Da periferia à academia

Fenômeno carioca do passinho é tema de trabalho de conclusão de curso da UFRGS
Integrantes do grupo Dream Team do Passinho
Pesquisador analisou três clipes do grupo Dream Team do Passinho - Foto: divulgação

“É papel do pesquisador, que tem interesse que a academia se democratize, abordar temáticas que tenham a ver com o cotidiano popular, tratando-as como objeto tão rico como qualquer outro”, afirma o publicitário graduado pela UFRGS Ramiro Simch. Identificado com o movimento Hip-Hop e interessado pela cultura popular, Ramiro desenvolveu como trabalho de conclusão de sua graduação a pesquisa: Da periferia ao mainstream: uma análise semiótica do percurso cultural do passinho.

O “passinho”, como ficou conhecido, é um movimento de dança oriundo das favelas do Rio de Janeiro que surge na metade dos anos 2000, lançando novas coreografias para o estilo funk. Por ser praticado por pessoas de diversas idades e ter se espalhado rapidamente, o fenômeno chamou a atenção do pesquisador. Além disso, Ramiro inspirou-se no seu trabalho de iniciação científica com o grupo Corporalidades, que estuda a ruptura de sentidos em corpos midiatizados por meio da Semiótica da Cultura – “uma corrente pouco utilizada no Brasil”, segundo ele. “Eu procurei analisar como o passinho – em tão pouco tempo – conseguiu sair de uma periferia tanto geográfica como cultural”, diz.

Orientado pela professora Nísia Martins, Ramiro coletou vídeos, reportagens e entrevistas e percebeu que o grupo Dream Team do Passinho “era a principal face midiática do movimento”. Foram analisados três videoclipes dos dançarinos – um deles lançado durante a pesquisa. No videoclipe intitulado “De Ladin”, Ramiro concluiu que, após participar de muitos programas de televisão, o grupo passou a apresentar características diferentes: “No terceiro clipe, eles já estão muito mais próximos do pop do que do funk tradicional”, conta. A análise indica que depois de ser absorvida pelos meios de comunicação tradicionais, essa expressão artística teve de adotar um padrão que é mais bem aceito pelas elites. No entanto, o reconhecimento que os dançarinos vêm ganhando como artistas é destacado de forma positiva na monografia.

O trabalho, além de dialogar com autores do audiovisual, como Arlindo Machado, também destaca a cultura da convergência com o autor Henry Jenkins: “O passinho usou muito a internet pra ser visto fora da favela e pra ser visto pela mídia hegemônica”, diz. Estudando um fenômeno recente, Ramiro teve dificuldades com a bibliografia, mas garante que a distância física não atrapalhou graças à  rede mundial de computadores: “O jeito que eu realizei esse trabalho é a própria metáfora do jeito que meu objeto se desenvolveu, utilizando os meios digitais”, completa.

Depois de a pesquisa ter sido apontada como um dos destaques do Salão UFRGS 2015, Ramiro acredita que o trabalho pode ser continuado, já que possui outros vieses para serem analisados. Mas, sobretudo, o pesquisador espera que um tema como esse contribua para que os olhares da academia se voltem para o que acontece além dos muros da universidade: “É quem está lá fora que faz as tendências e que faz o mundo girar”, reflete Ramiro.

 

Trabalho de Conclusão de Curso

Título: Da periferia ao mainstream: uma análise semiótica do percurso cultural do passinho
Autor: Ramiro de Oliveira Simch da Silva
Orientadora:  Nísia Martins do Rosário
Coorientadora: Adriana Pierre Coca
Unidade: Curso de Comunicação Social: Habilitação em Propaganda e Publicidade

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