Conhecimento e protagonismo feminino no campo

Projeto de pesquisa demonstra que mulheres rurais e suas mobilizações ampliam o alcance da discussão em torno das plantas medicinais
Galpão de madeira com um cartaz no qual se lê "Camponeses em luta pela soberania alimentar"
Contatos com as mulheres rurais foi feito por meio das direções dos principais movimentos sociais do campo no Rio Grande do Sul - Foto: divulgação

Flávia Charão Marques é doutora em Desenvolvimento Rural e professora na Faculdade de Agronomia e no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR) da UFRGS. Há bastante tempo, tem estudado os benefícios das plantas medicinais; o atual projeto de pesquisa que ela coordena, no entanto, apresenta outro olhar, gerando debates sobre saúde e desenvolvimento tecnológico, por exemplo. “Esse tema acabou abrindo outras portas, como o direito de as pessoas escolherem por onde se tratar, o papel da mulher. Envolve um encontro de diferentes conhecimentos”, explica Flávia.

Mulheres e Biodiversidade: plantas medicinais, conhecimento e aprendizagem coletiva no Sul do Brasil tem apoio do CNPq, da Secretaria de Políticas para as Mulheres e da Secretaria de Desenvolvimento Agrário. O projeto tem buscado entender como as mulheres mobilizam seus conhecimentos e como seu trabalho dialoga com as lutas das mulheres. Historicamente, segundo Flávia, o cuidado está atrelado ao papel feminino: cuidar da saúde, dos filhos, da casa, da comida. Assim, o conhecimento sobre as plantas acabou sendo desenvolvido pelas mulheres. “Ao colocarem seus saberes à disposição, o cuidado passou a ser extensivo para o âmbito da comunidade. Essas mulheres cuidam da soberania alimentar, do meio ambiente, umas das outras”, afirma a pesquisadora.

Para compreender como essas práticas estavam relacionadas às lutas das mulheres, a estratégia adotada consistiu em entrar em contato com representantes das direções dos principais movimentos sociais do campo no Rio Grande do Sul, como Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Federação dos Trabalhadores na Agricultura (FETAG) e Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (FETRAF). A pesquisa priorizou a observação, a descrição e o registro de aspectos da vida social, de categorias local e socialmente construídas. De acordo com o trabalho, o uso de plantas medicinais está relacionado a um acervo de saberes, conhecimentos, práticas e tecnologias que persistem enraizados na vida cotidiana das mulheres e ajudam a compor um variado quadro de intervenções populares na saúde e nos processos de cura.

Flávia diz que não tem como precisar o número de mulheres pesquisadas, porque muitas foram ouvidas durante reuniões coletivas desses movimentos. “Questionamos como as práticas e os conhecimentos acerca das plantas medicinais e seus usos vêm sendo construídos por mulheres rurais; que condições objetivas estão envolvidas nesses processos e, ainda, que redes de relações são mobilizadas e como elas estabelecem estratégias de resistência ou rompimento das barreiras que se apresentam”, conta.

Conforme a coordenadora da pesquisa, a presença maciça das mulheres nos movimentos que reivindicam a legitimação das práticas populares em saúde é o que justifica a motivação do projeto. “As mulheres rurais e suas mobilizações ampliam o alcance da discussão em torno do tema das plantas medicinais para além da valorização apenas como um ‘recurso natural’, que pode ser incorporado a dinâmicas de desenvolvimento econômico”, relata. Além disso, esse último aspecto, de acordo com Flávia, acabou por influenciar significativamente as atividades e debates desencadeados pelo projeto: “Incluiu elementos associados às reivindicações por melhoria de qualidade de vida, emancipação das mulheres, luta contra violência doméstica e visibilização do trabalho feminino”, completa.

 

Materiais oriundos do projeto:

Samper, Adriana; Benvegnú, Vinícius Cosmos. Transformando Saberes, Emancipando Mulheres: a experiência de uma Farmacinha Comunitária no Brasil Meridional. Coletânea sobre estudos rurais e gênero: Prêmio Margarida Alves 4ª Edição / Karla Hora, Gustavo Macedo, Marcela Rezende (orgs.). Brasília: MDA, p. 17-34, 2015.

Benvegnú, Vinícius Cosmos. Entre Dádivas e Resistências: o primado da relação entre mulheres camponesas no litoral norte do Rio Grande do Sul. Trabalho de Conclusão de Curso – Bacharelado em Ciências Sociais. UFRGS, Porto Alegre, 2014.

Erice, Adriana Samper. Espaço de Vida, Espaço de Luta. Espaço de vida, espaço de luta: um estudo etnográfico da Farmacinha Comunitária da Solidão em Maquiné, Rio Grande do Sul.  Dissertação de Mestrado em Desenvolvimento Rural, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2015.

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