Pesquisa analisa efeitos da dança sobre os sintomas do Parkinson

Estudo é vinculado a projeto de extensão que oferece aulas de dança gratuitas para pessoas com a doença
Professora e alunos fazem exercícios de dança em uma barra
Aulas ocorrem às segundas e quartas-feiras no Centro Natatório da Esefid - Foto: Rochele Zandavalli/UFRGS

Os benefícios da dança para o alívio dos sintomas motores, o bem-estar, a autoestima e a socialização de pacientes com doença de Parkinson têm chamado a atenção de pesquisadores e profissionais da saúde de todo o mundo. Ao juntar a atividade física com a arte, a atividade tem se mostrado um complemento promissor ao tratamento tradicional da doença, que inclui medicamentos, fisioterapia e, por vezes, cirurgias. Uma demonstração desse reconhecimento foi a instituição, neste ano, do Dia Mundial da Dança para o Parkinson, em 29 de abril, por iniciativa de uma parceria que reúne 16 grupos, de dez países diferentes, dedicados a aulas de dança para pessoas com a enfermidade. A data foi escolhida em homenagem ao Mês de Conscientização da Doença de Parkinson, ocorrido em abril, e ao Dia Internacional da Dança, também no dia 29 daquele mês.

Na UFRGS, a relação entre a dança e o Parkinson é tema de projetos de pesquisa e de extensão. Desde o ano passado são oferecidas, na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança (Esefid), aulas de dança a pacientes com a doença. Participam, atualmente, 12 pessoas, entre homens e mulheres de diferentes idades. Além disso, os efeitos da prática na qualidade de vida dos portadores de Parkinson já foram tema de trabalhos de conclusão de curso de graduação e de especialização, e atualmente são objeto de estudo de uma pesquisa de mestrado.

As atividades são coordenadas pela professora do curso de Dança Aline Haas, que começou a pesquisar os efeitos da dança sobre doenças neurológicas em 2011, quando estudou seu uso como método de reabilitação complementar para pacientes de acidente vascular cerebral (AVC) – projeto que fez parte do pós-doutorado de Silvia Susana Wolff. Os trabalhos sobre o Parkinson começaram há cerca de quatro anos, e a professora explica que, apesar de o assunto vir ganhando visibilidade internacionalmente, no Brasil, a área ainda é nova.

“A gente começou lendo sobre estudos que demonstram que a dança, muitas vezes, tem um benefício mais efetivo quando comparada a outros tipos de intervenção. Isso ocorre até mesmo em relação à fisioterapia regular. Em algumas variáveis, como a qualidade de vida e a marcha, que é o que a gente tem estudado, a dança apresenta um resultado bem interessante”, comenta Aline.

Uma revisão sistemática de pesquisas da área, elaborada por Marcela Delabary para seu trabalho de conclusão do curso de Especialização em Dança, apontou que foram percebidos, em pacientes submetidos a aulas de dança, resultados significativos, principalmente em parâmetros relacionados à mobilidade e aos sintomas motores da doença. A maior parte desses estudos utilizou, como estilos de dança, o tango e a valsa, conforme relatam Marcela e Aline.

Para o projeto desenvolvido na UFRGS, entretanto, as pesquisadoras buscaram trazer dois ritmos brasileiros: o samba e o forró. “A gente decidiu por esses ritmos porque eles vão trazer aspectos histórico-culturais do país, além de memórias e lembranças dos pacientes. A intenção é também trabalhar essa questão mais qualitativa nas aulas”, explica Marcela, que agora está desenvolvendo, para a sua dissertação de mestrado em Ciências do Movimento Humano, uma investigação dos efeitos da prática regular de dança e de caminhada na marcha e na qualidade de vida de indivíduos com a doença de Parkinson.

“Essa questão de intercruzar a dança com a saúde é uma área muito rica. É diferente de um exercício físico, que não tem esse lado colaborativo, esse lado sensível, não tem esse estar com o outro, esse lado de compartilhar, de segurar a mão. Tudo isso a arte proporciona”, destaca Aline. “A gente viu que a caminhada também pode ser benéfica, mas com outro viés, porque a caminhada é sozinha, é tu contigo. Essa coisa de eles conviverem, de eles virem aqui, ficarem num grupo de pessoas que têm o mesmo tipo de problemas que eles, faz diferença. A questão social da dança é muito rica”, completa.

Como salienta Marcela, o essencial é que o paciente goste da atividade. “Qualquer que seja o programa, só vai trazer resultados positivos se ele aderir. A gente vê, então, a dança como uma das possibilidades benéficas, porque a dança não é somente um exercício físico, ela tem um lado artístico”, ressalta.

 

Dinâmica das aulas

As aulas, ministradas duas vezes por semana, seguem um protocolo diferente dos cursos de dança de salão tradicionais, com exercícios voltados a atender às especificidades das pessoas com doença de Parkinson. As atividades são divididas em quatro partes. Na primeira, os alunos se sentam em cadeiras para fazer aquecimento articular e alongamento. “Essa parte é feita em cadeiras para que se possa ter uma tranquilidade maior de que eles não vão cair nem se desequilibrar e também para que a gente consiga trabalhar um pouco mais a mobilidade, esse ‘acordar do corpo’”, explica Marcela. Nesse momento, também são feitos alguns trabalhos rítmicos em que os alunos mexem as pernas como se estivesse marchando no chão. “Essa amplitude da marcha tem que ficar cada vez maior. Eles têm que, cada vez mais, ir subindo os joelhos”, relata a mestranda. Na sequência, são feitos exercícios na barra, momento em que são trabalhados alguns elementos do balé clássico relacionados à transferência de peso e ao equilíbrio.

