Mães que fazem exercícios físicos durante a gravidez podem prevenir os filhos contra problemas neurológicos

Estudo analisa efeitos da natação gestacional de ratas na saúde dos filhotes e o potencial de prevenção da atividade contra a hipóxia-isquemia
Pessoas nadando em uma piscina
Estudos apontam que benefícios dos exercícios físicos são transgeracionais - Foto: Arrondissement de Villeray Saint Michel Parc Extension CC BY-ND 2.0

A hipóxia-isquemia neonatal é um evento lesivo ao sistema nervoso central que ocorre quando há uma redução de oferta de oxigênio para o cérebro. Ela é uma das maiores causas de dano neurológico em nascidos prematuros, levando, em 50% desses casos, a deficiências crônicas e a danos cerebrais permanentes, como paralisia cerebral, deficit de atenção e hiperatividade. Entre os bebês nascidos a termo, ou seja, que não são prematuros, a incidência da hipóxia-isquemia é de 1,5 a cada mil partos, número que cresce entre os prematuros.

Em seu pós-doutorado, realizado no Programa de Pós-graduação em Bioquímica da UFRGS, o neurocientista Eduardo Sanches, em conjunto com a aluna de doutorado Luz Elena Carabali, analisa se a natação realizada pelas mães durante a gravidez é capaz de alterar o desenvolvimento cerebral dos filhos e diminuir os danos causados pela lesão da hipóxia-isquemia. O estudo foi realizado no âmbito dos laboratórios de Neuroproteção e Doenças Neurometabólica e de Isquemia Cerebral, coordenados pelos professores Angela Wyse e Carlos Alexandre Netto, respectivamente, e seu resultado é descrito no artigo Pregnancy swimming causes short and long-term neuroprotection against hypoxia-ischemia in very immature rats (Natação gestacional gera neuroproteção a curto e longo prazo contra hipóxia-isquemia em ratos muito imaturos, na tradução em português), destaque de sua edição na Pediatric Research, revista do grupo Nature. De fato, a pesquisa evidencia que os filhotes de mães que nadavam durante a gravidez tinham menor deficit cognitivo, apresentando redução no tamanho da lesão hipóxica-isquêmica e diminuição das caraterísticas negativas que a lesão induz.

No estudo, utilizaram-se 12 ratas Wistar fêmeas que foram divididas em dois grupos: nadador e sedentário. O primeiro grupo era submetido a 20 minutos de natação diária durante os 21 dias de gestação, enquanto o segundo permanecia em uma caixa, sem realizar o exercício, pelo mesmo período. Após o nascimento da prole, realizou-se uma lesão cerebral nos filhotes dos dois grupos, obstruindo uma artéria dos animais para limitar a oferta de oxigênio do cérebro e gerar uma atmosfera hipóxica em seus encéfalos durante determinado tempo. Foram mantidos, em ambos os grupos, animais sem lesão para o grupo-controle. A partir daí, foram realizados diversos testes para comparar os possíveis efeitos da natação na proteção do cérebro dos filhotes.

Parte dos animais passou por testes comportamentais. Durante toda a fase lactacional, testaram-se memória e reflexos, como no teste de endireitamento, no qual os ratos eram colocados de barriga para cima e cronometrava-se o tempo para eles se virarem, ou ainda no labirinto aquático de Morris, onde o animal deveria se guiar pelo que se lembrava do ambiente para encontrar uma plataforma dentro de um tanque de água. Os filhotes das mães que nadaram se saíram consideravelmente melhor nos testes em comparação com os filhotes das mães sedentárias.

Outra parte dos animais passou por uma análise bioquímica. Esses foram eutanasiados entre 24 e 48 horas depois de a lesão ter sido causada e tiveram seus cérebros examinados, em especial a região do hipocampo e do córtex cerebral. Foram então investigadas as atividades da Na+/K+-ATPase (bomba iônica de sódio e potássio), já que a hipóxia-isquemia causa uma diminuição no aporte energético do cérebro e na função dessa bomba, que é importante para a manutenção cerebral. Além disso, também foram avaliados os níveis de BDNF (fator neurotrófico derivado do encéfalo ou Brain-derived Neurotrophic Factor, no inglês), por ser um dos mecanismos mais atribuídos aos benefícios do exercício físico, sendo responsável pela sobrevivência celular. Em ambas as análises, os animais cujas mães fizeram o exercício tiveram menor redução da atividade da Na+/K+-ATPase e maiores níveis de BDNF em comparação com os animais do grupo sedentário, o que demonstra que o sistema nervoso central desses animais responde melhor no caso de um dano.

Eduardo Sanches lembra que o BDNF é um fator importante na prevenção de diversas enfermidades e que o exercício físico é recomendado para prevenir doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, e desordens de cunho metabólico, como acidente vascular cerebral e a própria hipóxia-isquemia. O estudo foi realizado especialmente com a natação por opção do grupo, já que apresenta melhores resultados do que uma esteira, por exemplo, na qual o animal apenas se exercita se quiser, enquanto no nado ele não possui escolha. Todavia, o pesquisador lembra que estudos clínicos demonstram que os benefícios dos exercícios físicos de forma geral são transgeracionais – se os pais se exercitam, os filhos terão ganhos em decorrência disso. “É uma estratégia simples e barata, em comparação com um tratamento se a criança tem algum problema durante o parto”, afirma.

 

Artigo científico

SANCHES, Eduardo Farias et al. Pregnancy swimming causes short- and long-term neuroprotection against hypoxia–ischemia in very immature rats. Pediatric Research,  v. 82, n. 3, 2017.

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