, encorajar a participação da sociedade civil e implementar programas de alimentação escolar.

O final do mandato de Graziano, em 2015, coincidirá com o termino do prazo dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, elaborados pela FAO, sendo que o primeiro é a erradicação da pobreza extrema e da fome. "Podemos dar um bom exemplo. Os países em desenvolvimento podem estar sendo melhores representados", assegurou Graziano, que sonha em tornar a FAO uma organização "menos burocrática e mais efetiva".

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