Jaqueline Moll e a educação integral

Citada como referência sobre o tema no Brasil, a professora conta um pouco de sua trajetória e explica os conceitos em torno da educação integral no país
Jaqueline Moll sorridente em primeiro plano, com as escadas da reitoria da UFRGS ao fundo.
Jaqueline Moll foi relacionada pelo Centro de Referência em Educação Integral como um dos sete educadores brasileiros fundamentais para compreender o assunto - Foto: Rochele Zandavalli/UFRGS

A educação integral no Brasil é uma pauta antiga. Essa abordagem pedagógica, que pensa a educação para além do conceito acadêmico, visualizando principalmente o pleno desenvolvimento dos educandos como ativos seres sociais em uma democracia, vem encontrando sua própria forma e espaço há muitas décadas. Portanto, sempre que há uma maior abertura democrática no nosso governo, as práticas derivadas dessa corrente de pensamento ganham um respiro, porém, tendem à supressão em tempos de conservadorismo político. Segundo a doutora em Educação pela UFRGS Jaqueline Moll, isso se deve à ligação intrínseca que essa filosofia de formação escolar tem com a formação do indivíduo como cidadão.

Atualmente professora na Faculdade de Educação da UFRGS, Jaqueline foi, no começo deste ano, relacionada pelo Centro de Referência em Educação Integral como um dos sete educadores brasileiros fundamentais para compreender a Educação Integral. “Me sinto honrada”, diz, sobre ter sido citada ao lado de nomes como Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, cujos trabalhos, além de vitais para a construção da formação integral no país, inspiraram e moldaram a sua própria carreira. Ela explica que sua presença na lista certamente se deve ao Programa Mais Educação (PME), que criou e implementou em 2007, durante o período em que trabalhou no Ministério da Educação.

Muito antes disso, ela teve um grande envolvimento com movimentos sociais na sua juventude e, posteriormente, preferiu o que chama de uma vida de “fazimentos” – conforme termo usado por Darcy Ribeiro. O que quer dizer é que deixou a rotina de pedagoga e pesquisadora dentro da universidade (ela é formada em Pedagogia pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI Erechim) para se lançar na esfera pública. Não é que enxergue a carreira que se debruça sobre os trâmites acadêmicos como sendo menos legítima, muito pelo contrário, mas visualizava, nesse outro cenário, oportunidades para realizar mudanças e desnaturalizações que ansiava como educadora.

Segundo Moll, aquilo que é construído pela humanidade não pode ser levado como natural, portanto as desigualdades e o afastamento de grande parte da população de seu papel como agentes democráticos é algo a ser desnaturalizado, pois são imposições da nossa configuração política, social e, principalmente, de formação. Se, como afirmou Anísio Teixeira, “a cara da escola é a cara da pátria”, então o Brasil precisa de uma escola que acolha seus estudantes em todos os âmbitos, ela diz, promovendo não só o aprendizado das matérias no formato didático, como também o exercício de outras áreas do desenvolvimento humano, como as artes, os esportes, a comunicação, a cidadania, a saúde, etc. É uma educação que pensa a formação de maneira integral e prepara o indivíduo para exercer essa mesma participação depois, quando em contato com as esferas social e política.

Não se trata apenas de ampliar o tempo e repetir os mesmos métodos, explica, “isso é fazer mais do mesmo”. Tampouco de criar atividades em contraturnos, ou seja, desenvolver exercícios à parte das aulas. É realmente pensar e aplicar uma reestruturação que rompa com o esquema engessado de períodos de 40 e tantos minutos em que o professor entra na sala, passa a matéria, sai, aplica uma prova final e pronto. Não deveriam ser os alunos a se adaptarem a um sistema inflexível de avaliação, pois a diversidade se encontra no lado humano. A estrutura de aprendizagem, portanto, é que precisaria estar pronta para receber uma grande variedade de educandos e suas particularidades.

