Estudo analisa custos relacionados ao mau uso de medicamentos

Pesquisador estima que 60 bilhões de reais sejam gastos por ano no país para tratar as consequências negativas de medicamentos
frasco com pílulas
Reações adversas são as principais causas de morbidades relacionadas a medicamentos - Foto: Francisco Javier Argel Medicamentos/CC BY-NC 2

As morbidades e mortalidades relacionadas ao uso de medicamentos (MRM) tratam-se de um dos grandes problemas enfrentados pela saúde pública. Causadas pela falta de adesão ao tratamento, por erros de prescrição ou de aplicação ou pela reação adversa ao medicamento, as MRM são definidas como quaisquer danos ocasionados por remédios durante um tratamento, como é o caso de uma dor de cabeça que aumenta após a pessoa tomar uma dose errada do remédio que deveria curá-la. Elas podem ser causadas por médicos, enfermeiros, farmacêuticos, pacientes ou até não possuírem responsável algum, e o tratamento a esses problemas representa um gasto considerável dos recursos de saúde no mundo todo.

Motivado pela ausência de estudos que investigassem esse custo no Brasil, Gabriel Freitas, professor da Universidade de Caxias do Sul e doutor em Ciências Farmacêuticas pela UFRGS, investigou em sua tese de doutorado como o tratamento dos casos de MRM impactam os gastos nacionais. Dividido em dois artigos, seu trabalho analisa os custos em duas escalas diferentes. Na primeira, pesquisou os pacientes do Hospital de Clínicas de Porto Alegre com algum problema originado por um medicamento e calculou o custo desses casos durante um ano. Na segunda parte, realiza uma estimativa nacional dos casos e os relaciona com dados do Sistema Único de Saúde.

Gabriel se baseou nos dados coletados pela mestre em Assistência Farmacêutica Mariana Younes Tramontina, que, através de um questionário, investigou por três meses os pacientes da emergência do Hospital de Clínicas e descobriu que 14% estavam ali por causa de morbidade relacionada a medicamentos. Os casos mais comuns eram de reações adversas ao medicamento, seguido de não adesão ao tratamento e problemas na dose, tendo sido prescrita ou administrada de forma errada. Os medicamentos mais envolvidos nas reações adversas foram os utilizados na terapia antirretroviral, para HIV, anticoagulantes e medicamentos para hipertensão. O pesquisador calculou que o custo médio para tratar um paciente com MRM, durante um ano, foi de quase 2.200 reais, e o custo total, para tratar todos os pacientes, de 18 milhões de reais. O pesquisador aponta que o mais grave não é o tamanho da despesa, mas o quanto ela é evitável: cerca de 12 milhões de reais poderiam ser poupados se a atenção primária conseguisse examinar esses pacientes antes de chegarem à emergência.

Na segunda parte da tese, foi realizada uma estimativa nacional de todos os pacientes que vão ao médico no mínimo uma vez por ano e saem da consulta com receita de pelo menos um medicamento. A partir daí estimou-se quantos desses pacientes desenvolveriam problemas e qual seria o custo do tratamento. Por não haver dados desse tipo, Gabriel entrevistou mais de 40 especialistas, entre médicos, farmacêuticos e profissionais que trabalham com clínica para identificar as probabilidades de desenvolvimento de MRM nos pacientes brasileiros e, a partir disso, criou uma árvore de decisão com todas as possibilidades de ocorrências.

Ao cruzar as probabilidades criadas com a base de dados do Sistema Único de Saúde – o DataSus – o pesquisador calculou que dos aproximadamente 150 milhões de brasileiros que vão ao médico ao menos uma vez ao ano, 86% saem com a prescrição de um medicamento. Esse fato gera quatro caminhos possíveis: no primeiro, que corresponde a 40% dos pacientes com medicamento prescrito, o tratamento é realizado e cura-se o problema; nos outros três ocorrem transtornos. Pode-se curar a doença inicial, mas desenvolver-se uma nova; pode haver falha terapêutica e a enfermidade inicial não ser curada; ou, ainda, pode acontecer a falha terapêutica e o desenvolvimento de um novo problema. Esses casos resultam em diversas consequências, desde a cura sem necessidade de intervenção, passando por tratamentos adicionais e internações, até a morte.

O pesquisador calcula que 60 bilhões de reais sejam gastos por ano com morbidade relacionada a medicamentos no Brasil – 30% do orçamento anual do Ministério da Saúde –, sendo que metade desse valor seria evitável e poderia ser economizados para a utilização em outras áreas da saúde. A realização de exames é essencial para o controle do uso de medicamentos, sendo necessária uma melhora da atenção primária e do sistema de saúde para ser possível reverter esse custo. Gabriel afirma que, com o investimento brasileiro em saúde representando menos de 4% do PIB, o país corrobora com o gasto das MRM, já que falta estrutura e profissionais capacitados.

Os valores obtidos na pesquisa podem ser ainda maiores na realidade. Segundo Gabriel, dos pacientes com morbidade relacionada a medicamentos que entraram na emergência do Hospital de Clínicas durante o período de análise, de 20% a 30% voltaram ao hospital com o mesmo problema, ou seja, houve uma falha na detecção da ligação entre doença e medicamento. Além disso, na estimativa nacional, foi considerada apenas uma visita anual ao médico por paciente. Logo, a reincidência na busca por tratamento para MRM pode esconder maiores gastos da área da saúde.

Gabriel explica que, apesar de serem a principal ferramenta do mundo para buscar a cura de doenças, os medicamentos também geram riscos. Ao desenvolver um remédio, a indústria analisa sua efetividade e sua segurança através de testes em ambientes controlados, com menos de 10 mil pessoas, e um grande acompanhamento dos pacientes. Gabriel lembra que a vida real não é assim. “O mundo real é a partir do momento que o medicamento é aprovado, vai para mercado e as pessoas começam a usar, talvez com ou sem indicação. Se a pessoa se sentir mal, ninguém vai saber e talvez nem mesmo ela entenderá que um medicamento é a causa”, afirma.

Para o pesquisador, a conscientização de pacientes e de profissionais da saúde quanto à possibilidade de os remédios causarem mal é fundamental para evitar as MRM. Ele afirma ser necessário um investimento maior em educação em saúde, para as pessoas receberem informações sobre automedicação, a importância da adesão ao tratamento e de sua não interrupção e de se tomar o medicamento na hora certa. Além disso, é essencial que os profissionais de saúde trabalhem em conjunto e que haja uma comunicação entre médicos, enfermeiros e farmacêuticos. Gabriel afirma que a intenção da tese foi justamente atentar pacientes e profissionais para a existência desse problema para que se possa, a partir daí, desenvolver ações para resolvê-lo.

 

Tese

Título: Ensaios sobre os custos da morbidade e mortalidade associada ao uso de medicamentos no Brasil
Autor: Gabriel Freitas
Orientadora: Isabela Heineck
Unidade: Programa de Pós-graduação em Ciências Farmacêuticas

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