A terceira parte, por sua vez, é dedicada aos passos de forró ou samba. Quem já fez aulas de dança de salão anteriormente, no entanto, talvez estranhe a ausência de algumas técnicas convencionais, como o abraço e os papéis da dama e do cavalheiro. “O foco, aqui, é eles estarem em movimento, transferindo peso de uma perna para a outra. O importante não é que façam perfeitamente o passo, mas que não parem de se mexer. De vez em quando, a gente os coloca de mãos dadas, em duplas, mas aí não interessa quem é dama e quem é cavalheiro. O que importa é que memorizem a sequência e explorem os passos nas duplas”, explica Marcela.

Por fim, a aula pode acabar de duas maneiras diferentes. Na segunda-feira, ela é finalizada com exercícios mais lúdicos: são propostas várias atividades, como “o chefe manda”, “espelho em duplas” e criação coreográfica. “Sempre para descontrair, de um jeito que se aproxima mais da arte; se aproxima mais da criação, da expressão”, conta a estudante. Já na quarta-feira, a parte final da aula envolve atividades um pouco mais difíceis, que exigem mais esforço e coordenação motora. São desenvolvidas espécies de circuitos que incluem estímulos visuais e auditivos para a realização dos desafios. “Mas a aula sempre vai terminar de um jeito divertido. Mesmo quando é circuito, a gente termina numa roda e faz um grito de guerra. A ideia é trabalhar também essa questão da socialização”, explica.

 

Benefícios percebidos e resultados iniciais

No semestre passado, os efeitos da dança sobre a qualidade de vida dos participantes do projeto foram avaliados por Camila Moehler para o seu trabalho de conclusão de curso em Fisioterapia. Os cinco pacientes que frequentavam as aulas na época foram analisados antes da intervenção e depois de 24 aulas. Os resultados foram comparados com os de um grupo de pessoas com Parkinson que não faziam qualquer tipo de atividade física. A qualidade de vida foi medida pelo PDQ 39, um instrumento específico para pacientes com Parkinson, validado na literatura internacional e composto por oito domínios: mobilidade, atividades da vida diária, bem-estar emocional, estigma, apoio social, cognição, comunicação e desconforto corporal.

Apesar de não terem sido encontrados resultados estatisticamente significativos nesse estudo – o que pode se explicar tanto pelo baixo número de participantes quanto por limitações do instrumento utilizado –, as pesquisadoras notaram, observando os alunos e ouvindo seus relatos no dia a dia, o quanto as intervenções foram benéficas para o grupo: “Tivemos um retorno bem positivo na parte mais qualitativa, nos relatos. Não avaliamos isso na pesquisa, mas percebemos que eles se sentiam melhor e notamos a perda de alguns sintomas quando eles dançavam”, conta Aline, lembrando que, durante as aulas, muitos dos alunos apresentam reduções visíveis de determinados sintomas motores, como o tremor e a inclinação da coluna.

“O PDQ 39 é um instrumento que se limita. Tanto que a gente pensa em fazer mais para frente um estudo que envolva entrevistas, porque a gente, no dia a dia, enxerga as mudanças. A gente vê que eles vão chegando mais animados, vão colocando roupas mais coloridas. Percebemos os benefícios também pelas frases que nos falam”, explica Marcela. Outro indício do sucesso do projeto é o fato de que todos os alunos que fizeram as aulas no ano anterior continuam neste ano. “Os cinco que estavam no ano passado, fazia chuva, fazia sol, caía canivete, nunca faltavam. É um público muito fiel, até porque as aulas são como um medicamento para eles”, enfatiza Aline.

A percepção das pesquisadoras é confirmada pelo relato das alunas Sílvia da Silva Carvalho, de 64 anos, e Eloí Feijó da Silva, de 82 anos, que começaram as aulas no ano passado. Ambas foram diagnosticadas com Parkinson há cerca de 11 anos e contam que vêm percebendo benefícios da prática de dança no cotidiano. “Eu acho muito bom e, se não venho, sinto falta; o organismo sente falta. Faz uns quatro ou cinco anos que venho aqui na UFRGS. Comecei com as caminhadas, e vou dizer que gostei mais da dança. Mas caminhada também é muito bom. A gente sempre se sente melhor quando vem. E chego em casa e danço mais. Não paro, senão começa aquela rigidez”, conta Sílvia. “Também estou adorando. Me sinto melhor fisicamente”, diz Eloí. “Só aquela coisa de levantar cedo para vir pra cá já é uma felicidade, já me sinto muito bem. Meu colesterol baixou, e eu caía muito. Isso também já aliviou”, completa.

 

Andamento das pesquisas

Para sua dissertação, Marcela pretende comparar os efeitos da dança e da caminhada em diversos parâmetros. Além da reaplicação do PDQ 39, serão avaliados a mobilidade funcional, a velocidade autosselecionada de caminhada (aquela em que o paciente se sente mais confortável para andar), o índice de reabilitação (diferença entre a velocidade autosselecionada e a velocidade que seria considerada ideal) e os sintomas motores. Também serão realizados testes cinemáticos, que mensuram, entre outros fatores, a frequência, a velocidade, o comprimento e o tempo da passada. A ideia é que haja 19 pessoas em cada grupo, sendo que, para ser incluído na pesquisa, é necessário que o paciente tenha 50 anos ou mais, diagnóstico de Parkinson de no mínimo um ano e que não tenha realizado cirurgia de neuroestimulação.

Apesar dos requisitos para participar do estudo, as aulas são abertas a todos os interessados que tenham sido diagnosticados com Parkinson, independentemente da idade, do tempo de diagnóstico e de ter passado por procedimento cirúrgico. As aulas são gratuitas, e informações sobre os horários e as inscrições estão disponíveis no site da Esefid. Também é possível acompanhar as atividades do grupo pela página do projeto no Facebook.

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