Pesquisador usa a produção de vídeos para ensinar crianças sobre sustentabilidade

Estudo de caso aponta maior engajamento dos alunos durante as atividades
criança com celular na mão
A utilização de elementos audiovisuais na educação pode contribuir com o desenvolvimento de atividades criativas e a construção de habilidades tecnológicas - Foto: Rochele Zandavalli/UFRGS - Arquivo

Atualmente, vivemos em uma sociedade permeada por diversos tipos de tecnologias: elementos que usamos para nos informar, nos expressar e comunicar, entre outras funções. Essas tecnologias não somente influenciaram o nosso dia a dia e o modo como nos relacionamos com outros na sociedade, elas também trouxeram elementos novos para os processos de ensino. Para as crianças, os livros e os antigos métodos de ensino não são mais tão eficazes, nesse novo contexto em que nos encontramos, quanto costumavam ser no passado. O apelo dos elementos audiovisuais, especialmente, é inegável, apesar de ainda não terem todo o seu potencial explorado no processo educativo.

Foi através da sua experiência na área de comunicação, desde a sua formação em Produção Audiovisual na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) até o trabalho como técnico audiovisual na UFRGS TV, que Francisco Milanez surgiu com o tema para a sua dissertação de mestrado. A fim de compreender a influência e a eficácia de suportes audiovisuais no ensino, Francisco realizou um estudo de caso na Escola Municipal de Ensino Fundamental Deputado Victor Issler, de Porto Alegre. Orientada pela professora Angela Wyse, a dissertação foi apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências: Químicas da Vida e Saúde da UFRGS. Com o conhecimento de Francisco na área de cinema e a metodologia científica proposta por Angela, o projeto trabalhou o tema da sustentabilidade a partir da produção de vídeos pelos próprios alunos.

Atualmente, é imprescindível que a educação esteja sempre se atualizando e buscando novos métodos de manter os alunos engajados e interessados no assunto que está sendo apresentado em sala de aula. No ensino básico, o uso de elementos audiovisuais, além de trabalhar os conteúdos de maneira interdisciplinar, pode contribuir para o desenvolvimento de atividades criativas e a construção de habilidades tecnológicas que os alunos possam utilizar de forma positiva no futuro. “Hoje em dia, você saber produzir um vídeo de qualidade pode te transformar num contador de histórias, um storyteller. É uma ferramenta muito útil em vários sentidos, especialmente para se comunicar com o mundo e se tornar protagonista da própria história”, afirma Francisco. O mau uso dessas tecnologias também pode atuar negativamente na sociedade, como, por exemplo, o surgimento de fake news (notícias falsas) e a influência de propagandas que vemos diariamente tanto de maneira positiva quanto negativa. Para ele, é importante desenvolver desde cedo uma visão mais crítica e ampla dessas tecnologias, além de habilidades que possam ser usadas de maneira eficiente e produtiva.

O estudo foi feito com um grupo de 20 alunos do 4º ano do ensino fundamental. Primeiramente, foram aplicados questionários com a professora da turma e os alunos para averiguar os conhecimentos deles sobre o tema e também sobre o uso de vídeos durante as aulas. Após os questionários iniciais, os alunos assistiram a um vídeo da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre os 17 Objetivos Globais para o Desenvolvimento Sustentável, que apresentou o assunto a ser trabalhado. Após o vídeo, foi realizado um debate sobre o tema, antes de dividir a turma em pequenos grupos para começar a produção dos vídeos. Era responsabilidade dos alunos criar os roteiros, dividir os papéis, atuar e dirigir a produção, sempre sendo auxiliados pelos pesquisadores e pela professora. Nesse estudo de caso em particular, as câmeras foram operadas por profissionais por questão de tempo e praticidade, mas a atividade também poderia ser facilmente realizada com celulares.

O tema sustentabilidade, que já fazia parte do plano de ensino dos alunos da turma para aquele ano, foi escolhido pela sua relevância atual na sociedade. “Não há um tema que envolva de forma mais complexa ou engajada todas essas questões ambientais dos três pilares do desenvolvimento sustentável”, diz Francisco. Enquanto o contato com a escola e com a professora da turma foi fácil, trabalhar coletivamente sempre é um desafio. É trabalho dos responsáveis organizar e orientar os grupos, cuidar para que todos participem igualmente e de forma harmônica.

A atividade foi realizada em dois dias. Uma semana depois, a equipe retornou à escola para apresentar os vídeos desenvolvidos. Com a ajuda da professora, foi retomado o assunto com os alunos em mais um debate antes da exibição dos trabalhos. “Foi muito interessante a reação deles porque riam, adoraram se ver e ficaram superfelizes e motivados. Eles não acreditavam que estavam em um telão no auditório. Ao mesmo tempo, ficava de certa maneira engraçado e interessante. Eles ficaram muito felizes com o resultado”, aponta Francisco. “São vários fatores cognitivos que você está despertando na criança, não só o entendimento desse assunto, mas também a comunicação, a maneira de falar, de se expressar. Gera autoestima, porque eles se viram no vídeo e gostaram, queriam levar para os pais verem”, completa Angela. Houve ainda uma nova conversa com os alunos sobre o que haviam achado da experiência e sobre o que gostariam de melhorar em atividades futuras, além de reaplicarem o questionário inicial. Todos os vídeos realizados por eles foram disponibilizados no Youtube.

