Pesquisa avalia a eficiência da psicoterapia via internet

Pacientes que realizaram tratamento online obtiveram resultados semelhantes aos que fizeram psicoterapia presencial
Atendimentos via Skype foram avaliados qualitativamente e quantitativamente - Foto: Gustavo Diehl/UFRGS

A pesquisa realizada por Maria Adélia Pieta, em sua tese de doutorado em Psicologia na UFRGS, buscou analisar os resultados da psicoterapia via internet. No Brasil, essa prática somente é permitida pelo Conselho Federal de Psicologia se associada à pesquisa. É autorizada a orientação psicológica online, que é um método diferente da psicoterapia. “Pode haver vinte sessões quando o terapeuta já atende o paciente presencialmente”, esclarece a pesquisadora. A psicoterapia online é um método muito praticado no exterior, como em países do Reino Unido, Austrália e em alguns estados americanos.

Os atendimentos aconteceram de junho a novembro de 2012. Doze pacientes foram atendidos online, e outros doze, presencialmente, porém apenas onze de cada grupo continuaram até o final das sessões. A pesquisa foi anunciada em um jornal de Porto Alegre, e os leitores interessados passaram por um processo de seleção. “O único critério excludente era que não apresentassem sintomas psicóticos. Chegaram, então, pessoas de diversas classes, mas não com uma patologia”, explica.

Os pacientes foram atendidos individualmente, uma vez por semana, por oito terapeutas voluntárias do Instituto Contemporâneo de Psicanálise e Transdisciplinaridade. As mesmas psicólogas proveram ambos os tipos de tratamento para não haver viés de terapeuta. As consultas eram realizadas via Skype, por ser considerado um meio que se aproxima muito de um encontro verdadeiro e promove uma sensação que a pesquisadora  denomina “telepresença”. Os pacientes tratados online nunca encontraram pessoalmente suas terapeutas.

“Avaliamos de dois modos o processo psicoterápico via Skype: qualitativamente, por meio de entrevistas nas quais as pessoas narraram os ganhos que obtiveram; e quantitativamente, utilizando um questionário que mede o progresso do tratamento: o Outcome Questionnaire (OQ-45). Os pacientes preenchiam um questionário antes de cada sessão e outro um ano depois”, explica a pesquisadora.

Segundo Maria Adélia, uma das principais diferenças do tratamento convencional para o online é o “olho no olho” – muito importante em clínica. Outro ponto importante se refere ao processo psicoterápico em si: nos encontros online, as terapeutas procuravam maneiras de compensar a frieza do meio. “Na técnica psicanalítica, o silêncio ficou comprometido. Se havia muito tempo de silêncio, a terapeuta se preocupava se o paciente estava ouvindo de fato ou se a conexão havia caído. Já se fosse um encontro presencial, o paciente teria esse tempo para arregimentar suas ideias”, ilustra a pesquisadora.  A associação livre, quando o paciente expõe seus pensamentos num fluxo constante, também ficava prejudicada, pois, se a transmissão ficasse entrecortada, a terapeuta poderia se perder no raciocínio.

 

Diretrizes

Esse tipo de tratamento deve seguir alguns modelos éticos. A Associação Americana de Psicologia estabeleceu algumas diretrizes:

  1. O terapeuta deve ter conhecimento sobre a tecnologia utilizada e verificar se o paciente a possui dentro dos parâmetros mínimos para o atendimento;
  2. Ter uma excelente conexão;
  3. Paciente e terapeuta devem fazer um acordo sobre os recursos locais que podem ser acionados em caso de emergência;
  4. Deve ser combinado o tempo de sessão, em que contatos eventuais entre sessões podem ser cobrados;
  5. Deve haver acordo caso o paciente necessite utilizar e-mail. O terapeuta já deve ter combinado que a resposta a esse e-mail será cobrada, ao menos como uma minissessão, pois o terapeuta necessita de um tempo considerável para elaborar uma resposta adequada.

 

Relações terapêuticas

Durante os atendimentos, ocorre entre paciente e terapeuta o que se chama de aliança terapêutica, também denominada relação terapêutica. “Supreendentemente, os estudos foram mostrando que não há diferenças tão substanciais entre a relação online e a presencial. Claro que não é exatamente a mesma coisa. Qualitativamente é diferente, mas não se pode dizer que há prejuízo para a terapia.”

Ao final do tratamento, observou-se redução de sintomas, sem diferença significativa entre os resultados dos grupos presencial e online. “Esse estudo abre portas para se pensar na possibilidade da psicoterapia pela internet no Brasil, pelo menos nessa modalidade Skype”, salienta a pesquisadora. Premiada pela UFRGS pela melhor tese apresentada em 2014 na categoria Ciências Humanas, Maria Adélia relata que esse é o primeiro estudo de que se têm notícia que avaliou o progresso dos pacientes pela utilização de medidas objetivas e com resultados satisfatórios, evidenciando que é possível o tratamento. “Como o Brasil possui um vasto território, algumas regiões provavelmente não têm atendimento psicoterápico, então esse seria um serviço de grande importância”, ressalta.

 

Tese

Título: Psicoterapia pela internet: a relação terapêutica
Autora: Maria Adélia Minghelli Pieta
Orientador: William Barbosa Gomes
Unidade: Programa de Pós-Graduação em Psicologia

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