Pesquisa aponta histórico da poluição do Lago Guaíba

Mudanças na água já eram notadas pelo poder público e pela população durante o século XIX
Vista área de Porto Alegre com o lago Guaíba
Principal manancial de abastecimento de Porto Alegre, o Guaíba é também destino da rede de esgotos - Foto: Flávio Dutra/UFRGS

O Guaíba é parte vital da cidade de Porto Alegre e de sua região metropolitana, sendo regularmente lembrado em conversas a respeito de sua classificação: se é rio ou lago. Esse questionamento vem sendo feito ao longo de sua história e, na falta de uma definição, os habitantes passaram a chamá-lo somente de Guaíba. Recentemente, pesquisadores o enquadraram na categoria de lago, por possuir um acúmulo de água trazido de seus afluentes (entre os principais estão os rios Jacuí, dos Sinos, Caí e Gravataí) e ter uma dinâmica de escoamento bidimensional controlada pela Laguna dos Patos que, por vezes, inverte seus fluxos – de norte > sul para sul > norte –, retendo as águas.

Famoso pelo pôr do sol, considerado pelos porto-alegrenses como um dos mais bonitos, suas águas escondem mistérios nada atrativos à população local que depende delas para o abastecimento das casas e as atividades econômicas. Durante determinadas épocas do ano, é comum ouvir reclamações a respeito das mudanças na coloração, no odor e no sabor.

Foi pensando na importância ambiental do Guaíba para os cerca de 1,4 milhão de habitantes de Porto Alegre que o engenheiro ambiental Leonardo Capeleto de Andrade escolheu estudar em sua tese de doutorado o contexto histórico-cultural da poluição do lago. O trabalho, produzido no Programa de Pós-Graduação em Ciência do Solo da UFRGS, foi orientado pelo professor Flávio Anastácio de Oliveira Camargo e realizado em conjunto com a Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos.

A pesquisa buscou traçar as origens e os diferentes tipos de poluição presentes, assim como a relação entre o lago e a população das cidades beneficiadas por este. “A poluição do Guaíba possui diversas fontes, devido a sua grande Região Hidrográfica. Porém a poluição mais evidente é a urbana, derivada de indústrias e esgotos”, destaca o engenheiro. Essas águas acompanham o desenvolvimento da capital desde o seu povoamento em 1752, quando foi usada como meio de navegação pelos 60 casais portugueses que desembarcaram e fixaram moradia em suas margens.

O desenvolvimento urbano e o consequente aumento populacional, aliado aos descuidos dos habitantes e do poder público, foi o principal causador da degradação do Guaíba e seus afluentes, como o Rio dos Sinos. A instalação de indústrias coureiro-calçadistas na região de Novo Hamburgo e São Leopoldo, na metade do século XX, provocou a liberação elevada de metais e macronutrientes (como fósforo, carbono e nitrogênio), responsáveis pela redução de oxigênio dissolvido e pelo aumento da toxicidade ambiental.

Esses componentes possuem efeitos diferentes, os macronutrientes – encontrados nos esgotos – podem contribuir para a proliferação de plantas e cianobactérias, alterações de sabor, cor e odor, além de efeitos tóxicos em caso de floração. Por outro lado, os metais não possuem efeitos visíveis ao olho humano, porém quando em grandes quantidades podem gerar acúmulos na cadeia trófica e, inclusive, induzir a uma série de doenças. Os poluentes contaminam os níveis tróficos inferiores (moluscos) e são transferidos ao longo da cadeia alimentar aquática até o nível trófico superior (peixes que comem os moluscos contaminados), chegando por último ao ser humano que ingere o peixe. “Ao que tudo indica, [a poluição metálica] ainda é uma herança dos anos 1960-1970, da explosão industrial que houve (o ‘milagre econômico’). Porém muitas indústrias seguiram em pleno funcionamento até os anos 1990 ou seguem até hoje (como a coureiro-calçadista)”, explica Leonardo.

