Estudo avalia benefícios da caminhada nórdica para pacientes com Parkinson

Iniciada como parte da pesquisa de mestrado de Elren Passos, a atividade foi transformada em projeto de extensão na Esefid
Projeto de extensão conta com atividades para portadores de Parkinson e para idosos - Foto: Ramon Moser

Quando Marcus Anflor viu, no início de 2014, o anúncio de busca por voluntários portadores da Doença de Parkinson para participar de um projeto de mestrado na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança da UFRGS (Esefid), já havia sido diagnosticado com a doença há cerca de um ano. Nesse período, viu sua vida mudar, teve que repensar a carreira profissional e passou a ter dificuldade para realizar tarefas simples do cotidiano, devido ao enrijecimento muscular e aos tremores característicos da moléstia. Nos primeiros encontros com a equipe responsável pela pesquisa, Marcus teve que ser levado ao local por familiares, pois a doença já não lhe permitia dirigir ou andar de bicicleta.

Orientada pelo professor Leonardo Tartaruga, a então mestranda do Programa de Pós-graduação em Ciências do Movimento Humano Elren Passos tinha como objetivo avaliar os efeitos de um programa de treinamento de caminhada nórdica sobre os parâmetros clínico-funcionais e biomecânicos da marcha de pessoas com Doença de Parkinson. Comum em países europeus, a caminhada nórdica surgiu na Finlândia, quando, para não perder o ritmo nos meses mais quentes do ano, os esquiadores passaram a utilizar seus bastões para fazer trilhas nas montanhas. O equipamento, que possui uma luva especial para auxiliar na execução correta dos movimentos, além de ajudar a manter o equilíbrio, reduz o impacto sobre as pernas. Segundo Tartaruga, “essa é uma atividade de dupla tarefa, que traz um incremento da atividade muscular e trabalha tanto os membros inferiores quanto os superiores”.

Elren acompanhou 33 pessoas com mais de 50 anos portadoras da Doença de Parkinson. Dessas, 17 foram submetidas a um programa de caminhada tradicional e 16, ao programa de caminhada nórdica. Após os testes iniciais, os participantes foram acompanhados por nove semanas. As três primeiras foram reservadas para a familiarização dos voluntários, com a aplicação de técnicas de correção da marcha, fortalecimento do abdômen, coordenação motora, postura e equilíbrio, e, para o grupo da caminha nórdica, foi introduzida a técnica da utilização dos bastões.

As seis semanas seguintes foram dedicadas aos programas de caminhada. Com dois treinos por semana, os participantes foram divididos em turmas de até seis pessoas e submetidos a exercícios individualizados, cada aluno com um monitor que passava um treino personalizado, de acordo com as condições físicas do voluntário. As atividades tiveram a duração inicial de 35 minutos diários e aumentaram aos poucos, totalizando 50 minutos nos últimos encontros.

As sessões foram conduzidas por uma equipe multidisciplinar, composta de 17 pessoas, entre professores e acadêmicos de Educação Física, fisioterapeutas e um neurologista. Os procedimentos avaliativos foram realizados no Laboratório de Pesquisa do Exercício (Lapex), e a familiarização e o programa de treinamento, na pista de atletismo da Esefid. O trabalho recebeu financiamento do Fundo de Incentivo à Pesquisa e Eventos do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e contou com o apoio do Grupo de Pesquisa em Atividades Aquáticas e Terrestres (GPAT) e do Grupo de Pesquisa em Distúrbios do Movimento e Doença de Parkinson do HCPA.

Entre os fatores avaliados, estão os sintomas motores, o equilíbrio corporal, a mobilidade funcional, a velocidade da caminhada, a função cognitiva, os sintomas depressivos e a qualidade de vida. De modo geral, foram observadas melhoras nos dois grupos. A caminhada nórdica, entretanto, se mostrou mais eficaz para quase todos os parâmetros avaliados. A velocidade de marcha foi maior para esse grupo, assim como o equilíbrio, o controle motor e a mobilidade funcional, apresentando um menor risco de quedas quando comparada à caminhada tradicional. A avaliação cognitiva e os valores da Escala Unificada de Avaliação da Doença de Parkinson também tiveram melhores resultados após o uso dos bastões. Outro dado que chama a atenção é a redução dos episódios de freezing – um dos sintomas observados em casos mais avançados da doença, que consiste no “congelamento” da caminhada, na inabilidade de se mover temporariamente. Os bastões são capazes de reverter instantaneamente o fenômeno.

Para Tartaruga, entretanto, um dos efeitos mais importantes não é registrável quantitativamente: a mudança no estado psicológico dos participantes. “Antes, muitos estavam entregues à doença, não caminhavam, se afastaram da família. Agora, voltaram a dirigir, a andar de roller, de bicicleta, a visitar os amigos. Até familiares vieram nos procurar. Filhos e esposas que diziam o quanto mudou o relacionamento com a família”. Elren observou também uma melhora na rotina de sono e na alimentação de alguns dos voluntários e deu destaque ao vínculo que se formou entre eles: “A pista de atletismo virou ponto de encontro entre as turmas. Eles passaram a se comunicar também por redes sociais e a combinar aniversários, piqueniques. Deixaram de viver em função da doença, isolados em casa”. O grupo chegou a fazer, em junho de 2014, uma viagem a Gramado.

Marcus, que já vai às aulas dirigindo o próprio carro e, aos poucos, está voltando a pedalar, confirma os benefícios do exercício. “Me apaixonei pelo projeto. Recuperei minha confiança, minha condição física melhorou. Eu tinha muita dificuldade de equilíbrio e de força no início. E conheci pessoas maravilhosas, fiz novas amizades. Sou um ser humano diferente agora.”

 

Continuidade do projeto

Ao final do período de treinamento, no fim do primeiro semestre de 2014, e com a perspectiva de encerramento da atividade, os voluntários se mobilizaram e enviaram uma carta à Esefid pedindo a continuidade do programa de caminhada nórdica. Foi criado, então, o movimento Xô Parkinson, que conta com um blog e grupos no Facebook e Whatsapp, criados por Marcus. O programa se transformou, então, em projeto de extensão, que além do exercício específico para portadores de Parkinson, conta também com um programa para idosos. “Não esperávamos que o projeto fizesse tanto sucesso, ultrapassou o objetivo inicial”, revela Tartaruga.

As pesquisas continuam também. Os participantes são avaliados regularmente em um processo denominado follow up. Elren também dá continuidade ao trabalho no doutorado, iniciado em 2015 na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Ao longo dos próximos quatro anos, Elren deverá analisar fatores como os parâmetros cinemáticos e o índice de reabilitação dos pacientes. “A pesquisa ficou muito grande para o mestrado. Não deu para analisar todos os dados”, afirma Tartaruga.

O projeto de Caminhada Nórdica também foi tema de reportagem na UFRGS TV. Confira o vídeo:

Dissertação

Título: Efeitos do treinamento da caminhada nórdica e da caminhada livre sobre parâmetros clínico-funcionais e biomecânicos em pessoas com Doença de Parkinson: ensaio clínico controlado randomizado
Autora: Elren Passos Monteiro
Orientador: 
Leonardo Alexandre Peyré Tartaruga
Unidade: Programa de Pós-Graduação em Ciências do Movimento Humano

Artigo científico

Monteiro, Elren Passos et al. Effects of Nordic walking training on functional parameters in Parkinson’s disease: a randomized controlled clinical trial. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports. doi: 10.1111/sms.12652, 2016.

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