O que seria do streaming sem a pirataria?

Tese de doutorado aborda a relação entre as plataformas de streaming e a pirataria digital no acesso público ao entretenimento
fones de ouvido sobre um notebook
Segundo pesquisadora, a pirataria de conteúdos digitais tende a persistir em diálogo com o streaming, como uma simbiose mercadológica - Foto: Atul Srivastava/CC0 1.0

O diálogo entre as indústrias legal e ilegal de distribuição de entretenimento digital foi tema da tese de doutorado da antropóloga Andressa Nunes Soilo. Seu trabalho levanta questões como as relações morais e as violações de direitos autorais na pirataria digital e como essa prática influencia o mercado do streaming. A partir de dados coletados entre julho de 2015 e maio de 2019, a pesquisadora analisou os diferentes meios que o streaming e a pirataria utilizam para atrair e satisfazer o mesmo público. A tese, intitulada “Habitando a distribuição do entretenimento: o regime de propriedade intelectual, a tecnologia streaming e a ‘pirataria’ digital em coautoria”, foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS.

Desde a graduação, Andressa trabalha com o tema da pirataria. Primeiramente, abordou a pirataria física, direcionando seus estudos para o camelódromo de Porto Alegre. No mestrado, pesquisou as relações de gênero e sociabilidade no contexto das vendas de camelô, e, para o doutorado, teve a ideia de migrar o foco de estudo para o meio digital. Ao comparar a pirataria física com a digital, a antropóloga destaca a ideia central da tese: como se estabelece a relação entre o mercado legal e o ilegal. “A pirataria é sempre uma relação de conflito, mas também de coprodução”, explica. Ela conta ainda que pensa em realizar pós-doutorado na mesma área, dando continuidade às questões tratadas na tese.

 

Streaming x pirataria

Como exemplo do streaming e da pirataria digital, a pesquisadora destaca os programas pioneiros de cada um desses: o Napster, do criador Shawn Fanning, e o iTunes, da empresa Apple. Desenvolvido em 1999, o Napster foi um programa de compartilhamento gratuito de arquivos em formato MP3. Após ameaças e ações judiciais que questionavam sua legalidade e a violação de direitos autorais, ele saiu do ar em 2001. Em contraponto, no início dos anos 2000, aproveitando-se da tecnologia streaming, a multinacional Apple lançou a plataforma iTunes, que vende músicas para os dispositivos da marca – iPhones, iPods e afins. O iTunes não é considerado um meio de acesso popular ao entretenimento, uma vez que cobra pelos downloads e está disponível apenas para quem tem um aparelho da empresa estadunidense.

Andressa procura mostrar como a pirataria consegue oferecer melhores condições de acesso ao entretenimento digital, ressaltando que, para lucrar, os serviços de streaming precisam superar as vantagens da prática ilegal. Assim, ao longo do trabalho, a pesquisadora analisa como a indústria ilegal acaba por impulsionar a legal. Hoje, plataformas como a Netflix e o Spotify são alternativas para “contornar” a pirataria. Elas possuem características semelhantes às de canais piratas – como o relativo baixo custo e as modalidades de acesso gratuito que algumas oferecem – para competir com as alternativas ilegais.

 

E por que a pirataria ainda é consumida?

Como metodologia de pesquisa, a antropóloga coletou relatos de usuários de tecnologias piratas de 31 países de cinco continentes. Ao total foram 314 depoimentos. No final da análise dos dados, ela observou que a maioria das pessoas que utilizavam a pirataria era também usuária de streaming. A escolha pela pirataria em determinadas situações acontecia porque os serviços legalizados não disponibilizavam tudo o que os usuários procuravam para o entretenimento, como o preço, a qualidade de som ou a variedade de ofertas.

Além disso, Andressa destacou outro motivo para pirataria ainda ser massivamente consumida no mundo: existe uma relação emocional com o consumo. Inicialmente, ela conta sobre o senso de justiça que é projetado nesse vínculo. Muitos dos entrevistados que eram usuários das duas tecnologias defendiam que o uso da pirataria era “no mínimo justo”, já que pagavam pelo serviço de streaming e não recebiam a melhor versão disponível dos conteúdos. Conforme esse pensamento, seria justo procurar na plataforma ilegal algo que supostamente a versão legal deveria oferecer. A segunda constatação foi o desejo de posse, de ter as próprias músicas e os próprios filmes no arquivo pessoal. Apesar de ser um ato conservador, algumas pessoas ainda percebem a posse de bens culturais como algo importante, realçando a relação emocional que estabelecem com o bem de consumo.

“A pirataria estaria acabando? Se não, o que leva os atores a persistirem consumindo conteúdo ilegal?”, essas eram duas das principais perguntas no início do trabalho da pesquisadora. Ao longo da tese, Andressa deixa bem claro que a pirataria não parece estar perto do seu fim. As alternativas piratas de oferta e consumo de entretenimento digital na contemporaneidade tendem a persistir em diálogo com as plataformas de streaming como uma simbiose mercadológica – uma associação dependente entre os dois sujeitos.

 

Tese

Título: Habitando a distribuição do entretenimento: regime de propriedade intelectual, a tecnologia streaming e a “pirataria” digital em coautoria
Autora: Andressa Nunes Soilo
Orientadora: Patrice Schuch
Unidade: Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social

 

Leia também: