Pesquisa possibilita redução do tempo de repouso após cateterismo cardíaco

Além de ampliar o conforto dos pacientes, estudo possibilitou o aumento do número de atendimentos no HCPA
Pesquisa propõe a redução do tempo de repouso após cateterismo cardíaco de cinco para três horas – Foto: Markus Spiske/Flickr CC BY 2.0

O cateterismo cardíaco é um procedimento realizado para diagnosticar ou tratar diversas doenças cardíacas. A partir dele, é possível avaliar a função do coração, visualizar se há obstrução das artérias coronárias (que fornecem oxigênio ao coração) e a presença de placas de gordura, entre outras atividades. De acordo com o médico especialista em cardiologia intervencionista Marco Wainstein, entre as razões que levam à realização do exame estão sintomas de infarto, testes funcionais compatíveis com isquemias, além de valvopatias (quando uma ou mais válvulas cardíacas não funcionam de forma correta).

O procedimento é feito no setor de hemodinâmica por médicos cardiologistas intervencionistas, com ajuda de uma equipe, além de aparelhos de raio-X, monitores de eletrocardiograma e de pressão arterial e filmadoras apropriadas para registrar o estado em que se encontra o coração. O médico punciona a artéria femoral, na perna, próximo da virilha, ou a radial, no punho, em um procedimento que permite a realização da gasometria arterial, que fornece o pH do sangue. O cateter, um tubo longo e flexível, é colocado através de um introdutor e guiado até o coração para que se possa analisar o órgão e o estado das artérias coronárias.

No Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), muitos procedimentos estavam deixando de ser realizados por falta de leitos na sala de observação . Em virtude disso, a enfermeira especialista em cardiologia Roselene Matte, junto com as enfermeiras Thamires de Souza Hilário, Rejane Reich, Graziella Badin Aliti e Eneida Rejane Rabelo da Silva, realizaram uma pesquisa para testar a hipótese de redução do tempo de repouso no leito de cinco para três horas após cateterismo cardíaco sem o aumento de complicações relacionadas à punção arterial femoral. Segundo Roselene, a partir de 2008, com sua migração para a unidade de hemodinâmica, foi exigido que fizesse pós-graduação em cardiologia, o que acabou evoluindo para um mestrado. “Eu queria estudar algo que viesse em benefício da nossa unidade”, lembra. O artigo, extraído da dissertação de mestrado de Roselene, defendida no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFRGS, trouxe a comprovação de uma prática já realizada em outros lugares do Brasil e do mundo. “Essa redução já é uma tendência em outros locais, mas precisávamos de uma prova para colocar em prática aqui”, afirma.

 

Intervenção

A intervenção foi realizada no laboratório de hemodinâmica do HCPA, e os participantes foram divididos em dois grupos. No Grupo de Intervenção (GI), os pacientes permaneceram na unidade por três horas, enquanto o Grupo Controle (GC) permaneceu durante cinco horas. Todos os participantes foram avaliados a cada hora e contatados 24, 48 e 72 horas após a alta hospitalar.

No GI, os pacientes mantiveram repouso no leito, deitados de barriga para cima por duas horas após o término da compressão manual para estancamento do sangue na retirada do introdutor do cateter. Após esse período, os participantes permaneceram com a cabeceira elevada em 45 graus por 60 minutos e, em seguida, caminharam por dez minutos. Depois disso, a equipe instruiu os pacientes a ficarem sentados fora do leito até fechar cinco horas, quando recebiam alta hospitalar e se deslocavam andando.

Já no GC, os pacientes mantiveram repouso no leito, deitados de barriga para cima, por quatro horas após o término da compressão manual. Depois, permaneceram com a cabeceira elevada em 45 graus por 60 minutos e, a seguir, caminharam por 10 minutos. Em seguida, os pacientes receberam alta hospitalar e se deslocaram andando.

Todos os participantes receberam uma folha de instruções contendo descrições e imagens ilustrativas de sangramentos, hematomas, manchas na pele e pseudoaneurismas (alterações nas artérias), além de uma régua, com a qual poderiam medir qualquer complicação visível no local da punção.

As equipes do laboratório de hemodinâmica não tinham conhecimento de quais pacientes pertenciam a qual grupo até a segunda hora de repouso no leito.

 

Resultados

No início, havia 2.827 pacientes elegíveis. Desses, 387 foram eliminados por apresentar pelo menos um dos critérios de exclusão:

  • restrição a pequenas caminhadas;
  • em uso de anticoagulantes orais;
  • com IMC maior que 35 kg/m2;
  • hipertensos com pressão arterial sistólica maior ou igual a 180 mmHg e pressão arterial diastólica maior ou igual a 110mmHg no final do procedimento;
  • pacientes com história de sangramento prévio não controlado.

37 não quiseram participar do estudo, e 1.673 foram excluídos por outras razões, como por estarem internados, terem alguma deficiência cognitiva ou pela realização de punção radial ou de cateterismo cardíaco direito, que não era o foco do estudo. Questões de logística das pesquisadoras, como férias e revezamentos, também influenciaram. Para a realização da pesquisa, permaneceram 730 pacientes: 367 para o GI e 363 para o GC.

Não foi possível o contato telefônico em 24 horas após alta hospitalar com 22 pessoas do GI e 26 pessoas do GC, restando, no final do estudo, 345 e 337 pacientes, respectivamente. No GI, participaram 211 mulheres, e no GC, 196, totalizando 407 pacientes do sexo feminino para 323 do sexo masculino. A idade dos participantes de ambos os grupos ficou em torno dos 60 anos.

Quanto às complicações pós-cateterismo cardíaco ainda no hospital, o hematoma foi a que mais teve ocorrência em ambos os grupos – 12 pessoas no GI e 13 no GC. Em seguida foi o sangramento – 4 no GI e 6 no GC – e, em terceiro, a diminuição da pressão arterial e do batimento cardíaco – 5 no GI e 4 no GC. Após a alta hospitalar, a ausência de complicações prevaleceu nos dois grupos.

Roselene concluiu que a estratégia de reduzir para três horas o tempo de repouso foi positiva. “É importante ressaltar que essa redução traz mais conforto aos pacientes e também abre a possibilidade de realização de mais procedimentos”, observa. Hoje, a redução do tempo já uma realidade concreta no HCPA, que possibilita o aumento do número de atendimentos realizados.

A enfermeira afirmou que não imaginava uma repercussão tão grande. “Fui reconhecida em inúmeras situações, inclusive em eventos da presidência do hospital”, lembra. Ela destaca que o trabalho em grupo foi crucial para que o estudo fosse realizado. “Os colegas, assim como os funcionários, foram unânimes em aceitar e valorizar a pesquisa, até porque irá beneficiar muita gente”, afirma.

Quanto a projetos futuros, Roselene já está pensando em realizar pesquisas nesse mesmo contexto em outras áreas. “Queremos fazer um trabalho com pacientes que passam por angioplastia, pois eles ficam em repouso aqui durante quatro horas, então queremos reduzir esse tempo de permanência”, conta.

 

Artigo científico

MATTE, Roselene et al. Redução do repouso de cinco para três horas não aumenta complicações após cateterismo cardíaco: THREE CATH Clinical Trial. Rev. Latino-am. Enfermagem, 2016.

 

Dissertação

Título: Repouso de três horas no leito após cateterismo cardíaco diagnóstico com introdutor 6 french não aumenta complicações decorrentes da punção arterial: ensaio clínico randomizado
Autora: Roselene Matte
OrientadoraEneida Rejane Rabelo da Silva
Unidade: Programa de Pós-Graduação em Enfermagem

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