Artigo propõe passos para superar as barreiras de produção científica entre países do norte e do sul

Pesquisadores de diversos países apresentam propostas para a promoção da internacionalização da produção científica
cena de queimada em um campo devastado
Pesquisa aponta que os países mais vulneráveis às mudanças climáticas são os que menos contribuem com estudos sobre o assunto - Foto: Russ Allison Loar/Flickr - CC BY-NC-ND 2

As consequências do aquecimento global não afetarão uniformemente todo o planeta. Diversas regiões com alto risco de impacto negativo causado pelas mudanças climáticas são encontradas em partes menos desenvolvidas do globo e que frequentemente têm pouca capacidade de adaptação. Esses locais possivelmente mais vulneráveis são, entretanto, os que menos contribuem com estudos em relação às mudanças climáticas. A produção científica relevante ao assunto, que é capaz de influenciar práticas e políticas governamentais em relação às alterações do clima, é predominantemente controlada pelos países ricos – que emitem mais carbono e são menos vulneráveis –, criando análises imprecisas sobre o tema, que focam apenas nos locais menos necessitados de estudo. Ademais, os pesquisadores dos países subdesenvolvidos e emergentes enfrentam dificuldades no acesso à informação, a falta de investimento tanto dentro de seus países quanto fora, e o preconceito advindo dos editores de nações mais desenvolvidas. É clara a existência de uma divisão acadêmica entre os países “do norte”, desenvolvidos, e os países “do sul”, subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, o que prejudica estudos de diversos assuntos, como o próprio aquecimento global.

Buscando alterar esse cenário da produção científica, acadêmicos de diversas áreas de conhecimento e de diferentes regiões do mundo escreveram o artigo Steps to overcome the North–South divide in research relevant to climate change policy and practice (Passos para superar a divisão norte-sul em pesquisas relevantes para políticas e práticas a respeito de mudanças climáticas, na tradução em português), publicado em janeiro no periódico científico Nature Climate Change. Os trabalhos tiveram origem com os pesquisadores Malgorzata Blicharska, da Swedish University of Agricultural Sciences, da Suécia, e Saleemul Huq, da Independent University, de Bangladesh, que possuem uma forte ligação com os estudos relativos às mudanças climáticas. A pesquisa une esse tema ao problema da divisão acadêmica entre hemisférios e propõe um caminho para promover a internacionalização da produção científica mundial. São apresentados 31 passos para que organizações governamentais, intergovernamentais, instituições e programas de pesquisa e editores de periódicos internacionais tornem as pesquisas dos países menos desenvolvidos igualmente relevantes para a produção do conhecimento.

Dentre os passos, está a sugestão de que organizações internacionais invistam em instituições de países emergentes ou subdesenvolvidos e deem suporte financeiro para estudantes desses locais desenvolverem seus estudos nos países nativos, criando bolsas e desenvolvendo cursos a distância. O artigo propõe também que governos de países desenvolvidos e organizações intergovernamentais estabeleçam programas e redes de pesquisa entre diferentes países que garantam a participação igualitária entre pesquisadores de regiões em diferentes situações de desenvolvimento e que editores de periódicos internacionais tenham políticas de boas-vindas para pesquisadores do sul, reduzindo taxas e provendo serviços editoriais gratuitos.

Uma das limitações enfrentadas pelos acadêmicos do sul, entretanto, é justamente o preconceito de editoras do hemisfério norte, que dificultam publicações de pesquisas que não contenham a participação de cientistas dos países desenvolvidos. Segundo a pesquisadora e professora do Departamento de Psicologia da UFRGS Silvia Koller, uma das autoras do artigo, editores pedem muito mais dados e detalhes a pesquisadores do sul do que pediriam, em comparação, a um pesquisador europeu ou estadunidense. Ela conta que a Universidade de Harvard possui um escritório em Moçambique para que ao menos as pesquisas realizadas pelos cientistas locais da universidade não sofram com tal discriminação.

