Autofagia: como as pesquisas premiadas com o Nobel de Medicina são aplicadas na UFRGS

O professor do Departamento de Biofísica Guido Lenz explica a importância do prêmio para a área e como o assunto é utilizado nas pesquisas científicas
Yoshinori Ohsumi foi o ganhador do Prêmio Nobel de Medicina por por suas descobertas sobre os mecanismos de autofagia - Ilustração: Niklas Elmehed/The Nobel Foundation

Oferecido desde 1901, o Nobel de Medicina já reconheceu o trabalho de mais de 200 pessoas. Neste ano, o prêmio foi para o cientista Yoshinori Ohsumi, por suas importantes descobertas sobre os mecanismos de autofagia. De acordo com o professor do Departamento de Biofísica da UFRGS Guido Lenz, este é um processo de reciclagem e limpeza de componentes celulares, em que desde proteínas até organelas são levadas para dentro de uma vesícula chamada autofagossomo, onde são reutilizadas como fonte enérgica. “Possui função dual: retirar das células componentes que não estão funcionando de forma correta e produzir energia reciclando esses componentes”, afirma Guido.

As pesquisas de Ohsumi foram cruciais para a compreensão do papel da autofagia em doenças neurodegenerativas, câncer, diabetes tipo 2, entre outras. “As descobertas de Ohsumi levaram a um novo paradigma o nosso conhecimento sobre como as células reciclam seu conteúdo”, declarou a Assembleia do Nobel, em um comunicado. Em entrevista à organização do prêmio, o pesquisador afirmou estar surpreso com a condecoração. “Agora temos ainda mais perguntas do que quando comecei”, destaca Ohsumi. Atualmente ele é professor do Instituto de Tecnologia de Tóquio e o sexto cientista nascido no Japão a receber o Nobel de Medicina.

O conceito de autofagia foi descoberto por volta dos anos 1960, mas pouco se sabia sobre isso até o início dos anos 1990, quando Ohsumi fez uma série de experimentos com levedura para identificar os genes envolvidos na autofagia. O pesquisador induziu, através de substâncias químicas, mutações em diversos genes para verificar se as mudanças afetavam o processo de autofagia nas células de levedura. Em um ano, ele já tinha identificado os primeiros genes ligados à autofagia, o que permitiu que as proteínas envolvidas nesse processo fossem detectadas. No total, Ohsumi identificou 15 genes essenciais para a autofagia.

Segundo o professor Guido, este é um processo biológico básico, pois é encontrado em praticamente todos os organismos. Ele destaca que a autofagia diminui gradativamente conforme o envelhecimento e sua indução está associada com o aumento da longevidade de um organismo. “O jejum, ou seja, comer pouco, é uma forma de ativação da autofagia e faz organismos viverem mais tempo”, acrescenta. A autofagia também está relacionada com doenças neurológicas. “Durante isquemias, por exemplo, a autofagia é induzida e é importante para proteger os neurônios até certo limite, pois se passar desse limite, ela acaba matando os neurônios”, afirma o professor. Também é importante destacar o impacto no desenvolvimento de cânceres. De acordo com Guido, “durante o desenvolvimento inicial do câncer, a autofagia elimina as células tumorais, mas em estágios mais avançados, ajuda as células do câncer a sobreviver”.

O professor Guido conta que a autofagia já estava se destacando na ciência nos últimos dez anos, mas que, para o público geral, o Prêmio Nobel ajuda a divulgar a área, especialmente por ser um assunto apelativo. “Todo mundo quer viver mais, ninguém quer ter câncer ou problemas neurológicos, então é fácil convencer as pessoas de que esse é um assunto interessante”, afirma. Ele ainda observa a importância do prêmio ir para uma ciência básica que se tornou aplicada. “Ele [Yoshinori Ohsumi] fez uma pergunta para tentar entender a vida, e só depois que as pessoas foram descobrir como isso era importante para a saúde humana”, observa. Guido também criticou o grande incentivo para pesquisas na ciência aplicada. “Todos querem estudar as células do câncer, mas se não tivesse alguém estudando a levedura para explicar como funciona a autofagia, nós não teríamos os conceitos básicos que precisamos para entender a célula do câncer, então, nesse sentido, prêmios são ótimos, pois colocam em perspectiva esse tipo de coisa”, afirma.

As pesquisas nesse campo na UFRGS são voltadas para o estudo da autofagia em resposta à quimioterapia. “A ideia simplista é de que a autofagia protege a célula da morte, mas aqui nós mostramos que ela tem dois lados: assim como ela pode proteger da morte, ela pode ajudar algumas células a morrerem”, conta o professor. Ele afirma que a autofagia muito alta faz com que as células tumorais morram. A muito baixa faz com que elas morram de uma forma diferente, mas a mediana faz com que elas sobrevivam. No estudo, os pesquisadores estão estimulando a autofagia antes da quimioterapia e a inibindo três dias depois. “Nós estamos vendo quais são os pontos ideias para alterar os níveis de autofagia e como alterá-los, para que o quimioterápico funcione melhor” destaca.

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