Arte funerária vem sendo abandonada e perde espaço para crematórios

Com enfoque nos cemitérios São José I e II, estudo traça a história da arte funerária local e ressalta a importância da preservação dos monumentos
Pesquisadora constatou o abandono e a depredação dos jazigos e propõe a implantação de um memorial da arte cemiterial - Foto: Rochele Zandavalli

A palavra cemitério se origina do latim coemeterium, que significa “lugar onde se dorme”. Ao decorrer da história, esses lugares passaram por constantes modernizações. Com o aumento da população e, consequentemente, do número de pessoas que vêm a falecer, os grandes monumentos funerários estão sendo substituídos por pequenos túmulos, e a arte cemiterial, por crematórios. Luiza Fabiana Neitzke de Carvalho estudou o assunto em sua tese de doutorado em Artes Visuais pela UFRGS.  A pesquisadora foca na história dos cemitérios São José I e II em Porto Alegre, que pertencem à comunidade de alemães católicos São José.

História

Numa visão histórica, a arte funerária se inicia com materiais como pedra grês e porcelana, e com túmulos menores, principalmente nos cemitérios alemães. No início do século XIX, há o ápice na colocação de monumentos funerários em mármore, com muitas esculturas de anjos, pranteadoras e santos. No século XX, as virtudes teologais se destacam. A partir dos anos 1930, começa a fase na qual o granito e as obras de arte sacra no bronze, como Pietás (arte cristã que representa a Virgem Maria com o cadáver de Jesus no colo) e Cristos, ganham evidência. Outra tendência é a de representar militares ou até mesmo o próprio morto. No Rio Grande do Sul, há o fenômeno do “gauchismo”, conforme o qual os monumentos funerários passam a retratar os gaúchos. Posteriormente, os jazigos se tornam mais simples, começam a diminuir de tamanho e muitas vezes se resumem a pequenas gavetas.

Iconografia

Anjo e cruz como elementos iconográficos do monumento funerário – Foto: Rochele Zandavalli

Entre as alegorias e índices iconográficos que mais aparecem nos monumentos funerários, estão:

  • Cruz: pode indicar a opção religiosa da família e também é um símbolo de morte;
  • Anjos: alguns possuem adornos que aparecem junto com a escultura, como buquês de flores na mão, indicando saudade, ou a palma, que é um sinal de vitória. Tem o que segura um archote (tocha) virado para baixo, que é um símbolo de morte. O anjo que tem uma trombeta nas mãos é uma alegoria ao juízo final, chamando os mortos para o julgamento;
  • Tocha: metáfora da vida eterna e, no cristianismo, representa o fervor religioso;
  • Virtudes teologais: esculturas que representam uma virtude
    e têm nas mãos um objeto, como: a fé, que segura uma cruz; a esperança, que segura uma âncora; a justiça, que segura uma espada; a caridade, com uma criança no colo;
  • Orantes: esculturas que aparecem com as mãos unidas em sinal de oração;
  • Pranteadoras: esculturas que levam as mãos ao rosto em sinal de lamento. Algumas possuem véus grandiosos e são muito dramáticas;
  • Pombas: símbolo do Espírito Santo, na visão cristã;
  • Videira: representa a relação entre o homem e Deus;
  • Caveira: símbolo da vaidade e da morte.

A pesquisadora salienta que esses significados dependem do contexto simbólico em que estão inseridas, podendo variar de acordo com a religião ou a cultura do falecido.

Materiais

O arenito, também conhecido como pedra grês, é mais comum em túmulos pequenos e, segundo Luiza, o Rio Grande do Sul possui uma produção muito rica desse material. O mármore é a preferência dos artistas. Ele possui durabilidade e é considerado nobre, além de ser esteticamente bonito. Quanto melhor a sua qualidade – como, por exemplo, a do mármore branco e o de Carrara –, mais caro é. O bronze também é um material importante e caro e, assim como a porcelana, é utilizado em adornos e esculturas. “Eles dão uma aparência muito luxuosa ao monumento”, diz a pesquisadora.

Rituais de sepultamento

Os rituais de sepultamento também foram se modificando com o passar do tempo. Antigamente, havia cortejos fúnebres que passavam de carruagens pela cidade. Quanto mais poderoso fosse o falecido, mais pomposo era o cortejo.  “Pelotas é um exemplo interessante: havia uma carruagem fúnebre para adultos e uma para ‘anjinhos’ (crianças) e moças virgens. A dos adultos era preta e a dos anjinhos e moças virgens era branca”, explica Luiza. Outro ritual era o de colocar um aparato na porta de casa, representado por uma mão segurando um pano preto, indicando que faleceu alguém ali. Havia também o luto, no qual as pessoas se vestiam de preto por um período de tempo ou, se fosse a viúva, para o resto da vida.

Hoje o cortejo fúnebre ainda acontece, por exemplo, quando uma pessoa famosa falece, porém é feito de carro. O velório ainda é o ritual mais comum. A pesquisadora comenta sobre o ritual da cremação, no qual o caixão entra em uma espécie de nicho e vai desaparecendo lentamente, geralmente acompanhado por música. Na cremação, há a possibilidade de sepultamento das cinzas ou de espalhá-las em outro local ou em um memorial do próprio cemitério. Outras opções são guardá-las em columbários, que são nichos de parede onde se colocam as cinzas – ou até transformá-las em um diamante. “Cada vez se sepulta menos porque não há espaço. A questão do túmulo sempre lembra o cadáver se desfazendo, o que corrobora para que não se construam mais. A cremação é uma solução ideal, porque liberta o corpo. Também é muito prática, pois a família não precisa ficar pagando anuidades de jazigo”, comenta Luiza.

