Estudo investiga como o macaco uacari-branco enxerga as cores

Pesquisadores identificaram uma variedade de alelos sem precedentes entre os Macacos do Novo Mundo no gene produtor de proteína responsável pela percepção da cor. Essa diversidade favorece a disseminação de fêmeas tricromáticas e pode estar relacionada à seleção sexual
Machos mais saudáveis tendem a ter uma tonalidade vermelha mais intensa na face, o que pode ser determinante para a seleção sexual feita pela fêmea - Foto: Giovanni Mari/Flickr

Um estudo publicado na revista Proceedings of the Royal Society B investigou a forma com que o primata uacari-branco (Cacajao calvus) enxerga as cores. Também chamado de macaco-inglês, devido a sua semelhança com um turista estrangeiro que veio passar as férias no Brasil e esqueceu o protetor solar, o animal é encontrado na região amazônica e faz parte dos chamados Macacos do Novo Mundo – aqueles originais das Américas, em contraposição aos africanos e asiáticos Macacos do Velho Mundo. Com uma cara bem vermelha (mais ainda nos machos), o uacari não tem pelos na cabeça, possui uma pelagem avermelhada/dourada e um comportamento de bando particular – forma grandes grupos de até 200 indivíduos com alto grau de mudança de tamanho e composição social devido à movimentação dos animais pelo ambiente.

Foram essas características peculiares que motivaram os pesquisadores a procurarem entender como esses primatas enxergam uns aos outros e as influências desses atributos para a visão. Para isso, os pesquisadores seguiram um grupo de uacaris na Amazônia peruana entre novembro e dezembro de 2010 com o objetivo de analisar o gene que produz a opsina – uma proteína responsável pela percepção das cores. No caso dos humanos, os cones, células fotorreceptoras da nossa retina, possuem três tipos de opsinas – responsáveis pela percepção de três cores: o vermelho, o verde e o azul –, o que nos classifica como seres tricromáticos. A mistura dessas três cores é responsável por todo o espectro que enxergamos.

Entre os uacaris-brancos, entretanto, os pesquisadores identificaram dois tipos de sistemas de visão: os indivíduos podem ser tanto dicromáticos quanto tricromáticos. Os animais homozigóticos, ou seja, que apresentam apenas uma variante do gene
relacionado à produção da opsina, são dicromáticos – percebem apenas duas cores –, enquanto os heterozigóticos, com duas variações do mesmo gene, apresentam visão tricromática. Como um dos genes responsáveis pela visão está localizado no cromossomo X, todos os machos têm sempre visão dicromática. As fêmeas, por terem duas cópias desse cromossomo, podem ser tanto dicromáticas como tricromáticas. Até aí, é semelhante a quase todas as demais espécies de Macacos do Novo Mundo. A grande diferença encontrada pelos pesquisadores é a variedade de alelos relacionados à produção da opsina: foram identificados seis na população estudada.

A maioria dos Macacos do Novo Mundo possui dois ou três alelos desse gene, e apenas em outra espécie, a Callicebus moloch, já foi reportada a existência de mais de quatro alelos. Os cinco alelos, entretanto, foram encontrados em macacos de cativeiro, e não se sabe se essa variedade pode ocorrer também em populações selvagens. “De todos os primatas que já foram estudados, o uacari é o que mais apresenta variação alélica dentro do gene responsável pela visão. Isso é bastante incomum para primatas do novo mundo”, explica o doutor em Genética e Biologia Molecular pela UFRGS Josmael Corso, que participou da pesquisa durante seu estágio de doutorado pelo Ciência sem Fronteiras na Universidade de Cambridge.

 

Simulação da aparência de um uacari-branco para um observador humano e para uacaris-brancos com diferentes sistemas de visão de cores

Simulação da aparência de um uacari-branco para um observador humano e para macacos com diferentes sistemas de visão de cores

Seleção sexual

Segundo os pesquisadores, ao favorecer a disseminação de fêmeas tricromáticas na população, toda essa variedade alélica pode ter uma função importante para a seleção sexual dos macacos-ingleses. Presume-se que fêmeas com visão tricromática teriam
vantagem para distinguir um bom parceiro, devido a algumas características que expressariam a “qualidade” do macho. Um exemplo é a coloração da face do candidato a companheiro. Os machos mais saudáveis têm uma tonalidade vermelha mais intensa na face. Enquanto caras mais pálidas podem ser indicativo de doenças como a malária. “Aliás, esse gênero de primatas é o mais atacado por esse parasita, talvez perdendo para nossa espécie”, observa Corso. Essas nuances podem passar despercebidas pelas fêmeas dicromáticas.

 

Predominância dicromática

Apesar dessa possível vantagem, chama a atenção a baixa proporção de tricromatismo entre os uacaris. Apenas 35% das fêmeas estudadas eram tricromáticas. Segundo Corso, isso pode acontecer porque também há benefícios para os indivíduos dicromáticos. Experimentos com outras espécies de primatas apontam que os dicromáticos apresentam vantagem na discriminação de alimentos com coloração semelhante ao ambiente. “Um animal dicromático consegue ver uma variação estreita de verde, e isso pode indicar um alimento mais fácil de acessar, que de longe ele já consegue perceber. A fêmea tricromática talvez não consiga ver essa variação sutil de cor”, esclarece o pesquisador. Ou seja, as vantagens na busca pelo alimento pelas fêmeas dicromáticas compensariam as desvantagens em relação à seleção sexual, e a espécie tenderia a um equilíbrio, com a existência dos dois tipos de visão.

Ainda são necessários experimentos comportamentais para verificar algumas das hipóteses levantadas no trabalho: “se as fêmeas dicromáticas realmente têm essa vantagem de conseguir diferenciar cores em determinada faixa de visão para se alimentar e se as tricromáticas conseguem mesmo perceber melhor a cor vermelha, e se isso realmente é significativo para elas fazerem a escolha dos parceiros com quem vão se reproduzir”, enfatiza Corso. “Teria que fazer uma série de experimentos comportamentais, que são bastante difíceis de executar com essa espécie, que é uma espécie ameaçada, difícil de ter em cativeiro.”

 

Único que faltava

Apesar da necessidade de novos estudos, não se pode ignorar a importância do trabalho. De todos os 21 gêneros de primatas do Novo Mundo, o uacari era o único do qual ainda não se havia estudado a visão. “A gente aumenta para quase a totalidade de gêneros o nosso entendimento de como os primatas enxergam”, salienta o pesquisador. “Isso abre várias portas para se entender melhor como a evolução da visão dos primatas se desenvolveu”, complementa.

 

Artigo científico

Corso, Josmael et al. Highly polymorphic colour vision in a New World monkey with red facial skin, the bald uakari (Cacajao calvus). Proceedings of the Royal Society B, v. 283, 2016

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