Estudo investiga a possibilidade de contaminação por leptospirose em comunidade na Zona Norte de Porto Alegre

Equipe de pesquisa entrevistou moradores da antiga Vila Dique e elaborou um material de educação ambiental
Casas do conjunto habitacional em que foram reassentados os moradores da antiga Vila Dique
Habitantes da antiga Vila Dique foram reassentados em conjunto habitacional na Zona Norte de Porto Alegre - Foto: Tiago Marmor/Divulgação PMPA

Doença infectocontagiosa que pode atingir tanto animais quanto humanos, a leptospirose é uma das zoonoses mais frequentes e costuma aparecer principalmente nos meses chuvosos, em regiões alagadas e sem saneamento básico. Em situações como essas, a urina dos ratos presente em esgotos e bueiros mistura-se à enxurrada e à lama das enchentes. Com isso, qualquer pessoa que tiver contato com a água ou a lama contaminadas pode se infectar, principalmente se houver algum ferimento ou arranhão.

De acordo com a análise dos dados epidemiológicos realizada pelo Ministério da Saúde, entre os anos de 2010 e 2014, foram confirmados no Brasil 20.810 casos de leptospirose, representando uma média anual de 4.162 ocorrências. O número de mortes foi de 1.694, sendo a média de 339 óbitos por ano. A Região Sul registrou o segundo maior número no país, com 6.030 casos. Entre os sintomas da leptospirose estão febre, dores musculares, cefaleia, dores na região da panturrilha, vômito e coloração amarela da pele e mucosas.

A professora do curso de Saúde Coletiva da UFRGS Marilise Mesquita realizou, junto com uma equipe, pesquisa que desenvolveu um material de educação ambiental como estratégia de prevenção da leptospirose na comunidade da antiga Vila Dique. As famílias foram reassentadas e atualmente estão localizadas na Zona Norte de Porto Alegre, em um conjunto habitacional com a infraestrutura ideal para moradia. Quando Marilise chegou ao curso de Saúde Coletiva, já existia o campo de estudo no reassentamento da Vila Dique: “O professor Darci Campani veio com a proposta desse cenário de estudos na área da saúde coletiva, então eu, como veterinária, e a coordenadora do curso de Enfermagem na época, tocamos um trabalho de extensão, em função da grande demanda de leptospirose humana”, conta a pesquisadora. Marilise afirma que, com a falta de saneamento básico e de coleta de lixo e o acúmulo de materiais recicláveis, visto que a maioria das pessoas da comunidade são catadores, a população de ratos na antiga vila era grande.


Metodologia

Foram realizadas 89 entrevistas domiciliares, com a aplicação de um questionário com perguntas sobre os hábitos e costumes da comunidade com relação ao ambiente, aos cuidados com os animais de estimação, ao manejo dos resíduos sólidos domésticos e à presença de animais sinantrópicos (que se adaptaram a viver junto ao homem, mesmo contra a vontade deste). “Íamos uma vez por semana com alunos da Veterinária e da Saúde Coletiva, e também com bolsistas da Fisioterapia”, conta Marilise. Para serem incluídos na pesquisa, os entrevistados deveriam ter acima de 16 anos e pelo menos um cão. Também foram realizadas 142 coletas de amostras de sangue nos cães dos domicílios, para identificação da presença do agente causador da leptospirose. Esses animais, de acordo com os proprietários, não haviam sido vacinados para leptospirose anteriormente.

Por fim, a partir dos problemas e dúvidas levantados pelos moradores nas entrevistas, a equipe de pesquisa elaborou uma cartilha de educação ambiental atrativa e de fácil compreensão. O material foi distribuído para todos os alunos da Escola de Ensino Fundamental Porto Novo, construída para atender as crianças da comunidade. Antes da distribuição em cada turma, o projeto foi apresentado para os estudantes e os professores, momento em que foram exibidas fotos das atividades do estudo e explicados os objetivos e resultados. “Nós mostrávamos as fotos, e as crianças se identificavam. Isso atrai bastante a atenção deles”, afirma a pesquisadora. Cerca de 250 crianças de 5 a 12 anos receberam os materiais.


Resultados

Dos 142 cães de que foram retiradas amostras de sangue, 26 foram soropositivos para leptospirose, ainda tendo uma alta prevalência da sorovariedade Icterohaemorrhagiae (46%), que produz o quadro clínico mais severo para o ser humano. Depois das entrevistas, a equipe recebeu recursos que foram utilizados na vacinação dos cães da comunidade.

Marilise afirma que muitos moradores, apesar do novo local, mantinham antigos hábitos. “Tinham muitos catadores que possuíam carroça, e como os limites das casas eram maiores, as pessoas tinham no pátio cavalos, porcos, galinhas. Já no novo local ficou proibido manter animais que não fossem cães e gatos, porém vimos casas em que estavam no mesmo pátio marrecos, patos, galinhas, cachorros, além de restos de alimentos. Não tem nada melhor para atrair ratos”, afirma. Por esse motivo, as questões relacionadas à promoção da saúde se tornaram temas a serem incluídos no material de educação ambiental. A pesquisa também destaca a importância da escolaridade, pois quanto maior o grau, maior o senso crítico para essas questões. Das pessoas entrevistadas, 57% apresentavam apenas o ensino fundamental incompleto. De 89 entrevistados, uma pessoa apresentava o ensino superior incompleto e nenhum entrevistado possuía graduação.

Com relação aos animais sinantrópicos, as respostas aos questionários indicaram que 100% dos domicílios no novo local de moradia apresentavam pelo menos um desses bichos: ratos, carrapatos, pulgas e pombos. E, em 61% das casas, havia mais de um tipo. Marilise destaca que o convívio com esses animais parecia fazer parte da rotina da comunidade: 27% das residências não utilizavam nenhuma estratégia de controle. “Acham que é algo normal, apenas se acostumam”, afirma.

Os pesquisadores também questionaram se os entrevistados conheciam alguém que já tivesse sido diagnosticado com leptospirose, e 40% responderam que sim, a maioria conhecidos ou parentes moradores da antiga Vila Dique. Apenas 29% das pessoas entrevistadas, porém, responderam que sabiam que o cão pode transmitir leptospirose.

Já quanto à separação do lixo em recicláveis e não recicláveis, 60% dos entrevistados afirmaram que faziam a separação do lixo. O estudo mostra que o motivo principal, em 68% das respostas, foi a geração de renda. A pesquisadora observa que, quando essas pessoas deixam de trabalhar com separação de material reciclável, acabam não separando mais nem em sua própria casa.

A pesquisadora destaca a importância do estudo, principalmente na veterinária, pois essa não é uma área que recebe muita atenção no curso. Além disso, ela observa que esse tipo de trabalho é necessário para preparar o profissional para lidar com as pessoas que atendem e conhecer a realidade. “Muitos alunos nunca tinham entrado em uma comunidade de baixa renda, não sabiam como chegar nas pessoas para conversar, então a sensibilidade é posta à prova naquele momento. Eles se desenvolvem muito socialmente”, afirma Marilise.

 

Artigo científico

MESQUITA, Marilise Oliveira et al. Material de educação ambiental como estratégia de prevenção da leptospirose para uma comunidade urbana reassentada. Cadernos Saúde Coletiva, v. 24, n. 1, p.77-83, mar. 2016.

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