Estudo analisa a relação entre recursos materiais e o bem-estar na vida de crianças

Realizada em oito países, a pesquisa contou com a participação de mais de 35 mil crianças
detalhe da mão de um criança desenhando com uma caneta. No papel se vê o desenho de uma casa com as palavras "minha casa" em cima
Pesquisadores ressaltam a importância de que se considere, além dos direitos básicos, as necessidades emocionais e de segurança das crianças - Foto: Rochele Zandavalli/UFRGS-Arquivo

Mais de 35 mil crianças de 10 a 14 anos de idade participaram de uma pesquisa internacional que tem como enfoque verificar a relação entre os recursos materiais e o bem-estar subjetivo de crianças. Realizada em oito países (Argélia, África do Sul, Brasil, Coréia do Sul, Espanha, Inglaterra, Israel, e Uganda), no Brasil, a pesquisa foi coordenada pelo professor do Instituto de Psicologia da UFRGS Jorge Castellá Sarriera. 1.020 crianças brasileiras foram entrevistadas.

Os pesquisadores foram a escolas públicas e particulares e solicitaram que crianças de várias classes sociais e de ambos os sexos respondessem às seguintes questões: 1. Minha vida está indo bem; 2. Minha vida é apenas boa; 3. Eu gostaria de mudar muitas coisas na minha vida; 4. Eu desejaria ter outro tipo de vida; 5. Eu tenho uma vida boa; 6. Eu tenho o que eu quero na minha vida; e 7. Minha vida é melhor do que a de muitas crianças.

“Nós buscamos dados sobre os recursos materiais, sobre os acessos que as crianças têm. Por exemplo, a roupas em boas condições para ir à escola, ao computador, à internet, ao telefone celular; considerando que são recursos importantes para o desenvolvimento”, explica a doutora em Psicologia Lívia Bedin, que também esteve envolvida no estudo. Os pesquisadores utilizaram a Students Life Satisfaction Scale (SLSS) – Escala de Satisfação com a Vida de Estudantes, na tradução para o português – um instrumento já validado em diversos países.

Aqui no Brasil, a pesquisa se deu apenas no Rio Grande do Sul, nas cidades de Porto Alegre, Passo Fundo, Santa Cruz do Sul, Rio Grande e Santa Maria, que foram selecionadas pelo número de habitantes e por possuírem centros universitários. Nos outros países, a coleta de dados também foi bastante específica, com exceção da Espanha, da Coreia do Sul e da Inglaterra, que tiveram levantamentos mais abrangentes. Os dados foram coletados em 2011.

Lívia ressalta que alguns fatores socioculturais podem influenciar essa percepção relacionada aos valores materiais. “Por exemplo, as crianças de Israel que se identificam como muito religiosas acabam tendo altas médias de bem-estar, mesmo quando têm poucos recursos materiais.” Outro aspecto que chamou a atenção dos pesquisadores foram as baixas médias de bem-estar das crianças da Coreia do Sul e da Inglaterra, mesmo elas tendo acesso aos recursos. “Isso pode ser o que nós chamamos de tendência materialista, principalmente observada na sociedade inglesa. Quanto mais elas almejam ter uma coisa, mais insatisfeitas elas ficam com o seu bem-estar”, comenta Lívia. Já na Coreia do Sul, há a questão do viés asiático – nas culturas orientais em geral, as populações tendem a não avaliar o bem-estar de forma tão positiva quando comparadas às sociedades ocidentais.

A influência dos recursos materiais é significativa para todos os países. Os dados apontam que quanto mais privação maior o impacto no bem-estar. “Isso mostra a importância de melhorar a condição material das crianças, especialmente em países em desenvolvimento”, ressalta a pesquisadora. O estudo também permitiu observar, entretanto, que a partir do momento em que se atinge um nível mínimo de condições de vida não há aumento do bem-estar, “na verdade, tem estudos que apontam que almejar a riqueza tem impacto negativo no bem-estar”, afirma Lívia.

Jorge salienta que é importante que, “além dos direitos básicos, como educação e alimentação, a criança também tenha qualidade de vida em indicadores subjetivos e que tenha suas necessidades emocionais e de segurança consideradas”. O professor comenta que, em geral, o nível de satisfação com a vida está ligado ao aspecto material ou ao econômico, e reforça que isso não é suficiente; é preciso incluir também o fator psicológico. “A ideia da pesquisa é que se possam ter indicadores básicos de bem-estar no desenvolvimento de crianças, para que cresçam com os meios materiais e também com os meios afetivos e sociais, que possam dar suporte a uma personalidade sadia”, ressalta.

O estudo conta com a participação da Universitat de Girona, na Espanha; da Universidad de Buenos Aires, na Argentina; da Universidad del Desarrollo, no Chile; e da International Society for Child Indicators (ISCI), que faz a mediação entre todos os países participantes. Cada país contou com um grupo de pesquisa formado por 20 a 30 pessoas. O professor comenta que há projetos de ampliar essa pesquisa em vários sentidos: “Na abrangência e no segmento dessas crianças num estudo longitudinal, ou seja, ir perguntar a essas crianças quando elas tiverem de 14 a 16 e depois de 20 a 24”.

 

Artigo científico

SARRIERA, Jorge Castellá et al. Material resources and children’s subjective well-being in eight countries. Child Indicators Research, v. 8, n. 1, 2014.

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