Combatendo a obesidade com Economia

Pesquisadora propõe métodos tributários em alimentos de maior índice calórico para prevenir o aumento da obesidade no Brasil
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Estudo aponta que o aumento do preço de alimentos de alta densidade calórica pode incentivar a diminuição de seu consumo - Foto: Paulo Pocas/Flickr - CC BY-NC 2.0

A economista Larissa Cardoso propõe, em sua tese de doutorado, pequenos ajustes econômicos que influenciariam positivamente o combate à obesidade no Brasil. Segundo a pesquisa, o problema atinge mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo, fazendo dele o maior desafio de saúde pública da atualidade. Porém, aponta também que o governo vem atacando a situação de um ângulo equivocado: tentamos apenas auxiliar os já obesos e nos esquecemos de encontrar métodos que previnam que o resto da população migre para esse estado.

Assim, o trabalho presume uma relação direta entre os preços dos alimentos mais calóricos e o índice de massa corporal dos indivíduos (ainda que admita que no Brasil não existam dados o suficiente para comprovar essa ligação) e, a partir disso, tenta identificar a magnitude dessa influência. O maior ou menor custo afeta quanto as decisões dos consumidores? Por fim, com os resultados obtidos, seu trabalho tenta identificar o papel que os preços dos alimentos podem ter na prevenção da obesidade no Brasil.

Ela explica que esse tipo de método ainda é bastante incipiente em outros países e que no Brasil é inexistente. Na Dinamarca, impostos do tipo foram adotados em 2011, mas extintos apenas um ano depois, desacreditados pelo governo. Um estudo feito pelas universidades de Oxford e de Copenhagen, contudo, constatou que a inciativa fez com que os dinamarqueses consumissem 4% a menos de comidas calóricas durante o período. No México, a medida foi instaurada em 2013 e continua ativa depois de já ter demonstrado resultados. Enquanto isso, lugares como a França, a Hungria, a Irlanda e o Reino Unido observam os impactos de empreitadas mais comedidas dentro dessa ideia.

Larissa espera que sua tese, que teve pesquisas divididas entre a UFRGS e a Universidade Illinois, em Chicago, associada a outros trabalhos, possa criar condições para que se desenvolvam políticas públicas para lidar com o problema por aqui. A doutora diz que a pesquisa já gerou alguns frutos: os ensaios que compõem a tese foram submetidos e apresentados em congressos nacionais e internacionais, e agora estão em fase de preparação para publicação em revistas.

Em um dos ensaios, Larissa propõe um aumento tributário de 10% sobre as bebidas açucaradas. Os resultados da experiência mostraram que os impactos econômicos seriam mínimos e acabariam compensados pelo desenvolvimento de outros setores. Ela explica que esse ramo tem ligações fracas com outras linhas de produção, pois depende pouco delas, assim como não é extremamente vital para outros setores – em outras palavras, funciona dentro de seu próprio nicho. Sua demanda é voltada para o consumo final, principalmente de famílias, portanto, segundo simulação, um aumento de 10% não afetaria a economia do país e ainda reduziria aproximadamente R$ 35 bilhões nas despesas domiciliares brasileiras (cerca de 2 %), influenciando, por fim, na redução de 6,1% no consumo individual desses produtos.

Essa, porém, seria apenas uma medida que se poderia adotar para prevenir a obesidade. Larissa aponta que o peso extra da população acaba gerando despesas para o governo, que tem de lidar com os problemas de saúde que dele decorrem. Esse mesmo governo, porém, foca seus esforços apenas em tratar os casos já consolidados dessa “epidemia”, ou seja, aqueles que já sofrem com a obesidade. “Deveríamos tentar impedir que a população dita ‘normal’ migre para as estatísticas de sobrepeso”, ela diz, apontando que vem aumentando a quantidade de pessoas com excesso de peso no Brasil – entre os homens, esse número passou de 3,1% em 1985 para 21,7% em 2009 e, entre as mulheres, foi de 7,6% a 19,4% no mesmo período. Isso, de acordo com a pesquisadora, poderia ser associado a uma queda no preço dos alimentos calóricos em meados da década de 2000. Porém, também ressalta que o país não tem uma cultura de hábitos muito saudáveis, o que vai contra qualquer política de prevenção.

A industrialização da produção de alimentos gerou toda uma leva de comidas menos saudáveis. Além disso, as mudanças tecnológicas acomodaram a população em hábitos mais sedentários ao bombardeá-la com propagandas, telas e outras distrações. A taxação, portanto, seria um método de equilibrar esses novos comportamentos sociais e incentivar novos hábitos. Larissa admite, entretanto, que as evidências em que se baseia foram tiradas de países desenvolvidos, que, em geral, não sofrem com problemas como a fome. Ainda que vise propor uma solução econômica para um problema de saúde, reconhece que isso não seria suficiente para atingir efetivamente aqueles com maior concentração de renda, e seus métodos seriam mais percebidos nas classes intermediárias.

A pesquisadora expõe, porém, que já tem uma proposta de análise com uma abordagem metodológica mais avançada para desenvolver em cima de seu ensaio sobre o aumento tributário. Quer verificar agora não só os efeitos intersetoriais, mas o equilíbrio geral da tributação dentro dos mercados produtivo e financeiro. Além disso, aponta que as lacunas deixadas por sua tese favorecem o surgimento de pesquisas que queiram explorá-las. Por exemplo, o seu ensaio leva em conta um período muito curto (de um ano para o outro) e precisaria de outros dados para conseguir fazer uma previsão mais sólida. Outro ponto é que a proposta sobre as bebidas açucaradas contabilizou apenas o consumo domiciliar desses produtos, que também estão disponíveis em outros ambientes comerciais. Ela ressalta, entretanto, a singularidade da abordagem que a tese proporciona, pois encontra um ponto de vista econômico que une os lados de saúde e os de direito da questão.

 

Tese

Título: Essays on economics of obesity and food prices: theory and evidences for Brazil
Autora: Larissa Barbosa Cardoso
Orientador:
Giacomo Balbinotto Neto
Unidade: 
Programa de Pós-Graduação em Economia

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