Parceria entre a UFRGS e o Hospital de Clínicas testa curativo para tratar úlceras em diabéticos

O curativo produzido no país será uma opção de mais fácil acesso para os pacientes
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Neuropatia periférica é uma condição comum em pacientes com diabetes, principalmente após possuírem a doença por alguns anos - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Começou no mês de abril deste ano a conversa entre grupos de pesquisadores da UFRGS e do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) para criar colaborativamente um curativo que atenda às necessidades de pacientes diabéticos que sofrem de lesões nos pés, o chamado pé diabético. A neuropatia periférica é uma condição que afeta os nervos e causa a perda de sensibilidade em áreas como os pés e as mãos. É uma complicação comum em pacientes com diabetes, principalmente após possuírem a doença por alguns anos. Em casos mais extremos, a falta de sensibilidade os deixa mais propensos a não perceberem machucados nos pés, que podem infeccionar e se tornarem úlceras quando não recebem tratamento adequado.

O Laboratório de Cerâmica (Lacer) da UFRGS desenvolveu um curativo sintético que seria capaz de atender às diferentes demandas para cada etapa desses casos. Com a técnica de eletrofiação, são produzidas fibras com diâmetros em escala nanométrica – dezenas de milhares de vezes menor que um fio de cabelo –, utilizadas para a criação de um arcabouço que servirá de base para os curativos médicos para diversos usos. Após testar algumas variações, a equipe chegou a uma combinação de polihidroxibutirato (PHB) e hidroxiapatita (HAp). A hidroxiapatita possui as mesmas características do osso humano e tem afinidade com a água, promovendo a regeneração das células. Já o polímero PHB, formado de moléculas de carbono, tem propriedades biocompatíveis e biodegradáveis. Após testes de toxicidade e biocompatibilidade desenvolvidos pela equipe da universidade, a parceria com o hospital realizará os protocolos necessários para testes em casos reais para validação clínica antes que o curativo seja vendido ao público.

A partir da base desenvolvida, são injetados aditivos no curativo para que ele possa realizar diferentes funções. Em caso de úlceras nos pés, existem várias fases de tratamento, cada qual com uma necessidade diferente. Em certos momentos, é preciso absorver umidade; em outros, hidratar a ferida. “Antes era um pedacinho de pano, e hoje você tem tecidos sintéticos em que consegue incluir outras substâncias. Todos se chamam curativo porque têm aplicação direta, mas nada mais são do que uma evolução daquele velho curativo que a gente conhece”, afirma Rogério Friedman, professor da Faculdade de Medicina da UFRGS e do HCPA. A fase inicial do projeto, o desenvolvimento do tecido, durou cerca de três anos e já foi finalizada. Além disso, foram testados alguns possíveis aditivos, como o óxido de titânio e de zinco, com função bactericida. Agora, o hospital pretende dar continuidade à pesquisa e tornar o curativo viável para uso em casos médicos e venda em larga escala. “Existe uma demanda reprimida para curativos especializados nesta área. Um produto brasileiro, de menor custo e de produção mais fácil, tem um papel importante a desempenhar”, diz o professor. Sem taxas de importação, o produto brasileiro se tornará mais acessível que os seus similares estrangeiros.

Atualmente, existem muitas opções boas de curativos no mercado, mas são todos importados e caros. “Eles não estão largamente disponíveis no SUS, e os pacientes geralmente não têm acesso. O que a gente está buscando é validar uma solução nossa, local, que ofereça a possibilidade de um curativo com a mesma eficácia com disponibilidade ampla e preço menor”, explica Friedman. Essa colaboração está em uma fase inicial, sendo necessário ainda estudar que tipo de aditivos querem usar e testar. É preciso planejar o projeto, buscar financiamento e montar uma equipe multidisciplinar para trabalhar com o desenvolvimento e o teste dos curativos. Será avaliada a eficácia do produto em situações clínicas reais e será feita uma comparação com os disponíveis atualmente no mercado e com o tratamento tradicional sem curativos, podendo levar alguns anos para serem finalizadas esses testagens. Enquanto esses curativos podem ser aproveitados para outros usos, dependendo dos aditivos colocados no arcabouço desenvolvido pela equipe do Lacer, o pé diabético é suficientemente comum para que comecem o projeto com esse enfoque.

Pacientes com diabetes têm um risco maior de desenvolver úlceras, principalmente nos pés. Com a neuropatia periférica, eles podem apresentar problemas de circulação. Essa complicação afeta uma porcentagem alta de pacientes, principalmente aqueles que possuem diabetes por muito tempo ou não controlaram a doença apropriadamente. Essa condição, entretanto, pode ser facilmente administrada com alguns cuidados básicos. Para prevenir o desenvolvimento do pé diabético, os médicos ensinam aos pacientes o exame diário dos pés à procura de machucados que possam passar despercebidos. “Vai principalmente acontecer em pacientes que não foram tão bem-educados ou que não seguem as recomendações que a gente faz”, aponta Friedman. Quando as úlceras se desenvolvem, é necessária uma série de cuidados locais, podendo ocorrer até mesmo uma infecção. O tratamento é longo e oneroso, tanto para o SUS quanto para os pacientes, que precisam gastar em curativos e antibióticos. “Tudo que a gente pode fazer para melhorar o atendimento vale muito a pena. Se você puder tratar de uma pequena úlcera em uma fase em que não precisa de internação e fizer isso com mais eficiência por ter materiais melhores, você evita a internação de muita gente”, afirma o professor.

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