Divulgação de prêmios científicos na mídia é tema de estudo

Foram analisadas as repercussões dos prêmios Capes de Tese e Capes-Elsevier no jornalismo
homem folheando uma revista
Premiações analisadas ainda são pouco noticiadas pela mídia de massa e desconhecidas pela maioria da população - Foto: Rochele Zandavalli/UFRGS

Os prêmios científicos são o ponto de partida para a divulgação dos avanços realizados por pesquisadores no país, muitos deles financiados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Grande parte dessas premiações, entretanto, é pouco noticiada pela mídia de massa, sendo desconhecida pela maioria da população. As pesquisas que trazem melhorias à nossa qualidade de vida se transformam em pequenas notas em sites institucionais, e dificilmente vão além disso. Foi justamente para compreender de que maneira esses eventos e realizações eram divulgados ou ignorados que a jornalista Rebeca de Paula Peres Schirmer de Bem desenvolveu a sua pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências da UFRGS. O tema de estudo surgiu a partir de sua própria experiência como funcionária da Capes. Quando entrou na instituição, ela não tinha conhecimento prévio da existência e da importância desses prêmios.

Foram analisadas duas premiações diferentes para avaliar a maneira como foram divulgadas na mídia. Uma delas é o prêmio Capes de Tese, o carro-chefe do órgão do governo que fomenta a pesquisa brasileira. Todos os anos são premiadas as melhores teses de doutorado do país em diferentes áreas de conhecimento. Os vencedores recebem uma compensação financeira como incentivo para continuar o trabalho. O segundo prêmio analisado foi o Capes-Elsevier, que considera o conjunto da obra de um pesquisador ao longo da carreira. Esse é um prêmio feito em conjunto com a Elsevier, uma das editoras médicas mais publicadas no mundo inteiro, e concedido com base nos índices de publicação e no impacto da produção científica na comunidade internacional, além do número de mestres e doutores orientados pelo pesquisador. A professora do Departamento de Bioquímica da UFRGS Angela Wyse, orientadora de Rebeca, já foi agraciada com esse prêmio em 2014. Para ela, a divulgação desses prêmios é essencial para dar visibilidade à ciência e possibilitar que as pessoas tomem conhecimento dos avanços que estão sendo realizados no país. “Se tu divulgas um prêmio, isso mostra para a sociedade que existem pesquisadores nossos que ganham esses prêmios, que são importantes para a pesquisa nacional. A população gosta de ver que ganhamos”, explica Angela. Rebeca ainda complementa: “A maior parte das pessoas ainda não enxergou o quão importante é investir nas pesquisas; elas ainda não sabem a dimensão disso e não sabem dar valor aos pesquisadores e às pesquisas desenvolvidas no nosso país”.

Além disso, as premiações são uma maneira de aproximar os pesquisadores da sociedade, demonstrando a importância das universidades públicas, que são líderes de pesquisa no Brasil. Com as premiações internacionais, o país também sobe nos rankings mundiais de universidades, que geram oportunidades de melhoria para as nossas instituições nacionais. Para Angela, é importante mostrar como o investimento que foi feito nesses acadêmicos é revertido em melhorias de qualidade de vida para toda a população. “Quantos milhões de pesquisas que vão dar um retorno positivo para a sociedade e que ninguém se interessa? Os meios de comunicação têm a função de mostrar o que os nossos pesquisadores estão produzindo”, explica Rebeca. Atualmente, a maioria da divulgação feita é em sites institucionais. Houve um aumento no número de reportagens em sites de maior tráfego, mas é ainda muito pequeno quando comparado à quantidade de notas publicadas. “Tem muito que evoluir, porque trabalhos bons para fazer matérias não faltam”, diz a jornalista. Angela conta que São Paulo e Rio de Janeiro têm a tendência de divulgar mais do que o Rio Grande do Sul e que também os prêmios internacionais causam mais interesse na mídia. “Não é comum tu ser entrevistado a partir de um prêmio que tu recebes”, ela revela.

