A disputa de tratamentos contra o HIV em Moçambique

Na cultura Tsonga, saberes locais e políticas hegemônicas não dialogam na hora de tratar a doença
Nosta da Graça Mandlate
Pesquisa fez parte da dissertação de mestrado de Nosta da Graça Mandlate - Foto: Rochele Zandavalli/UFRGS

No trabalho que moveu sua dissertação de mestrado, defendida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS, a pesquisadora Nosta da Graça Mandlate focou-se na etnia Tsonga, de Moçambique, para explorar os conflitos existentes entre as abordagens e os tratamentos do HIV na medicina convencional e na tradicional. “A minha proposta era estudar a doença a partir do meu país, e eu não queria abrir mão de contribuir nesse sentido”, diz a moçambicana, que atualmente reside no Brasil, onde realiza seu doutorado em Antropologia.

Nosta passou oito meses em seu país natal realizando a pesquisa de campo. Acompanhou cerca de 60 pacientes HIV positivo no distrito de Xai-Xai, capital da província de Gaza. Realizou entrevistas individuais e acompanhou os tratamentos tanto na rede tradicional quanto na convencional, observando a relação entre clínicos e pacientes, e conversando com médicos das duas redes. Uma das principais questões levantadas nas entrevistas era se os pacientes em tratamento com antirretrovirais utilizavam, em paralelo, outros medicamentos, possivelmente vindos da medicina tradicional.

Apesar de os pacientes serem alertados de que misturar os tratamentos recebidos na clínica e nas redes de cura é proibido, não há como os médicos monitorarem sua conduta. Por essa razão, Nosta busca ressaltar em seu trabalho a falta de diálogo que existe entre essas correntes e como ela é potencializada, tendo por um lado a hegemonia da medicina convencional e, por outro, as configurações sociais da cultura Tsonga.

“Muitos escritos, ainda hoje, tratam o HIV sob uma lente ocidental, culpando a falta de conhecimento das pessoas sobre o tratamento biomédico [aquele praticado de forma institucionalizada] pelo crescimento da doença”, conta a pesquisadora. Para Nosta, o que esses estudos falham em perceber é que as políticas adotadas pela medicina convencional não são inclusivas, pois deixam de levar em conta a cultura local.

Assim como Moçambique, há outros países onde existem redes de cura cujos métodos se diferenciam daqueles praticados pelos médicos convencionais. Segundo sua dissertação, são esses meios, chamados de tradicionais, que os pacientes tendem a buscar primeiro. Por vezes, nem chegam a procurar alguma mediação – muitos vão direto às práticas que conhecem, administrando autonomamente ervas que curam dor de cabeça, por exemplo.

Com um pai farmacêutico e uma mãe enfermeira, a pesquisadora conta que teve contato com o assunto desde muito cedo. Já na infância tinha acesso a revistas e materiais sobre o HIV e explica que o conteúdo costumava ser bastante preconceituoso. Na verdade, Nosta não acredita que os estigmas da doença tenham diminuído desde então. Para ela, essa impressão é falsa e sentida apenas por quem não trabalha diretamente com o tema. Ela exemplifica apontando que muitos artigos da literatura brasileira sobre a doença demonstram que a condução dos hospitais ainda leva pacientes a se sentirem desconfortáveis com a sua situação.

“Eu penso que ainda prevalece em todas as sociedades a questão do preconceito. Ninguém fala que tem HIV de forma mais aberta, como quem fala da diabetes ou da malária”, explica. As pessoas ainda relacionam muito o HIV com a promiscuidade, devido ao modo como a doença normalmente é contraída. “Por mais que não seja algo que vá ser tacitamente julgado, existe esse ocultamento, esse acobertamento que o paciente faz.” Por questões como essa que Nosta destaca a importância de estudar e compreender o problema de um ponto de vista sociológico, pois os tratamentos dependem da análise do cotidiano dessas pessoas e de suas relações interpessoais. Em especial na cultura Tsonga, é importante notar como, em um primeiro momento, os pacientes tendem a se voltar para seus entes e antepassados, e como isso influencia no adoecimento e no tratamento do indivíduo.

É preciso entender a relação que existe entre essas pessoas e seu meio, seus vizinhos mais próximos e seus parceiros. Nesse último caso, por exemplo, fica evidente o papel da fidelidade na propagação do HIV, de forma ainda mais alarmante no que diz respeito às mulheres. “Em quase toda parte é o patriarcado que está em voga”, explica Nosta, apontando para uma subalternidade feminina universal, que torna a mulher normalmente submissa em todas as questões do relacionamento. Entre os Tsonga, isso contribui para inibir a prevenção, já que a mulher que exige o uso de preservativos, além de ser vista como promíscua, sofre com a inexistência de um lugar de negociação entre ela e seu parceiro. O homem é tido como o provedor e, desde a infância, é educado para ser aquele que defende a família e cria condições de subsistência para ela, enquanto a mulher deve ser doméstica. Apesar de dizer que atualmente essa situação está começando a mudar, a pesquisadora ressalta o quão fundamental é, para diminuir essas desigualdades, que se abordem academicamente os assuntos de forma contra-hegemônica, exaltando conhecimentos locais pelo olhar de pessoas oriundas desses lugares.

A subalternização dos saberes locais pela biomedicina tira dos pacientes a liberdade de conversar com os médicos sobre o assunto. Não só se sentem intimidados em questionar sobre a possibilidade de acolher outras abordagens como não lhes é dado espaço nem mesmo para discutir a existência de alternativas – é como se fosse “apenas um momento de busca por comprimidos”, explica Nosta. Além disso, mesmo dentro da medicina convencional, existem linhas de tratamento diferenciadas. Uma delas, por exemplo, distribui a dosagem dos remédios durante o dia, enquanto outra é concentrada em uma única aplicação diária, com efeitos colaterais bem mais fortes. Essa última, entretanto, é a que normalmente é imposta aos pacientes, que só descobrem sobre as outras opções posteriormente.

“Se você vai num consultório, é necessário que o médico esteja aberto para ouvir e ter um diálogo”, enfatiza a doutoranda. Para ela, um profissional não tem como receitar determinada medicação a um paciente sem conhecer os seus hábitos e comportamentos, que, afinal, podem interferir no tratamento. E isso implica levar em conta as redes tradicionais de cura. Nosta alerta que a própria biomedicina registra eventualmente casos de overdose nesses lugares e que as políticas de inclusão da medicina tradicional acabam, na verdade, aparelhando as instituições biomédicas na supervisão e inibição das práticas dos saberes locais.

 

Tese

Título: “Se não nos cozinharem não melhoramos”: disputas entre a medicina convencional e a tradicional em torno do HIV/SIDA na etnia Tsonga em Moçambique
AutoraNosta da Graça Mandlate
OrientadorJosé Carlos dos Anjos
Unidade: Programa de Pós-Graduação em Sociologia

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