Pesquisador traça o perfil dos alunos do ensino médio do Colégio de Aplicação da UFRGS

Estudo foca-se na relação dos estudantes com a cidade e em suas vivências urbanas
adolescentes caminhando em frente ao Colégio de Aplicação
Foram coletados dados sobre condições socioeconômicas, preferências e percepções dos adolescentes sobre a cidade - Foto: Rochele Zandavalli/UFRGS - Arquivo

Entender os seus alunos pode ser crucial para auxiliar os professores na formação dos jovens. Conhecendo o seu público, suas preferências e motivações, pode-se criar estratégias didáticas para tornar o processo de ensino mais eficaz. Com isso em mente, Victor Hugo Nedel Oliveira, pesquisador e professor de geografia do Colégio de Aplicação da UFRGS, junto com a sua equipe de bolsistas de graduação de áreas variadas, começou um mapeamento das turmas de ensino médio da instituição. Coletando dados sobre as suas condições socioeconômicas, preferências e suas percepções sobre a cidade, a pesquisa foca-se na relação dos alunos com Porto Alegre e as suas vivências urbanas. “Pesquisar juventudes no âmbito da educação é ter um diálogo mais estreito com esses jovens. É saber quem são esses alunos, quais são os seus desejos, os seus anseios, como eles pensam o mundo, a sociedade e a escola”, afirma Victor.

De acordo com o pesquisador e a bibliografia consultada pelo grupo, existem três pilares importantes para ser um bom professor: saber o conteúdo, saber ensinar e saber quem são os seus alunos. “Precisamos entender quem são os alunos para que possamos atingi-los, para poder construir o conhecimento em sala de aula de maneira mais direta”, ele completa. No contexto de outras escolas públicas e até mesmo privadas, o Colégio de Aplicação é diferenciado. Pertencente à UFRGS, conta com um corpo docente formado de professores que fazem parte do quadro da universidade e envolve-se em inúmeros projetos de pesquisa e extensão dos quais os alunos podem fazer parte. Além disso, o colégio se encontra localizado fora dos centros urbanos mais movimentados, causando um trânsito diferenciado para os seus estudantes. Utilizando vans ou ônibus, a maioria desses adolescentes atravessa a cidade e leva mais de uma hora para chegar às aulas. Com a pesquisa, o grupo analisou como são os trânsitos desses jovens e como percebem a cidade ao seu redor. A ideia é não somente ajudar os professores de geografia, mas também que esses resultados possam ser explorados em qualquer área de conhecimento. De acordo com os conceitos de “lugar”, um local que se forma a partir das relações de identidade, e “território”, espaço que se delimita através do poder, eles buscam entender onde os jovens têm esse sentimento de pertencimento e poder na nossa cidade e como eles marcam esses espaços.

O estudo irá contar com quatro etapas, das quais duas já foram realizadas. Primeiramente, foi aplicado um questionário quantitativo e qualitativo em todas as turmas de ensino médio da escola. Com a adesão de cerca de 95% dos alunos, as perguntas abrangiam o caminho que eles percorriam para chegar à escola, quais lugares gostam de visitar em Porto Alegre, o que pensam da cidade, entre outros pontos. Com as respostas de 132 adolescentes, foi possível notar que a violência e a sujeira são dois dos fatores mais representativos da cidade para eles. Entre os lugares que eles mais gostariam de visitar, se encontram locais como o Jardim Botânico, a Fundação Iberê Camargo e a Casa de Cultura Mário Quintana, e foi possível observar que a maioria das visitas realizadas a museus e teatros ocorreram por causa da escola, que se torna um importante influenciador das suas formações culturais. Esses alunos também apontam que a maior parte dos seus relacionamentos com outros indivíduos se dá no colégio, apesar da ascensão da internet e da criação de relacionamentos virtuais no ciberespaço.

Após a aplicação desse questionário multifacetado, foi realizada uma dinâmica intitulada “cartas ao turista”, onde 28 alunos deveriam escrever uma carta a uma pessoa hipotética contando todos os lugares que o levariam em 24 horas na cidade. Além do roteiro de passeios, esses estudantes também apresentaram dicas a esse turista, a maioria delas relacionada com a segurança. Analisando o conteúdo dessas cartas, o professor percebe que muitos dos lugares citados por eles não são necessariamente lugares que frequentam, devido à falta de noção entre tempo e distância que demonstraram. Esses espaços que gostariam de mostrar da sua cidade podem ser lugares que eles nem mesmo conhecem. Para as próximas etapas, os pesquisadores irão realizar um grupo focal para refinar algumas respostas e tirar dúvidas que permaneceram do processo anterior, além de fazer uma saída de campo para acompanhar esses jovens em seus trajetos e verificar como se relacionam com a cidade. “O jovem contemporâneo estudante do ensino médio do Colégio de Aplicação tem belíssimas vivências urbanas. É um jovem que transita pela cidade, que frequenta espaços públicos e privados sem distinção entre os dois, muitas vezes sozinho ou em grupos”, diz.

De acordo com as respostas obtidas, o professor acredita que os alunos estão atentos a questões políticas e sociais como a violência urbana e a limpeza, colocados a par do assunto através de debates e projetos realizados pelos professores. A escola possui uma função social de formar cidadãos conscientes para os problemas da cidade e da sociedade no geral. Para ele, “a formação cidadã é fundamental em qualquer espectro e em qualquer instituição de ensino”. O objetivo da pesquisa é construir conhecimento que possa ser dividido com a comunidade e contribuir para a sociedade de alguma maneira. Durante a pesquisa, foi percebido que mais do que dar voz aos jovens, é preciso dar ouvidos e compreendê-los. “Não existe uma única maneira de ser e estar jovem, cada jovem expressa as suas maneiras de ser e estar jovem no mundo contemporâneo. Ser jovem é ser diverso, é ser plural”, afirma Victor.

Embora ainda em desenvolvimento e previsto para ser finalizado em 2020, o projeto já apresenta resultados relevantes, os quais serão apresentados para a comunidade acadêmica em diferentes eventos científicos neste semestre, incluindo o Salão de Iniciação Científica da UFRGS e o da PUCRS, o Encontro Estadual dos Geógrafos e o Primeiro Simpósio de Juventudes Contemporâneas da PUCRS. Para Victor, a necessidade de debater esse tema é óbvia. Trabalhar com juventudes é trabalhar com as suas relações sociológicas, suas relações com o outro, com a escola, com a sociedade. “É muito gratificante ser um professor que pesquisa os seus alunos, porque a gente sabe com quem está falando”, completa.

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