Principal manancial de abastecimento da capital – fonte de água doce usada para o consumo humano e o desenvolvimento de atividades econômicas –, o Guaíba possui outra finalidade um tanto singular: a mesma água usada no abastecimento das casas recebe os dejetos trazidos pela rede de esgoto. Essa prática já era notada durante o século XIX, quando grande parte da população consumia diretamente a água em que seus dejetos eram despejados sem tratamento. Mesmo após a construção da rede de esgotos entre 1907-1912, os dejetos continuaram a ser descartados no local, que acabou por ser escolhido para ser o seu destino final.

O pesquisador lembra também que as praias do Guaíba já foram banháveis, contudo, começaram a ser abandonadas a partir da década de 1950 devido ao aumento da poluição, e hoje o contato direto não é incentivado por apresentar riscos à saúde. Devido a isso, a população porto-alegrense acabou por se acostumar a ficar longe do Guaíba, perdendo sua conexão histórica e a noção de sua importância.

Para chegar às nossas torneiras, a água precisa passar por um complexo tratamento físico-químico para ter quase todas as impurezas retiradas e se tornar potável. Segundo o Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE), o processo é composto por nove etapas (pré-tratamento, captação, floculação, decantação, filtração, desinfecção, alcalinização, fluoretação e distribuição), nas quais a água passa por filtros, adição de agentes químicos e carvão ativado para então poder ser armazenada em reservatórios e, depois, distribuída. Mesmo após tratada, é possível encontrar remanescentes de poluição orgânica – oriunda principalmente dos esgotos domésticos da capital – que podem estar carregando outros problemas não detectados nas análises do tratamento.

Apesar do estado agravante em que se encontra, o caso é reversível, necessitando apenas de investimentos públicos para fechar as “torneiras” da poluição e os ciclos ambientais poderem dar conta de se renovar. “Se ampliado o tratamento de esgotos (Porto Alegre conta atualmente com 80% de capacidade e uns 65% de tratamento), haveria uma melhoria das condições. Mas isto exigiria uma cooperação regional, pois toda a região metropolitana altera essas águas. E tudo isto custa dinheiro (muito dinheiro) – que não ‘existe’ neste momento. As indústrias também precisariam ser mais adequadamente fiscalizadas, o que exigiria a contratação de mais técnicos na Fepam [Fundação Estadual de Proteção Ambiental] e de outros órgãos ambientais…”, esclarece o engenheiro ambiental, que não vê perspectivas futuras de melhorias.

A Prefeitura de Porto Alegre executa programas governamentais visando à despoluição do lago desde a instauração do Polo Petroquímico do Sul em Triunfo, responsável pelos preocupantes níveis de poluição química encontrados por ecologistas. Iniciado nos anos 2000, o Programa Integrado Socioambiental (Pisa), funciona em conjunto com o monitoramento feito pelo DMAE, visando melhorar a qualidade das águas e retomar a balneabilidade. Entretanto, o pesquisador ainda não notou uma melhora na qualidade ambiental do lago e acredita que, até que haja maior investimento, a população continuará a sofrer as consequências de suas ações.

A pesquisa foi, por hora, finalizada, sem continuações previstas pelo autor por falta de investimentos governamentais e financeiros, tendo tido negadas as quatro bolsas de pós-doutorado em que havia se inscrito. Porém, ele ressalta a importância de artigos como o seu para a construção de uma base de dados comparativos da poluição desse lago ao longo dos anos e de cidades similares. Buscando alcançar o maior público possível, o pesquisador promoveu uma série de divulgações em diferentes meios, como a publicação da pesquisa em revistas especializadas, a participação do Comitê de Bacia do Guaíba, a divulgação para os jornais locais, a criação e a divulgação de vídeos e textos em plataformas alternativas e a participação de eventos em faculdades. Os resultados também chegaram aos governos municipal e estadual pelo DMAE, um dos órgãos responsáveis pelo monitoramento do Guaíba.

 

Artigo científico

ANDRADE, Leonardo Capeleto de et al. Lago Guaíba: uma análise histórico-cultural da poluição hídrica em Porto Alegre, RS, Brasil. Engenharia Sanitária e Ambiental, abr. 2019.

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