“A expressão artística é sempre política”

Trabalho examina a história do teatro gaúcho das últimas décadas a partir da visão de diretores e atores
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz surge durante o período de ditadura militar, em 1978 – Foto: Arquivo da Tribo

Foi a partir do segundo semestre de 2012 que Clóvis Massa, professor do Departamento de Arte Dramática da UFRGS (DAD), deu início à realização de entrevistas com artistas que trabalharam em Porto Alegre e que tiveram contato com o DAD em sua formação. O trabalho, intitulado Fontes orais sobre o teatro em Porto Alegre: memórias de diretores sobre suas trajetórias artísticas na pós-ditadura, traz uma abordagem histórica do teatro na cidade e os modos do fazer teatral na transição do período de ditadura militar para o da redemocratização política.

Questões sobre o teor político do teatro feito em Porto Alegre nessa época e as diferentes concepções artísticas foram o que motivaram Massa a desenvolver entrevistas em profundidade – o que tem sido uma experiência única, segundo o pesquisador. “A memória de cada um guarda ou esconde coisas, e a forma como cada um fala do seu passado e o ressignifica através de imagens que são citadas, ou o tom ou as pausas que usa para abordar determinados assuntos, acabam sendo tão interessantes quanto o seu conteúdo.”

Há alguns anos, o professor pesquisa a história e as perspectivas do teatro em Porto Alegre, investigando personalidades, grupos e espetáculos. Começou entrevistando artistas locais que participaram de companhias importantes do teatro brasileiro, como Laís Dias, viúva de Pereira Dias. Ambos trabalharam com Procópio Ferreira. Depois passou a estudar as manifestações modernas do teatro gaúcho, como o Teatro de Equipe, o Teatro de Arena, o Grupo Província, o Teatro Vivo e o Grupo Tear: “Esses grupos que atuaram ou ainda estão em atividade podem ser compreendidos dentro do seu contexto histórico, pois mantêm estrita relação com o seu momento, com o teatro que se fazia e com a maneira como se expressavam diante dos poderes e dentro da sociedade”.

Conforme a pesquisa, a delimitação sobre o teatro feito durante o processo de transição é bastante tênue, porque, apesar da luta pela anistia aos presos e perseguidos políticos ter mobilizado vários movimentos sociais ainda em meados da década de 1970, a Lei da Anistia somente foi promulgada em 1979, ainda durante a ditadura militar, e o processo de redemocratização ocorreu de forma lenta, gradual e restrita.

Muito do que se faz hoje já estava na prática de muitos grupos da cidade: “Em alguns espetáculos realizados a partir do final dos anos 1960, produzidos pelos alunos e professores do antigo CAD [Centro de Arte Dramática], as propostas já incluíam o teatro de imersão, no qual o espectador é um participante ativo durante o espetáculo”, exemplifica.

A formação artística e o contato com o Departamento durante a trajetória dos artistas têm destaque no trabalho. Logo, a conexão com o período conturbado do então Centro de Arte Dramática aparece em várias entrevistas, como a cassação e a aposentadoria compulsória de dezenas de professores da Universidade, em 1969, por motivos políticos, e os esforços para que o curso não fosse fechado pela falta de professores. “Ainda que, no período da Legalidade e, após, na Ditadura, o Teatro de Equipe e o Teatro de Arena, tenham sido considerados espaços de resistência dos artistas, grupos como o Província, ligado à Universidade, do qual o corpo docente do curso se demitiu após o afastamento do diretor Gerd Bornheim, tiveram um papel revolucionário importante durante o regime”, afirma Clóvis.

De acordo com o pesquisador, o projeto tem muito a contribuir para o desenvolvimento e o conhecimento a respeito do teatro, a partir das possíveis relações entre suas origens, o estado do fazer teatral no presente e as perspectivas futuras. Algo que demonstra um resgate da memória e da luta contra o esquecimento do que se passou naqueles anos de repressão. “A expressão artística é sempre política. Se a cena representa a realidade e serve para sua melhor compreensão, ou se propõe a conscientização e induz a mudança social, como se fazia no teatro moderno, há sempre um caráter político nesse espelhamento ou na funcionalidade da arte”, reflete.

 

Artigo científico

MASSA, Clóvis Dias. Fontes orais sobre o teatro em Porto Alegre: memórias de diretores sobre suas trajetórias artísticas na pós-ditadura. Revista Cena, v. 17, p. 3, 2015.

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