Para isso, Jaqueline explica que é preciso induzir, através de investimentos do governo e de planejamento conjunto, a ampliação da jornada escolar e a organização curricular – o que é sempre difícil, pois vai de encontro ao que ela chama de “cultura do encurtamento do tempo escolar” no Brasil. Além disso, é preciso que a população remodele os modos de enxergar a formação, dividindo a tarefa entre os profissionais da educação, os familiares e os demais agentes sociais, e mantendo, ainda assim, os esforços sob a coordenação da escola e dos professores, pois aquele espaço deve ser um propulsor para que os alunos conquistem novos territórios físicos e virtuais na sociedade.

Foi esse tipo de experiência que o PME buscou ativar durante sua vigência, entre 2007 e 2014. Depois disso, em 2016, com o governo Temer, o texto foi reestruturado como o Programa Novo Mais Educação, que, segundo Jaqueline, não corresponde mais aos ideais da educação integral. É uma abordagem diferente, que se foca em “reforço escolar”, com ênfase em matérias como português e matemática, o que é exatamente o tipo de prática engessada que a empreitada original buscava evitar.

Durante o PME, ela conta, foram feitos investimentos que beneficiaram mais de 3 milhões de alunos em quase 15 mil escolas, as quais podiam optar, de um menu de macrocampos, pelas áreas que seriam o seu foco, como música, comunicação, esportes, saúde, etc. Poderiam ser escolhidos até sete macrocampos, sendo que aquele que dizia respeito à orientação pedagógica era obrigatório para todas – não se tratava de um reforço, como propõe o novo texto, mas de um acompanhamento diferenciado da aprendizagem. Segundo a professora, essa liberdade de escolha é importante para manter a autonomia das escolas em formarem o seu próprio perfil, sua identidade, já que cada uma possui o seu contexto. Por exemplo, Jaqueline conta que em algumas que selecionaram o programa de radiocomunicação, ganhando uma aparelhagem completa do PME, a rádio escolar acabou tornando-se uma rádio comunitária relevante para os arredores. É essa interação entre comunidade e escola que ela ressalta, explicando que a utilização de praças, igrejas, salões, museus, cinemas, teatros e outros espaços sociais e culturais, também são imprescindíveis para a formação integral.

Isso, claro, é o resultado de décadas de estudos e de outras experiências. No passado, Anísio Teixeira implementou na Bahia dos anos 1940 o conceito de Escolas Parque, que compreendiam o espaço de ensino como centros de formação humana. Posteriormente o próprio Teixeira levou a ideia para outros cantos do Brasil, chegando ao Rio de Janeiro na década de 1970. Foi na capital carioca do começo dos anos 1980, aliás, que Darcy Ribeiro, junto ao então governador Leonel Brizola, instalou os Centros Integrados de Educação Pública, que possuíam núcleos sociais, espécie de moradias para os estudantes – o que Jaqueline considera muito importante em uma época em que o Rio sofria com os chamados “esquadrões da morte”, que tem como caso mais famoso a Chacina da Candelária, em que oito jovens moradores de rua foram assassinados pela Polícia Militar. Entretanto, esse esforço de Ribeiro e Brizola recebeu duras críticas tanto dos movimentos de direita, que o enxergavam como um gasto desnecessário (e a educadora se questiona, então, o que seria um gasto necessário se não aquele voltado para o povo?), como os da esquerda, que afirmavam que a iniciativa fugia dos princípios marxistas.

Tentativas e falhas à parte, a ideia se aperfeiçoou com o tempo. Hoje Jaqueline trabalha no seu pós-doutorado em Educação pela PUC-RJ e segue sua carreira como professora, além de participar do Conselho Estadual de Educação do Rio Grande do Sul. Sua nomeação pelo Centro de Referência ao lado de Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Maria Nilde Mascellani, Florestan Fernandes e Miguel Arroyo lhe traz muito orgulho, não só pelo reconhecimento do seu papel para o Programa Mais Educação, mas principalmente por sua trajetória de mais de 30 anos como educadora e agente da esfera pública. Ela afirma também esperar que o atual regime de fechamento e conservadorismo político no Brasil passe logo, dando nova chance de respiro para a educação no país.

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