Entre os 14 autores responsáveis pelo artigo, foram reunidos engenheiros, químicos, psicólogos e acadêmicos em geral de lugares como Bangladesh, Brasil, Costa Rica, Nepal, Quênia, Reino Unido e Suécia. Os pesquisadores evitam, assim, cometer um dos erros que buscam corrigir ao longo dos seus passos: a má tradução de dispositivos científicos de um país para outro. É muito comum a utilização de criações científicas de países norte-americanos e europeus em países subdesenvolvidos ou emergentes, sem a preocupação com as diferenças culturais, sociais e geográficas dessas diferentes regiões, resultando em estudos rasos e imprecisos. Silvia conta o exemplo de um colega pesquisador que desejava que a professora utilizasse em um questionário a seguinte pergunta: “Os jovens brasileiros tiram a neve das calçadas no inverno a fim de juntar dinheiro para o verão?”, demostrando o desconhecimento desse autor em relação ao país pesquisado. A professora relata ainda que conheceu pesquisadores dos EUA que estiveram no Peru, na Colômbia e no Brasil estudando os habitantes desses países, colhendo informações e publicando-as em artigos, sem falar uma palavra das línguas nativas desses locais, podendo gerar uma grande imprecisão nos seus resultados.

Silvia afirma que sempre se preocupou com o cerne da produção científica, por fazer parte do meio acadêmico, e acha importante a discussão a respeito da divisão entre norte e sul dentro desse meio. Além disso, acredita que as mudanças climáticas afetam o ser humano e sua percepção sobre si mesmo – sendo nesse contexto que a Psicologia se encaixa no artigo. “As alterações do clima já são visíveis, afetam o mundo inteiro e praticamente não podem mais ser revertidas. As situações de desastres naturais, terremotos, enchentes e secas (tão comuns no nosso país) levam a muitas migrações, além daquelas que ocorrem por conta de guerras ou em busca de melhores condições de vida. Como essas mudanças afetam o ser humano e sua percepção de si mesmo? A Psicologia entra nesse sentido”, explicou a professora.

Atualmente, a pesquisadora trabalha como professora visitante na Harvard Graduate School of Education e como pesquisadora visitante na Harvard T.H. School of Public Health, ​com uma bolsa de estágio sênior CAPES. Após estar insatisfeita com a situação no departamento de psicologia da UFRGS, viajou para os EUA para, segundo ela, fugir da desconsideração da Universidade com algumas de suas divisões. Silvia aponta como um dos grandes obstáculos da produção acadêmica e da vida dos pesquisadores da UFRGS um desequilíbrio entre diferentes departamentos da instituição, o que poderia se resolver com uma distribuição mais igualitária dos recursos dentro da Universidade.

Como pesquisadora brasileira, Silvia afirmou que um dos principais métodos utilizados por ela e pelas colegas para trabalhar – mesmo com os problemas internos, com as dificuldades da divisão norte-sul e para dar continuidade a uma produção científica que tenha alcance fora do país – foi nunca parar de se esforçar e produzir, sem deixar os obstáculos afetá-las: “Nunca produzimos tanto academicamente, talvez por estarmos muito tempo trabalhando em casa”.

A publicação do artigo com a proposta dos passos já está dando frutos. O texto foi um dos mais lidos da Nature Climate Change nos meses de janeiro e fevereiro, e a professora já foi convidada para participar em um workshop promovido pelo Comitê Internacional da Society for Research on Adolescence (SRA) sobre como superar os preconceitos das editoras dos países desenvolvidos. Os preparativos para o evento são realizados neste mês em Austin, Texas.

 

Artigo científico

BLICHARSKA, Malgorzata et al. Steps to overcome the North–South divide in research relevant to climate change policy and practice. Nature Climate Change, v. 7, n. 1, p.21-27, 4 jan. 2017.

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