De acordo com a pesquisa realizada com auxílio do Google em busca das matérias que noticiaram esses prêmios no período entre 2006 e 2016, a divulgação do prêmio Capes Tese aumentou 90% em sites de grande acesso desde o primeiro ano da análise, enquanto o Capes-Elsevier aumentou 50%. Ainda assim, predomina o número de notas com informações básicas sobre as premiações. Apesar da tendência positiva que o país mostra, ainda é necessário abrir mais espaço para essas pesquisas nos noticiários. “Para isso, são necessárias a capacitação adequada dos profissionais da notícia e a perspectiva de um novo olhar aos cursos de graduação e pós-graduação em jornalismo científico no país”, aponta Rebeca na sua dissertação. Ela afirma que a linguagem da divulgação se tornou mais acessível para a população e os leigos, o que é importante para a compreensão dos resultados obtidos por essas pesquisas premiadas. Para ela, a falta de interesse pode ser resultado da busca do jornalismo por notícias que se acredita irão interessar à população em geral, categoria em que esses prêmios não se encaixam. “Quando chega uma pesquisa legal, algo que vai enaltecer o nosso país, parece que ela não vende”, fala.

Angela acredita que é necessário mudar esse tipo de cultura e passar a divulgar coisas que enalteçam o país e que agreguem conhecimento aos leitores. É preciso mostrar o que é feito na área científica no Brasil e também no nosso estado para a sociedade. “Quando as pessoas veem um prêmio, elas se comovem. Principalmente nesse momento em que as coisas estão tão depreciativas, nós precisamos disso”, expressa. A união entre a universidade, os pesquisadores e a mídia é essencial para fazer essa divulgação, pois é através dela que a ciência também avança. “Falta um pouco de comunicação, das próprias empresas de jornalismo irem atrás das universidades, pesquisarem e verem o que está sendo produzido, porque coisa boa tem, tem muita coisa interessante, muita coisa que interessa à população”, declara Rebeca. A capacitação de jornalistas na área científica é um passo a ser tomado para que sejam habilitados a transmitir essa informação de maneira que qualquer pessoa possa entendê-la e compreender a sua relevância para a sociedade. Entretanto, como Rebeca discorre em sua pesquisa, é necessária mais iniciativa de ambos os lados: “Além do trabalho desses jornalistas, é preciso também o empenho de pesquisadores. É também função deles popularizar a ciência”.

Ela diz que esse tema tem muito o que ser estudado ainda e que se deve pensar também na falta de divulgação científica como um todo, não somente dos prêmios. A disseminação dessas pesquisas é fundamental para melhorar a educação e mostrar o quanto a ciência é importante, além de gerar novos hábitos jornalísticos que incluam um maior espaço na mídia para esse tipo de evento. “Se fosse divulgado, a gente criaria uma nova cultura, uma cultura construtiva. Inclusive incentivaria as crianças a gostarem de estudar, a pensarem que um dia talvez possam ser cientistas”, exprime Angela. É pelo jornalismo que se pode mostrar a importância da pesquisa para a sociedade e de que maneiras elas melhoram a nossa vida. Para a professora, a mídia também tem o poder de estimular o estudo, algo tão importante para a vida de todos. Quanto mais se estuda, mais ideias surgem e mais avança a ciência. “Tem que mostrar que estudar é bom, tem que ver o estudo como gratificação, como amor. Não tem nada melhor do que estudar; quem estuda aprende e quem aprende ama o que faz”, salienta.

 

Dissertação

Título: Divulgação de prêmios científicos na grande mídia: análise e intervenção estratégica
Autora: 
Rebeca de Paula Peres Schirmer de Bem
Orientadora:
Angela Terezinha de Souza Wyse
Unidade: 
Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências: Química da Vida e Saúde

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