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Você está aqui: Página Inicial Edições Anteriores Vol. 5, Nº 2 - 2015 Poemas no Ônibus: relato de experiência no estágio docente

Poemas no Ônibus: relato de experiência no estágio docente

O presente relato é fruto da nossa prática como professoras durante o estágio docente no curso de Letras, no primeiro semestre de 2014. A prática aqui relatada ocorreu em uma escola pública próxima à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) na cidade de Viamão. A turma em que esse projeto foi desenvolvido estava no 8º ano (7ª série) do Ensino Fundamental e era identificada nesse contexto escolar como T81.

Nós estivemos com os alunos da T81 durante, aproximadamente, três meses, totalizando 25 horas/aula. Foi durante esse período que desenvolvemos o projeto A minha língua também rima em que os alunos foram incentivados a discutir variação linguística, ler poemas, discutir poesia e, finalmente, escrever um poema. As versões finais foram inscritas no concurso da cidade de Porto Alegre chamado “Poemas no Ônibus e no Trem”.

 

Contextualização

A escola em que desenvolvemos nosso projeto está localizada em uma comunidade de periferia na cidade de Viamão. Por estar localizada em tal lugar, muitos alunos que frequentavam a escola se encontravam em situação vulnerável. Na turma 81, onde realizamos o estágio, contávamos com 42 alunos na chamada e em torno de 40 alunos presentes em sala de aula. A maioria dos alunos encontrava-se na seriação adequada, entretanto, havia alunos entre 13 e 17 anos de idade. Sobre a professora regente da turma, na primeira conversa, ela nos pediu que trabalhássemos alguns conteúdos gramaticais durante o nosso estágio, sendo esses os discursos direto e indireto, sentido conotativo e denotativo e o gosto pela leitura. Buscamos integrar esses conteúdos através de textos relacionados à temática do nosso projeto e de tarefas que fossem significativas para o produto final a ser produzido. Porém, encontramos algumas dificuldades em integrar o discurso direto e indireto ao nosso projeto.

 

Projeto         

Antes de entrarmos em sala de aula efetivamente como professoras estagiárias, observamos a turma por uma semana. Foi a partir dessa observação preliminar e das primeiras conversas em sala de aula com os alunos que percebemos como eles discutiam muito sobre variação linguística mesmo sem uma instrução explícita durante as aulas observadas. Assim, decidimos que essa seria a temática do nosso projeto a ser desenvolvido com a turma 81.

Depois de decidida a temática, foram selecionados diversos textos para trabalharmos em aula. Logo no começo, encontramos alguns poemas que tratavam sobre o assunto e, por esse motivo, esse gênero foi escolhido como gênero estruturante do nosso projeto. Depois de selecionados os textos, começamos a delinear o cronograma e as tarefas que seriam realizadas, mas deixamos o nosso cronograma livre para adaptações conforme fossem surgindo questões dos alunos.

 

Pressupostos Teóricos

Preparamos nossas aulas tendo em mente que o ensino de língua deve considerar o texto como unidade básica da aula de língua portuguesa. De acordo com essa perspectiva, levamos o texto para a sala de aula e partimos de um estudo do gênero tomando em conta suas estabilidades e instabilidades. Isso está em consonância com o que está apresentado nos Referenciais Curriculares do Rio Grande do Sul (doravante RCs, 2009), onde se afirma que “a unidade em torno da qual se faz todo o trabalho de Língua Portuguesa e Literatura é o texto, ponto de partida e de chegada, em torno da qual todas as tarefas propostas aos alunos se estruturam” (RCs, p. 54).

Dessa forma, durante o projeto, privilegiamos primeiramente a leitura dos textos e, a partir deles, desenvolvemos um trabalho que ajudasse os alunos a entender melhor os recursos linguísticos presentes nas leituras para que assim pudessem iniciar ou aprimorar a escrita do produto final.

 

Prática

A seguir, relatamos as atividades que realizamos com os alunos. Durante as nossas aulas, fizemos muitas atividades em grupos e pares e também optamos por fazer aulas mais dialogadas e não tão expositivas em que o controle da aula estivesse apenas com as professoras, propondo uma aula diferente daquela que os alunos estavam tendo no componente curricular de língua portuguesa.

 

Aula 01: Nessa primeira aula, criamos com os alunos um mapa conceitual no quadro, discutindo o que os alunos entendiam como variação linguística. Os alunos entenderam que variação linguística estava associada com formas diferentes com que as pessoas falavam.

Aula 02: Nessa aula, trabalhamos com o poema “Vício na Fala” de Oswald de Andrade. Primeiro, colocamos no quadro as palavras que aparecem de forma não-padrão no poema: “mio”, “teia” e “teiado”. Pedimos que os alunos tentassem adivinhar a qual palavra essas se relacionavam. Discutimos quem poderia usar essa variedade da língua e quais seriam as características dessas pessoas. A ideia da discussão era fazer com que os alunos percebessem que todos utilizamos formas não-padrão, mesmo que não fossem as mesmas do poema. Por fim, discutimos de que forma a conclusão se relacionava com o resto do poema.