Necrópole

Porto Alegre possui um conjunto de necrópoles – “cidade dos mortos” de diversas religiões. Como, por exemplo, o cemitério católico, no qual o pranto, a dor, o lamento extremo das famílias são evidenciados. “As esculturas quase gritam. Possuem muita ornamentação. É um cemitério apinhado, que tem jazigos muito grandiosos, tipo capelas ou mausoléus. Têm uma mescla de iconografia laica e iconografia cristã”, salienta Luiza. Já o cemitério evangélico é mais arborizado e procura integrar o homem à natureza. Possui menos esculturas, não têm santos e, nos da capital, há muitas pranteadoras.

Cemitério dos Artistas

O Cemitério dos Artistas é um grande atrativo do Cemitério São José. Neles estão os túmulos de Miguel Friederichs (fundador da Marmoraria Casa Aloys), de João Grünewald (construtor da Cúria Metropolitana e da antiga igreja do bairro Menino Deus), da família Weingärtner (expoente da história da arte acadêmica do Rio Grande do Sul), de Henrique Germano Rüdiger (artista de renome, seu túmulo foi transferido para o Cemitério São Miguel e Almas), entre outros. A Casa Aloys é uma marmoraria destacada pela pesquisadora que funcionou entre 1884 e 1960. “Ela colocou monumentos funerários em todo o Estado e importou muitos da Alemanha. Também colocou artes em igrejas e praças”, comenta.

Monumento da família Weingärtner composto pela pranteadora segurando o archote, símbolo que representa a morte. Pode-se observar também a má conservação do túmulo – Foto: Rochele Zandavalli

Construção dos crematórios

No final da década de 1990, os cemitérios São José passam a ser administrados por uma construtora especializada em crematórios, a qual não renova os arrendamentos das unidades tumulares dos familiares que possuíam terrenos. Esse fato culminou, segundo Luiza, na perda das obras de arte funerária e da memória da Comunidade São José, em uma lacuna dentro do patrimônio da arte cemiterial de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul; na perda dos próprios sepultados; e em um grande prejuízo às obras da Marmoraria Casa Aloys. Luiza comenta que lá existem “túmulos muito valiosos em termos de pesquisa”.

Segundo a pesquisadora, a cremação coloca a arte funerária em risco, ao mesmo tempo que a enaltece. Os monumentos viram um legado histórico, mas, com essa prática, a colocação de arte funerária nos túmulos se torna cada vez mais rara. Esses jazigos contam a história do falecido e são a memória da cidade. A sua diminuição acaba valorizando tanto em termos financeiros quanto de memória e cultura.

“Não temos parâmetros de preservação, critérios do que manter e do que não manter. A legislação diz que, aqui no Rio Grande do Sul, para construir um crematório, é preciso ter um cemitério. Não estão estabelecidas as prerrogativas para se construir um crematório – se se irão manter os túmulos ou se serão retirados para o uso do espaço. Os monumentos correm o risco de serem retirados para a construção de um prédio ou de um estacionamento. É o que aconteceu com o exemplo que estamos analisando na tese”, evidencia Luiza.

A escultura sem cabeça e a sujeira no monumento da foto acima retratam o descaso e a depredação, visíveis em diversos túmulos nos cemitérios – Foto: Rochele Zandavalli

 Abandono e depredação

Os maiores problemas que a pesquisadora observou nos cemitérios em geral foram o abandono e a depredação dos jazigos, a ausência de inventário, o vandalismo e o roubo. Os túmulos não estão bem conservados, alguns foram abandonados, outros chegam a desmoronar. Segundo Luiza, é muito caro mantê-los. “Para fazer a manutenção correta do monumento, o ideal seria ter um profissional da conservação e restauração, o que também agrega custo.” Os túmulos muito antigos apresentam vários problemas, como sujeira, oxidação do bronze, fissuras e fraturas no mármore, porcelanas quebradas ou com partes perdidas. “Isso tudo vai descaracterizando tanto a pedra quanto o monumento. Alguns eventualmente sofrem manutenção, outros passam por reformas que os descaracterizam completamente.” Outra questão é a da posse da família sobre o jazigo, sendo que nada pode ser modificado sem a sua autorização.

Alternativas

Para mudar isso, a pesquisadora sugere alternativas, como uma legislação que garanta o inventário e a divulgação da arte funerária e até a sua inclusão em roteiros turísticos e visitação de escolas. Também aponta a necessidade de desenvolvimento de um arquivo para conservar a memória da arte por meio de documentos e de incentivo financeiro para a conservação das obras e a vigilância efetiva dos patrimônios. “É necessário que haja uma coexistência entre a modernização do cemitério e a preservação da arte funerária”, salienta.

Memorial da arte cemiterial

Segundo Luiza, além do registro da história desses cemitérios, que seria perdida e esquecida, “a tese levantou um problema que até então não tinha visibilidade: a questão da perda da arte funerária para a modernização dos cemitérios. O Ministério Público bloqueou a retirada dos jazigos para que eu pudesse pesquisar e fazer a tese. E, por fim, o resultado: a implantação de um memorial da arte cemiterial”. Ainda sem data para a sua inauguração, o memorial será um espaço de gestão patrimonial do cemitério e de suas obras que oferecerá ao público a oportunidade de conhecer melhor o que tem ali e atuará em prol da preservação das obras mais importantes.

Tese

TítuloHistória e arte funerária dos cemitérios São José I e II em Porto Alegre (1888-2014)
AutoraLuiza Fabiana Neitzke de Carvalho
OrientadorFrancisco Marshall
Unidade: Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais

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