O sapo e a usina

Pesquisador da área de conservação ambiental conta como um sapinho que só existe numa pequena área no sul do Brasil barrou a construção de uma hidrelétrica
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Sapinho-admirável-de-barriga-vermelha existe apenas em um trajeto de 700 metros ao longo do Rio Forqueta, no município de Arvorezinha (RS) - Foto: divulgação

O Sapinho-admirável-de-barriga-vermelha foi descoberto em 2006 no município de Arvorezinha, na serra gaúcha, por pesquisadores dedicados à área de preservação de anfíbios. Em todo o planeta, o animalzinho de cores chamativas, que mede de 2,5 a 4 centímetros, existe apenas em um pequeno trajeto de 700 metros ao longo do Rio Forqueta, exatamente o lugar planejado para abrigar as instalações de uma hidrelétrica. Em meados de 2010, o governo do Estado do Rio Grande do Sul havia liberado uma licença prévia para a construção da usina ali, o que desencadeou um embate que fez surgir no Laboratório de Herpetologia da UFRGS um projeto de conservação focado em identificar, proteger e estudar espécies anfíbias.

O biólogo e doutorando Luis Fernando Marin participou das expedições do grupo que, uma vez por mês e por mais de um ano, buscou observar o Sapinho-admirável. Através da coleta de dados, os pesquisadores estimaram uma população de mil indivíduos em média. Como os animaizinhos têm um padrão de manchas na pele, isso acaba servindo como uma impressão digital. Eles são fotografados, e, sempre que outro desses sapos é capturado, seu padrão de manchas é comparado com aqueles já catalogados no sistema para saber se ele já foi registrado. Conforme se repetem ou não no catálogo de um determinado espaço e por um determinado período, é aplicada uma fórmula que estima com relativa precisão a população daquele animal numa certa área.

O que foi descoberto também é que o sapinho é ligado diretamente ao seu ecossistema. Luis Fernando explica que há certos animais com uma maior plasticidade ambiental, ou seja, que se adaptam melhor a diferentes configurações de habitat, como os sapos que conseguem viver nas cidades. O Barriga-vermelha, entretanto, se desenvolveu para se conformar àquela área específica do Forqueta, onde fica o Perau de Janeiro, uma pequena cachoeira que é ponto turístico da região – o que só dificulta a preservação da espécie, devido ao trânsito de pessoas no local. O pesquisador aponta que este sapo vive principalmente nos lajeados do rio e que depende das cheias e das baixas sazonais para se reproduzir. Com a instalação da hidrelétrica, o local seria inundado e esvaziado todos os dias, de acordo com as necessidades da produção de energia. Uma mudança brusca dessas não permitiria que a espécie se adaptasse rápido o suficiente para evitar a extinção.

O valor dele, conta Luis, é mais simbólico, já que pela pequena população sua participação na teia de espécies não é tão expressiva. “Quando falamos de preservação há o que chamamos de espécies guarda-chuva e espécies bandeira. As espécies guarda-chuva são aquelas que, se você preservar, acaba assegurando todo um entorno ao redor dela, enquanto as espécies bandeira são mais políticas”, ele explica, ilustrando que, representando esta última categoria, costumam ter animais chamativos e bonitos como a Arara-Azul, o Mico-Leão-Dourado e, no caso, o Barriga-vermelha. Esses bichos ganham relevância ativista, pois têm a empatia do público. Além do que, permitir projetos que ameacem um só desses animais, abriria portas para que outras espécies fossem desrespeitadas também.

Em 2013 a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), se baseando nos dados levantados pelo projeto da UFRGS, reconheceu o risco de extinção do sapinho. Porém, mesmo com o parecer a nível global desta organização, nos níveis regional e nacional o reconhecimento do risco só veio, respectivamente, em 2014 e 2015, o que finalmente fez com que o projeto da hidrelétrica fosse barrado. Isso graças à parceria entre os pesquisadores da Universidade e o grupo Curicaca, que atua no meio-campo fazendo pressão nas autoridades, conversando com a comunidade e exigindo posicionamento dos representantes políticos. Para tanto, ambas as iniciativas tiveram respaldo do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), um braço do Ibama que serviu como o apoio oficial que a causa precisava, já que, segundo Luis Fernando, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) não parecia disposta a tomar lados na disputa – o órgão foi o responsável por liberar a licença prévia da usina. Luis diz que a Fepam faz a análise técnica dos projetos para verificar sua viabilidade em questões ambientais, mas que também responde aos políticos, e isso explicaria sua falta de posicionamento.

O biólogo conta que a ideia a partir daqui é transformar a área do Rio Forqueta em uma unidade de conservação: um espaço protegido legalmente que compreende o que chama de zona de amortecimento, um raio ao redor de um ponto central que deve ser preservado também. Agora como membro do grupo de especialistas em anfíbios da IUCN, Luis afirma que pode fazer mais pela causa da preservação. Ele foi chamado pela União Internacional para compor essa iniciativa depois de enviar os dados sobre o Barriga-vermelha. Sua entrada representou um reavivamento para o grupo, que estava “adormecido” há anos aqui no Brasil – ele explica que existem forças-tarefa como esta gerenciadas pela IUCN por todo o mundo e em diversas áreas. Recentemente os pesquisadores fizeram um mapeamento e relacionaram cerca de 400 pessoas trabalhando com preservação de anfíbios no país.

As empresas por trás da construção da hidrelétrica até tentaram retaliar, conta o pesquisador, e acusaram, na imprensa, os biólogos de estarem tentando barrar o desenvolvimento econômico da região por causa de um sapo. A atenção que o caso teve acabou também repercutindo no projeto de conservação, pois o Barriga-vermelha é um animal chamativo e bonito, mas como sua ocorrência é limitada a um espaço tão pequeno, muitas pessoas não faziam ideia de que ele existia, o que provocou uma onda de coleta indevida do animalzinho – turistas e moradores de Arvorezinha que apenas queriam pegar o famoso sapinho. Luis, entretanto, se mostra feliz com o resultado da empreitada, e afirma que nunca ouviu falar antes de um projeto da escala de uma usina ser barrado por causa de um sapo, e considera isso uma vitória. Ele ressalta que esses “passos para frente” em uma época de tamanho retrocesso, quando estão querendo inclusive fechar a Fundação Zoobotânica, que abriga tantas espécies e pesquisas voltadas ao meio ambiente, são conquistas de que devemos nos orgulhar.

 

Artigo:

FONTE, Luis Fernando Marin da et al. The times they are a-changing: how a multi-institutional effort stopped the construction of a hydroelectric power plant that threatened a critically endangered red-belly toad in southern Brazil. Froglog, v. 22, n. 4, 2014.

 

Mais informações:

Projeto do Sapinho-admirável-de-barriga-vermelha

Grupo de Especialistas em Anfíbios do Brasil

Projeto de Extensão “Conhecendo os anfíbios e répteis”

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