 Aula 03: Discutimos as respostas dadas às questões realizadas na aula anterior. Os alunos notaram que as palavras presentes no texto, em geral, perdiam o “lh”. Eles também sugeriram que o último verso do poema se relacionava com o fato de que as pessoas falam de formas diferentes, mas fazem coisas semelhantes. Nós discutimos as questões com eles e aceitamos todas as respostas desde que eles pudessem argumentar com os elementos do texto. Nosso objetivo era mostrar para eles que o sentido de um texto não é fechado ou único. Ainda nessa aula, abordamos o discurso direto e indireto. Decidimos abordar esse conteúdo no início do projeto, aproveitando que o poema trabalhado usa expressões como “para dizerem”.

Aula 04 e 05: Continuamos, nessas aulas, trabalhando sobre o discurso direto e indireto. Primeiro, corrigimos alguns exercícios sobre esse recurso linguístico. Em seguida, esquematizamos no quadro como os verbos se alteram quando passamos do discurso direto para o indireto.

Aula 06: Começamos a trabalhar com os quadrinhos da Turma da Mônica que havíamos selecionado para iniciar a discussão a respeito de variação linguística. Iniciamos a aula perguntando se os alunos conheciam quadrinhos. Depois, passamos algumas questões no quadro.

 

1 - O que torna cada uma das tirinhas engraçada?

2 - Alguns personagens falam de forma diferente de outros. Por que eles falam assim?

3 - Você acha que eles falam errado? Dê razões para sua resposta.

4 - Qual é a relação entre as tirinhas da Mônica e o poema “Vício na fala”?

 

Nosso objetivo era que, com a fala do personagem Chico Bento, conhecido pelo uso da linguagem do campo, e do Cebolinha, famoso por utilizar o “l” no lugar do “r”, pudéssemos começar com o assunto variação linguística.

Aula 07: Fizemos um questionário sobre variação com os alunos, com perguntas como: Você diz a) Nessa sala cabe trinta alunos ou b) Nessa sala cabem trinta alunos? O objetivo era mostrar que mesmo dentro da mesma turma os alunos poderiam falar de formas diferentes. Depois que todos os alunos responderam as perguntas, começamos a mostrar no quadro as respostas diferentes dos alunos, mostrando que na turma 81 também havia variação. Em seguida, apontamos para os alunos como a gramática dizia ser o correto. Aproveitamos essa oportunidade para conversamos sobre o que significava variação linguística novamente e apresentamos nossa ideia sobre escrever poemas que se relacionassem com o tema assim como o poema que já havíamos lido. Os alunos ficaram muito empolgados com a ideia de escrever poemas.

Aula 08: Iniciamos a aula falando sobre o concurso “Poemas no Ônibus e no Trem”. Explicamos que esse é um concurso de poemas e que os ganhadores publicam um livro na feira do livro, além de ter o seu poema divulgado nos ônibus de Porto Alegre. Demos continuidade à aula trabalhando com o poema “Convite” de José Paulo Paes, presente nas orientações para a Olimpíada de Língua Portuguesa, e trabalhamos a diferença entre Poema e Poesia.

Aula 09: Iniciamos a aula questionando se os alunos se lembravam do poema estudado na aula passada e trabalhando aspectos como: a) é necessário que um poema rime? b) todos os poemas são sobre amor? c) qual a diferença entre poema e poesia? O objetivo dessas perguntas era relembrar o que nós já havíamos discutido. Em seguida, apresentamos o poema “Pronominais” de Oswald de Andrade.

Primeiro, lemos o poema com a turma para que eles pudessem perceber elementos da sonoridade. Depois, fizemos algumas perguntas relacionadas ao poema para que os alunos discutissem em grupos. Esse poema trabalhava como os negros e os brancos na visão do autor falavam e, por isso, queríamos chamar atenção dos alunos para essas diferenças e propusemos que a discussão fosse feita em grupos para que eles pudessem trocar experiências sobre como as pessoas com quem elas conviviam falavam.

Aula 10: Começamos a aula com os alunos reportando o que havia sido discutido nos grupos. Conversamos sobre a necessidade do comprometimento deles com as tarefas propostas em aula, pois alguns deles não haviam feito a tarefa da aula anterior.

Em seguida, falamos sobre o concurso de poemas. Explicamos que os poemas que eles escrevessem em aula seriam enviados para esse concurso e então apresentamos as regras para inscrição. Posteriormente, questionamos alguns aspectos sobre o poema que os alunos iriam escrever como: a) Quem vai escrever o poema? b) Para quem? c) Com que finalidade? d) Onde o texto será publicado? Nosso objetivo com essa atividade era lembrar os alunos de quem era o interlocutor do seu texto e quais os objetivos em escrever um poema para o concurso “Poemas do Ônibus”.

Aula 11: Nessa aula, os alunos escreveram a primeira versão do poema. Primeiro, relembramos os critérios que seriam avaliados no concurso. Durante a escrita, passávamos na classe deles para ajudá-los. Ao final da aula, todos os alunos entregaram o seu poema para que pudéssemos ler a primeira versão.

Aula 12: Os alunos preencheram a ficha de inscrição para o concurso. Durante a aula, mostramos onde encontrar o número da sua identidade, o órgão emissor, além de explicar o que “M” e “F” queria dizer em sexo, pois algumas alunas acreditavam que “M” fosse para mulher e preencheram essa opção. Alguns alunos precisaram levar a ficha para casa, pois não estavam com a identidade ou não sabiam seu endereço.

Aula 13: A fim de apresentar outro gênero onde a poesia estivesse envolvida, resolvemos trazer uma canção do Gabriel O Pensador chamada “Linhas Tortas”.

Aula 14: Entregamos a primeira versão do poema dos alunos com os nossos comentários e escrevemos no quadro os critérios de seleção do concurso junto com um poema que havia sido selecionado pelo concurso no ano anterior. Depois pedimos para que os alunos avaliassem os seus poemas e também o poema vencedor com relação aos critérios do concurso. Eles preencheram essas tabelas e, depois, fizeram a reescrita dos seus poemas. Tudo isso foi entregue no fim da aula.

Aula 15: Começamos a aula chamando a atenção dos alunos para o fato de que eles não deveriam ter copiado seus poemas da internet. Para mostrar para os alunos que eles não poderiam copiar, lembramos que um dos critérios do concurso era ineditismo do trabalho. Então, voltamos para o tema do projeto perguntando se os alunos sabiam o que era rima e qual era a função da rima no poema. Trabalhamos com diferentes tipos de rima.

Aula 16: Nosso objetivo nessa aula era apresentar outros recursos que os alunos poderiam usar no seu poema e também apresentar a eles mais um poema. Acreditamos ser importante aumentar o repertório dos alunos com relação ao gênero que eles estão escrevendo. Portanto, apresentamos o poema “Duas dúzias de coisinhas à toa que deixam a gente feliz” de Otávio Roth. Primeiro, lemos o poema para os alunos. Em seguida, propusemos alguns exercícios para que os alunos fizessem em grupos, discutindo elementos do poema. Depois que todos haviam discutido as perguntas, corrigimos os exercícios aceitando a opinião dos alunos e as suas justificativas.

Aula 17: Os alunos fizeram a terceira reescrita do poema. Lembramos a eles que esta seria a versão final e aquela que seria enviada para o concurso. Falamos novamente sobre os critérios do concurso antes que eles começassem a reescrita. Os alunos reclamaram um pouco sobre ter que escrever o mesmo poema de novo, muitos argumentaram que se as outras versões do poema estavam boas, por que então eles precisavam reescrever o poema? Para acalmar os ânimos, explicamos que era muito difícil que qualquer trabalho escrito ficasse pronto na primeira vez que escrevemos e que eles deveriam levar em consideração nossos comentários para fazer então poderem fazer o aperfeiçoamento dos poemas. Por fim, eles escreveram a última versão do poema e entregaram também a ficha de inscrição completa.

Aula 18: Como não sabíamos se algum dos poemas escritos pela turma 81 seria selecionado, optamos por construir um livro impresso, que entregamos aos alunos, com todos os poemas, para que eles pudessem guardar e lembrar futuramente do projeto. Com o livro, acreditamos que o resultado do projeto ficou mais palpável do que apenas enviar os poemas para o concurso.

Nessa aula, distribuímos aos alunos o livro construído com os poemas deles. Primeiro, os alunos puderam ler todos os poemas, então escolhemos um professor da escola para entregar uma cópia do livro autografada. A seguir, uma imagem da versão final do livro.

 

10a

 

Considerações finais

Acreditamos que, por não ser costume que os alunos trabalhassem com projetos, muitos não entenderam, no início, a nossa prática como aula “de verdade”. Foi necessária muita conversa com os alunos e a produção do poema final para que eles percebessem que também estavam aprendendo. Como experiência docente, ficamos muito felizes com o resultado do nosso estágio, visto que aprendemos muito sobre dar aula em uma escola regular, especialmente sobre como lidar com o comportamento dos alunos e motivá-los para a realização das tarefas.

Além disso, percebemos que a aula de língua portuguesa vai muito além do ensino de gramática. Para que os alunos conseguissem escrever o poema e enviar para o concurso, outras habilidades estavam em jogo, como entender as regras do concurso e preencher a ficha de inscrição. Outro fator importante foi a tomada de consciência dos alunos a respeito do plágio, pois muitos deles achavam que copiar os seus poemas de outras pessoas não era um problema.

O que fica dessa experiência é que, sim, é possível trabalhar a escrita com os alunos, ainda mais se eles tiverem como objetivo uma produção que vá além da sala de aula. Por fim, nenhum dos poemas dos alunos venceu o concurso, mas a recompensa de ver seu esforço publicado em um pequeno livro já contou bastante!

 

Referências

 

RIO GRANDE DO SUL, Secretaria de Estado da Educação, Departamento Pedagógico. Referenciais curriculares do Estado do Rio Grande do Sul: linguagens, códigos e suas tecnologias. Porto Alegre: SE/DP, 2009.

 

 

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