Para analisar o efeito do audiovisual no estudo de caso, foram comparadas as respostas dos questionários antes e depois das atividades. O teste era constituído de simples perguntas, pedindo para os alunos escreverem o que entendiam pelas palavras sustentabilidade e vídeo. Quando o teste foi reaplicado, eles mostraram um maior conhecimento dos assuntos, além de utilizarem termos mostrados nos vídeos anteriormente, o que indicava que haviam aprendido com eles. Em conversa com a professora da turma, ela diz que os alunos mostraram um maior interesse em continuar estudando sobre o assunto e contar o que aprenderam. Para uma análise quantitativa, foi aplicado outro questionário, com quatro questões sobre o uso de audiovisual no ensino. A maior parte dos alunos respondeu que a professora nunca costuma utilizar vídeos na aula e também mostraram interesse em outras atividades similares, além de acreditarem terem aprendido algo relevante com esse projeto. Apesar de esses resultados serem somente relativos a essa amostra, eles também demonstram um interesse latente nos alunos no uso de audiovisuais.

Tanto para Francisco quanto para Angela, trabalhar com as crianças foi recompensador. “São crianças que precisam de muita atenção. A universidade tem o dever de retornar o conhecimento produzido dentro dela, e essa é uma das formas mais maravilhosas que existe. Ao dar um retorno para a sociedade, é muito enriquecedor ver as pequenas contribuições que você pode fazer”, diz ele. Angela já trabalhava realizando oficinas sobre diversos assuntos com crianças com o seu grupo de pesquisa, mas essa era a sua primeira vez trabalhando com produções audiovisuais. Para ela, o importante é estimular as crianças. “A gente explica o que é a UFRGS, quais são seus cursos, perguntando o que querem ser quando crescerem e os trazendo para dentro da universidade. A gente vai dizendo que a Universidade é pública e gratuita, que se eles estudarem muito um dia poderão estar junto conosco na universidade. Você planta uma semente”, afirma.

É importante notar que os vídeos não substituem os métodos atuais de ensino, mas, sim, os complementam e auxiliam a transmitir o conhecimento. Segundo Francisco, somente mostrar os vídeos em salas de aula não é o suficiente; é necessário trabalhar o conteúdo de outras maneiras e em conjunto. “Por mais que o vídeo tenha um impacto na sala de aula, esse impacto é muito menos positivo do que se houver um processo colaborativo”, afirma. O uso de vídeos e de outras ferramentas torna o ensino mais dinâmico e ajuda a prender a atenção dos alunos, muitas vezes distraídos por smartphones e outras tecnologias. “O ser humano, principalmente crianças, se interessam pelas tecnologias porque são desenvolvidas para nos atrair e nos influenciar”, aponta o pesquisador.

Embora tenha sido uma amostra pequena, Francisco acredita que contribuiu em vários aspectos, abrindo perspectivas para o aprofundamento de uma pesquisa mais ampla. Para ele, serviu de ponto de partida para estabelecer outras hipóteses, que possam gerar resultados generalizáveis e contribuir para a criação de ações inovadoras na educação e, principalmente, para a atualização dos métodos de ensino. A produção de vídeos empodera os alunos e os incentiva a pesquisar, produzir e refletir sobre o conhecimento. Entre os participantes deste estudo de caso, o interesse em ter mais aulas com atividades audiovisuais foi unânime. “Cada vez mais a gente vai ver a inclusão das tecnologias audiovisuais e dos processos criativos e colaborativos no ensino e na aprendizagem”, expressa o pesquisador. Para que isso possa ser repetido pelos professores, entretanto, é necessário difundir esse conhecimento entre eles, desenvolver competências para que possam aplicar essas atividades de maneira eficiente no dia a dia das escolas.

É preciso, contudo, lidar com as dificuldades do nosso ensino, entre elas a questão financeira, a falta de recursos e a falta de espaço. “Vivemos um momento político muito complicado, em que há grandes cortes no ensino público, o que dificulta a aquisição, a manutenção e a preparação para o uso das tecnologias”, declara Francisco.  Esse não é, no entanto, o único problema enfrentado. Também depende do plano pedagógico e da abordagem adotada pelas escolas para conseguirem utilizar essas ferramentas com excelência. Francisco planeja dar continuidade ao estudo durante o doutorado, e os pesquisadores discutem a possibilidade de disponibilizar o trabalho para outras escolas e desenvolver cursos de formação para que os professores aprendam a trabalhar com o audiovisual em suas próprias salas de aula e atingir mais crianças.

 

Dissertação

TítuloUm caminho audiovisual possível à aprendizagem: estudo de caso em uma amostra de crianças de uma escola pública de Porto Alegre
AutorFrancisco Ramos Milanez
OrientadoraAngela Terezinha de Souza Wyse
Unidade: Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências: Química da Vida e Saúde

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